Cultura

03/09/2019 | domtotal.com

Humor, indignação e melancolia

O ator e humorista Marc Maron fez a carreira em cima de si mesmo, esfumaçando o limite da fronteira entre criador e personagem.

Quer seja no cinema, TV ou internet, a cada novo passo a relevância de Marc Maron só aumenta.
Quer seja no cinema, TV ou internet, a cada novo passo a relevância de Marc Maron só aumenta. (Seth Olenick/SO Magazine)

Por Alexis Parrot*

"Eu não aguento. Não dá para saber o que ele vai fazer agora. E as pessoas que votaram nele também não sabem... Eu tenho medo do meu telefone. Não consigo mais checar as notícias...

Eu acordo de manhã e fico nessa dúvida, se leio as notícias ou não - não dá para saber o que ele fez enquanto eu estava dormindo... É assustador, porque você já sabe que não vai ser nada de bom..."

"Chegamos em um ponto em que pode-se dizer coisas que antigamente nunca fariam sentido, porque hoje ninguém se espanta com mais nada. Por exemplo, se eu te disser que a partir de agora é permitido caçar nos zoológicos, você vai responder: 'É, faz sentido. Combina com a lógica deles... As crianças vão sentir o baque, mas a maioria daqueles bichos está quase extinta mesmo...'"

"Se ele fizer algo de bom, serei o primeiro a admitir. Não estou dizendo que ele vai fazer alguma coisa boa, sob o ponto de vista de quem não votou nele; e ainda se pode dizer isso nesse país: 'Eu não votei nele.' Nós não vamos acordar um dia nos próximos três anos e meio e dizer: 'Nossa! tudo mudou!' Isso não vai acontecer. Vamos ter que engolir essa e lutar da maneira que pudermos. Agora, se ele fizer algo de bom, eu vou admitir. Mas se for muito pior do que a gente já esperava, as pessoas que votaram nele vão ter que se desculpar. Só isso."   

A transcrição acima faz parte do espetáculo de humor Too real (Netflix). Apesar de dizer respeito aos primeiros meses do governo de Donald Trump, podia muito bem se referir a outro presidente bem mais próximo de nós. Seu autor é Marc Maron, ator e comediante norte-americano. Alguém que, para nossa sorte, estamos nos acostumando a ver com mais frequência.

É ele o responsável pelo celebrado podcast semanal WTF (What the fuck?) with Marc Maron, gravado na garagem de sua casa em Los Angeles ou em quartos de hotel nas cidades por onde passa em turnê. Em dez anos de existência e mais de mil entrevistados depois (Obama ainda ocupando a Casa Branca, Keith Richards, Susan Sarandon, Werner Herzog e Bruce Springsteen foram alguns dos destaques), a atração tem conseguido se manter longevamente entre os mais acessados do gênero comédia no ranking do Itunes.  

Formado no seio de uma família judaica de Nova Jersey, Maron fez a carreira em cima de si mesmo, esfumaçando o limite da fronteira entre criador e personagem. Tanto nos espetáculos e livros de humor já produzidos, quanto no podcast ou no twitter (que usa incansavelmente), é transparente sobre sua história, neuroses e medos. De opinião franca e direta, por devassar tanto sua intimidade consegue soar mais contundente ainda.

Levou a fórmula à enésima potência ao produzir, escrever e protagonizar as quatro temporadas de uma série em que vive um humorista, moldado hilariantemente à sua imagem e semelhança. Trata-se de um ex-alcoólatra sóbrio há quinze anos, duas vezes divorciado e com problemas sérios para se relacionar. Apaixonado por jazz, tem três gatos, é raivoso, pessimista e indignado e faz um podcast gravado na garagem de casa em que entrevista personalidades do entretenimento. Como a coincidência é uma instância desconhecida para ele, o título da série não poderia ser outro: Maron. É uma lástima que o programa, cinco anos após o episódio final, continue inédito no Brasil.    

O grande público fora dos EUA está descobrindo seu talento aos poucos, mas em grande estilo; muito graças ao Netflix, onde está em cartaz atualmente em nada menos que quatro atrações: dois shows solo de comédia, além das séries Glow e Easy. Arrebatador nos palcos de stand up, na ficção rouba a cena de ponta a ponta.

Em Glow, faz o cineasta decadente Sam Sylvia, obrigado a dirigir um programa televisivo de luta livre feminina nos anos 80 para poder pagar as contas e o uísque sagrado de todo dia. Composto por gente tão ou mais desajustada que ele mesmo, o divertido time de lutadoras acaba encontrando no ranzinza e machista Sylvia uma espécie de mentor e guia. À medida que a trama avança, mesmo com o coração amolecendo, ele não abre mão de um princípio fundamental, o mau humor.

(No link, a crítica que escrevi sobre Glow: https://domtotal.com/noticia/1380265/2019/08/mulheres-em-serie/)

Sua persona artística é tão forte que até mesmo quem escreve para ele inspira-se na anatomia previamente desenhada e já estabelecida do personagem Marc Maron, o que deságua em uma terceirização da autoficção. É o caso de Jacob Malco, o quadrinista de Chicago que usa a própria vida como matéria prima para suas graphic novels em Easy.

A série é um emaranhado de gente e situações que discute o desafio do relacionar-se emocional e sexualmente nos tempos atuais. Os três episódios protagonizados pelo cartunista egoísta e neurótico encarnado por Maron são os melhores entre todos das três temporadas do programa. Assistidos em sequência, ficam melhor ainda; viram quase um filme que ecoa Woody Allen, mas com uma dose extra de cinismo.         

A verdade é que Marc Maron traz sempre para seus personagens muito de Marc Maron, do geral ao específico; do panorâmico ao microscópico. Ao mesmo tempo em que as questões que o movem se repetem, há traços particulares do intérprete que não o abandonam: a maneira de esfregar os olhos sem tirar os óculos; os esgares de desânimo; o dedo em riste no momento da raiva e o gosto por anéis, usados simultaneamente em vários dedos das duas mãos. Some-se a isso tudo aquilo que emerge como sua principal maneira de encarar o mundo, a melancolia.

É certo que não o veremos se transformar para assumir um papel; sua maneira de atuar é mais sutil, embebida em tons pastéis e na familiaridade com a verdade que reveste cada personagem. Não serve para vilão, nem para herói porque no fundo (e na superfície) é tão comum quanto qualquer um de nós, daí o encanto de seu trabalho como ator.

Após tentarem por dois anos escrever juntos um roteiro, a diretora Lynn Shelton recebeu de Maron o sinal verde para criar sozinha um filme para ele estrelar. Ao passar dirigindo em frente a uma loja de penhores, ela teve um estalo e viu que aquele era um caminho a ser perseguido. Para ela, "Marc combinava com aquele lugar cheio de objetos tristes, coisas que as pessoas tiveram que abrir mão em um momento de desespero". E não podia estar mais certa.

O resultado é o filme Sword of Trust, que tem conquistado crítica e público desde sua estreia no mês passado nos EUA. Na comédia, Maron é Mel, o dono de uma lojinha de penhores do Alabama às voltas com um complicado processo de compra e venda de uma espada confederada cuja mera existência supostamente seria uma prova de que o sul teria sido o real vencedor da guerra de secessão.

A trama aloucada é mera desculpa para Maron brilhar e funcionar como diapasão para todo o filme. Sua interpretação vai da poesia ao escracho enquanto celebra o vazio, a perda e todas aquelas coisas em nossas vidas que, apesar de não fazerem sentido, não conseguimos passar sem. 

A experiência o agradou e o cinema entrou seriamente em seus planos, após mais de trinta anos de carreira. Provando ser muito mais que um ator que se autointerpreta, ainda este ano poderemos vê-lo contracenando com Joaquim Phoenix e Robert De Niro no filme do Coringa; como o assessor de imprensa que promoveu a viagem do jovem David Bowie pelos Estados Unidos, em Stardust; e no filme policial Wonderland com Mark Whalberg à frente do elenco.

Em uma das passagens mais interessantes da sua participação na série Easy, Jacob Malco se vê retratado em uma exposição de fotos, fazendo com que sinta na pele o que suas ex-mulheres passaram por causa do teor autobiográfico de seus quadrinhos. Ao cobrar da fotógrafa o direito à privacidade, percebe que todos os presentes estão gravando a discussão com os celulares.

Ao reagir com agressividade, o personagem acaba questionando muito do nosso estilo de vida: "Quem são vocês? Zumbis? Nenhum de vocês tem um ponto de vista, é sempre a mesma perspectiva... A única profundidade que vocês alcançam é a distância do braço até o celular. Amanhã vou estar na internet e isso não significa nada - mas vai durar para sempre."

O comentário reverbera o senso de humor de Maron, ácido e inteligente; sua indignação só não é maior que o talento. Quer seja no cinema ou na TV, a cada novo passo sua relevância só aumenta. Porque fez da internet um dos principais veículos para se expressar, vai mesmo durar para sempre. Mas, ao contrário das selfies e das lives nas redes sociais e do ego, o significado e importância de seu trabalho são incontornáveis.

Busque conhecer e consumir Marc Maron. Não há contraindicações.

*Alexis Parrot é diretor de TV, roteirista e jornalista. Escreve sobre televisão às terças-feiras para o DOM TOTAL.

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*O DomTotal é mantido pela Escola de Engenharia de Minas Gerais (EMGE). Engenharia Civil conceito máximo no MEC.
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