Religião

02/09/2019 | domtotal.com

CNBB reage a críticas de Bolsonaro e católicos conservadores e defende Sínodo da Amazônia

Governo vê o evento em Roma como interferência à soberania nacional e 'criminaliza' bispos como 'traidores da pátria'. Campanha busca sensibilizar igreja em defesa do meio ambiente.

No sínodo, bispos de todos os continentes vão discutir a situação da Amazônia e tratar de temas considerados pelo governo brasileiro como uma
No sínodo, bispos de todos os continentes vão discutir a situação da Amazônia e tratar de temas considerados pelo governo brasileiro como uma "agenda da esquerda". (Arquidiocese de Belém/Divulgação)

A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) lançou uma campanha nas redes sociais e em veículos de comunicação católicos em defesa do papa Francisco e do Sínodo da Amazônia. A intenção é rebater críticas de dentro e de fora da Igreja ao encontro marcado para outubro em Roma. A campanha foi divulgada com duas frases para marcar o conteúdo nas redes sociais: #euapoioosínodo #euapoioopapa #sinodoamazonico.

CNBB e Rede Eclesial Pan-Amazônica vão distribuir vídeos com depoimentos de bispos e uma série documental gravada durante a preparação do sínodo. A entidade quer que as TVs católicas de todo o país produzam conteúdo próprio em defesa do sínodo e do pontífice.

Alas conservadoras ligadas à Igreja questionam o sínodo e veem interferência em "soberanias nacionais". No sábado, o presidente Jair Bolsonaro (PSL) confirmou que a Agência Brasileira de Inteligência (Abin) monitora o evento. "Tem muita influência política lá, sim", afirmou ele. Bispos do Sínodo dizem sentir-se "criminalizados".

Governo 'criminaliza' sínodo
 
Em resposta a críticas do governo Bolsonaro, a Igreja Católica afirmou que os bispos envolvidos na organização do Sínodo da Amazônia estão sendo "criminalizados" e tratados como "inimigos da pátria". Em carta, religiosos rebateram avaliações de que o evento, que tem em sua pauta questões ambientais, represente alguma ameaça à "soberania nacional", como argumenta o Palácio do Planalto e alas conservadoras do clero.

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"Lamentamos imensamente que hoje, em vez de serem apoiadas e incentivadas, nossas lideranças são criminalizadas como inimigos da Pátria", diz documento publicado ontem, após três dias de reuniões em preparação ao sínodo – que está marcado para outubro em Roma. Cerca de 120 religiosos católicos participaram do encontro em Belém.

A carta foi encomendada pelo cardeal dom frei Cláudio Hummes, O.F.M., nomeado pelo papa Francisco como relator do sínodo e porta-voz do pontífice para o tema, para desfazer o que os bispos consideram visões distorcidas sobre as intenções do Vaticano. Na única entrevista que deu após sua nomeação, dom Cláudio disse que o papa quer "pressionar" os governos locais a agir, entre eles, o Estado brasileiro, e defende ajuda internacional aos países afetados pelas queimadas - "criminosamente provocadas", nas palavras da Igreja.

Confira o texto na íntegra: Carta do Encontro de Estudo do Documento de Trabalho do Sínodo para a Amazônia

A realização do sínodo é vista com ressalvas por integrantes do governo brasileiro. O Palácio do Planalto quer conter o que considera um avanço da Igreja Católica na liderança da oposição a Bolsonaro, no vácuo da derrota e perda de protagonismo dos partidos de esquerda. Na avaliação da equipe do presidente, a Igreja é uma tradicional aliada do PT e estaria se articulando para influenciar debates antes protagonizados pelo partido no interior do país e nas periferias.

No evento em Roma, bispos de todos os continentes vão discutir a situação da Amazônia e tratar de temas considerados pelo governo brasileiro como uma "agenda da esquerda", como situação de povos indígenas, mudanças climáticas provocadas por desmatamento e quilombolas. Procurado, o Palácio do Planalto não quis comentar a carta.

Soberania

A redação da carta foi coordenada pelo bispo emérito do Xingu (PA), dom Erwin Krautler, C.PP.S. O documento relata que os bispos estão "angustiados" com a degradação ambiental e "horrorizados" com a violência na Amazônia. E afirma que foram os bispos brasileiros que solicitaram ao papa uma assembleia especial dedicada à floresta tropical.

A defesa da "responsabilidade mundial" pela preservação da Amazônia também é reforçada na carta divulgada ao final do encontro em Belém. Os bispos afirmam, no entanto, que a soberania dos países sobre os territórios não estaria em questão. "A soberania brasileira sobre essa parte da Amazônia é para nós inquestionável. Entendemos, no entanto, e apoiamos a preocupação do mundo inteiro a respeito deste macrobioma que desempenha uma importantíssima função reguladora do clima planetário."

O "currículo" da Igreja na Região Norte virou um argumento dos bispos para justificar a participação deles num movimento de pressão política para mobilizar o governo a intervir na crise ambiental, agravada pelos recentes incêndios florestais. O arcebispo metropolitano de Belém, dom Alberto Taveira Corrêa, disse que a Igreja é a instituição que tem mais conhecimento dos problemas amazônicos, um recado indireto aos militares que questionaram a preparação do sínodo.


Agência Estado e DomTotal

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