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01/09/2019 | domtotal.com

A teoria da janela quebrada

Todo radicalismo é nocivo e destrutivo, pouco contribuindo para um mundo melhor e mais justo.

Há necessidade de uma legislação anticrimes e corrupção mais rígida e menos paternalista.
Há necessidade de uma legislação anticrimes e corrupção mais rígida e menos paternalista. (Pixabay)

Por Evaldo D' Assumpção*

Morreu recentemente, George Kelling, psicólogo criminologista e um dos criadores da Teoria da Janela Quebrada, em 1982. Com ela estabeleceu uma relação de causalidade entre desordem e criminalidade, que contribuiu para o surgimento do programa Tolerância Zero, em Nova York, no ano de 1994 quando Rudolph Giuliani era seu prefeito.

Esta teoria tem inúmeros e radicais defensores, da mesma maneira como tem opositores ferrenhos e críticos mordazes. Os primeiros, quase sempre são partidários do neoliberalismo, e os outros, os adeptos de ideologias de esquerda. Acredito que ambos estão certos e errados. A virtude fica, como sempre, no meio. Afinal, todo radicalismo é nocivo e destrutivo, pouco contribuindo para um mundo melhor e mais justo.

Ela foi desenvolvida por Kelling, associado com o cientista político James Wilson, deixando abandonados dois carros em Nova York. Um, num bairro pobre; o outro, idêntico ao primeiro, num bairro nobre. Observaram que, em pouco tempo, o que estava na periferia foi totalmente depredado, tendo muitas peças roubadas, enquanto o outro ficou intacto. Coisa que já era previsível. Em seguida quebraram vidros do carro que estava no bairro nobre, e em pouco tempo ele foi também depredado e rapinado. Também observaram que prédios abandonados, se tinham algumas janelas quebradas, logo as demais eram também quebradas. Diante desse quadro, concluíram que o problema da criminalidade não estava na pobreza e sim na natureza humana. Como consequência, mostraram que a desordem gera a desordem, e também que uma desordem social pode dar origem a muitos delitos.

Essas conclusões deram ao prefeito Giuliani, de Nova York, a base para o seu programa Tolerância Zero. Que, apesar das críticas recebidas, sem dúvida reduziu a criminalidade daquela metrópole americana, que estava em níveis altíssimos, a um mínimo tolerável. O que persiste até hoje. As críticas surgem dos defensores extremados de direitos humanos que confundem, creio eu, os direitos individuais com a falta de consciência dos deveres para com toda a comunidade.

As críticas da radicalidade de ações no programa implantado em Nova York foram, sobretudo, que se criou um estado carcerário, aumentando assustadoramente a população das prisões. Somavam-se a isso as reclamações de violência policial e, sobretudo, a ausência de programas socioeducativos para cuidar das populações mais carentes. Sem dúvida, críticas pertinentes, contudo inadequadas para, simplisticamente, pedir o fim da “tolerância zero”. Como cirurgião, muitas vezes fui obrigado a medidas radicais, especialmente amputações, para salvar vidas. Isso não significa que qualquer lesão, por mais simples que fosse, devia ser tratada com procedimentos radicais como as amputações. Acredito que estabelecer um equilíbrio de ações, sem que um grupo anule o outro, certamente produzirá mais frutos, e frutos duradouros.

Essa teoria se aplica também, e principalmente, na educação dos filhos. Admitir que deixem seus quartos desarrumados, roupas e objetos espalhados pela casa, pratos e talheres abandonados sobre os móveis depois de utilizados, e que joguem lixo em qualquer lugar, fora das lixeiras, tudo isso estimula comportamentos indesejáveis no dia a dia, e em todos os lugares. Mas, se primeiro os pais não derem exemplo de organização e limpeza, mesmo em coisas simples como apagar uma luz ou fechar uma torneira que não se está usando, de nada adiantará cobrar dos filhos comportamentos adequados. Em casa, tanto quanto no trabalho e pelas ruas, organização, limpeza, respeito aos bens públicos, tudo isso resultará numa sociedade mais organizada, respeitosa das leis e dos direitos alheios, onde se poderá viver com segurança e paz.

No Brasil, há necessidade de implantação urgente, das escolas de tempo integral, com programas que contemplem conhecimentos de ética, civilidade e compromisso social. E que essas escolas sejam em quantidade suficiente para absorver toda a juventude e infância de nosso país, boa parte dela perdida pelas ruas, expostas a todos os tipos de crimes e vícios.

Mas há também necessidade de um programa bem conduzido, de reforma de prédios públicos e privados, assim como a conclusão de um sem número de obras públicas que, além de enormemente necessárias, funcionam como os automóveis de vidro quebrado, estimulando as depredações e os crimes. Inclusive com muitos deles servindo de valhacouto para marginais, pontos de venda e consumo de drogas, sem qualquer repressão.

Há necessidade de uma legislação anticrimes e corrupção mais rígida e menos paternalista, com juízes mais ágeis e menos venais. Precisamos de policiamento bem preparado, respeitado e constante, além de punição severa para os criminosos, especialmente os pichadores e vândalos que destroem e emporcalham as cidades, estimulando o crime. Uma coisa são os grafiteiros, artistas de rua que respeitam as propriedades privadas e públicas, e cujas obras são admiráveis. Outra coisa são os pichadores, que deixam suas marcas nos locais mais absurdos, por vezes colocando em risco suas próprias vidas. É preciso que se grave essa assertiva: desordem gera a desordem, e quando os esforços educacionais não funcionam, que nos perdoem os pacifistas empedernidos, mas o peso da lei tem de se fazer, rápido e implacável.

*Evaldo D' Assumpção é médico e escritor

EMGE

*O DomTotal é mantido pela Escola de Engenharia de Minas Gerais (EMGE). Engenharia Civil conceito máximo no MEC.
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