Religião

06/09/2019 | domtotal.com

Irmão, onde está o seu tesouro?

O dinheiro se tornou o maior de todos os ídolos, o mais poderoso de todos os poderes e o télos (fim) para o qual a maioria dos indivíduos direciona as suas forças.

Não é possível que a vida do Cristo se concretize em nós se não percebermos que as relações financeiras precisam conduzir à justiça e à paz.
Não é possível que a vida do Cristo se concretize em nós se não percebermos que as relações financeiras precisam conduzir à justiça e à paz. (JP Valery/ Unsplash)

Por Daniel Couto*

A relação (compulsória) dos seres humanos com o dinheiro não é exclusividade do nosso tempo. Tal problema, que diagnosticamos como “contemporâneo”, já no assola desde os tempos mais remotos, levando nações inteiras ao colapso e erguendo gigantescos impérios. Nem sempre conseguimos encontrar respostas e caminhos para esse dilema, nem propor uma relação saudável com tais forças que atraem a humanidade para a negação da sua própria natureza. É nítido, porém, que no contexto atual da nossa civilização, o dinheiro se tornou o maior de todos os ídolos, o mais poderoso de todos os poderes e o télos (fim) para o qual a maioria dos indivíduos direciona as suas forças.

Leia também:

Aristófanes, considerado o maior dos comediógrafos gregos, em sua peça Pluto, apresenta um personagem indignado com a fortuna daqueles que não eram justos e corretos. Riquezas imerecidas que eram esbanjadas enquanto aqueles que viviam corretamente ofereciam tudo o que possuíam para sobreviver. Como alguns que são “tementes aos deuses” podem sofrer na miséria ao mesmo tempo em que os vis, delatores, vigaristas e cruéis ficam cada vez mais ricos? Que justiça é essa que, ao distribuir a riqueza, favorece uns e desmerece os outros? Por que associamos a riqueza ao “comportamento moral”?

Zeus, ao ser indagado pelo personagem, o orienta a seguir o primeiro homem que encontrasse: surpresa, um cego, Pluto, o deus da riqueza! A riqueza é cega, não favorece àqueles que são justos, pois não pode reconhecê-los. A retribuição, no caso de Pluto, se dá em relação aos que a ele se achegam, prestando homenagens, fazendo bajulações e colocando-o em seus pedestais. É pela riqueza que se conquista a riqueza, o elemento moral está ausente e, na maioria das vezes, é ignorado propositalmente para que os engodos sejam mais lucrativos.

A concentração de renda, a desigualdade social, as condições de vida subumanas e uma série de outros problemas políticos/sociais estão ligados à maneira pela qual os seres humanos se relacionam com o dinheiro. Trata-se, neste caso, não do dinheiro em si – que é uma entidade abstrata sem valor absoluto, com uma variação determinada pelo próprio sistema –, mas no lugar que ele ocupa na deliberação e no imaginário global. As moedas, criadas para facilitar a troca de bens e serviços entre os indivíduos, se tornou um mecanismo opressor de estratificação social e de acesso aos direitos básicos. Não conseguimos perceber qual é o “valor” atribuído a uma moeda, pois a sua eficácia como ferramenta de troca universal está exatamente na alienação do poder de identificação com as mercadorias. Para exemplificar, não atribuímos a uma nota de dois reais a imagem de uma dúzia de maçãs, apesar do poder mercantil que ela possui de adquirir tais frutas. Da mesma maneira, não conseguimos mais atribuir ao dinheiro a identidade primeira dele: o trabalho dos seres humanos.

Quanto mais universal é a aplicação do objeto, maior a chance de objetificarmos nele anseios pessoais. Ao atribuirmos ao dinheiro o poder de conquistar todas as outras coisas, ele passa a ser o mediador entre os indivíduos e aquilo que traz felicidade e/ou realização. Sendo assim, nossa realidade é, a todo momento, intermediada pela relação financeira. Não é incomum fazermos um planejamento cotidiano a partir de um montante financeiro, e a própria maneira como vivemos no mundo está atrelada ao tipo de movimentação financeira que somos capazes (a partir da nossa “reserva” monetária) de realizar. As ações passam a ser mensuradas pelo dinheiro, e não o contrário. Estamos em um ponto onde a busca pelo universal (que não se pode alcançar) se tornou a finalidade e, logo, nossas frustrações serão cada vez maiores, pois não é possível conquistar algo que é imaginário.

Mesmo que esse caminho pareça irreversível, o cristianismo tem uma proposta diferente para lidar com essas operações financeiras. Se voltarmos o nosso olhar para Jesus, o movimento autêntico da fé, perceberemos que não é no dinheiro que reside o perigo, mas no ser humano. É a maneira com a qual lidamos com esse mecanismo fundamental das relações pessoais que nos torna mais semelhantes à Cristo ou servidores do “Império”. A moeda pode ser símbolo de misericórdia, paz, esperança e amor se usada para fortalecer os laços fraternos em uma entrega gratuita dos “dons” recebidos pela criação. Quando o nosso trabalho se transforma em dinheiro esquecemos que ele é fruto da nossa relação com o mundo, criado para possibilitar vida em abundância para todos. Não tem sentido, para um cristão, explorar cada vez mais os recursos naturais tendo em vista o dinheiro, destruindo a vida e deixando chagas profundas em nosso planeta. Minerar áreas inteiras, aspirando o “desenvolvimento”, e invisibilizar comunidades antiquíssimas destinando-as ao esquecimento é tudo, menos um gesto que pode ser atribuído a Jesus. Cortar direitos dos trabalhadores, que no Brasil recebem muito aquém do que precisam para sobreviver, com os olhos voltados para os lucros é como queimar incenso para Pluto após um culto consciente de crueldade.

O tesouro dos cristãos não é desabastecido de dinheiro, pois ele pode ser um instrumento para a construção do Reino, mas é preciso expurgar a mediação da ganância para colocar em seu lugar aquele que muda nossa perspectiva: Jesus. É por isso que os Evangelhos nos mostram algumas cenas onde o dinheiro é um entrave para a vida eterna. Não é possível que a vida do Cristo se concretize em nós se não percebermos que as relações financeiras precisam conduzir à justiça e à paz. Administrar os bens do Pai é fazer do dinheiro um aparato que conduz o ser humano ao seu lugar de dignidade, dando a ele todas as condições para a sua existência plena. Ao ser usado como ferramenta de opressão, o dinheiro é diabólico, pois causa a separação dos irmãos, é fonte de injustiça e cria estruturas rígidas onde a morte é apenas mais um algarismo no cálculo contábil. É preciso multiplicar os talentos entregues a nós para que eles possam dar frutos em abundância para os irmãos que mais necessitam. Colocar o tesouro da criação em um investimento bancário, que transforma o intangível em quantidades ainda maiores de dinheiro, é tirar dos outros irmãos o pão para o sustento e a possibilidade da vida.

É por isso que Jesus nos ensina a “olhar para as coisas do alto”, afinal o nosso coração deve estar sempre a serviço. Nossa contabilidade deve contar, necessariamente, com a partilha, a doação e a justiça. Não existe uma boa economia que não se preocupe com a vida comum e com o bem-estar coletivo, pois a vida cristã se dá na colegialidade e na fração do pão. Se as primeiras comunidades eram reconhecidas por colocarem tudo em comum, os cristãos contemporâneos devem ter a coragem de enfrentar a lógica da acumulação e entender que a missão de desprendimento se dá no cotidiano. Para servir, porém, é preciso que nós também tenhamos o que é justo pelo nosso emprego, afinal o “trabalhador merece o seu salário”, e a sabedoria consiste em entender que o dinheiro é motor para as relações humanas.

De que adianta contas bancárias cheias de crédito e uma humanidade miserável? Para que serve um “desenvolvimento” se não somos capazes de preservar o planeta onde nos encontramos? Como podemos servir banquetes enquanto os pobres lutam pelas migalhas que caem da mesa dos “poderosos”? Quem de nós, servos do dinheiro, poderá dizer que deu ao Senhor abrigo, alimento, morada e atenção?

O cristianismo iniciou-se como uma comunidade de periferia, que lutava contra o sistema estabelecido, porque Jesus ensinou uma nova maneira de olhar o mundo e os irmãos. Ao sermos assimilados pelas cortes palacianas, deixamos que um novo cordeiro fosse colocado sobre os altares, que a nossa fé fosse negociada em troca de poderes, lucros e favores. Somos chamados a resgatar essa economia divina: ecológica, solidária, fraterna e humilde, onde nossas relações com o dinheiro são estabelecidas a partir do lugar que ele ocupa. O nosso mediador é outro, o nosso tesouro está na humanidade digna, feliz e restaurada pelo Messias. Diga, pois, irmão: onde está o seu tesouro? Se o dinheiro não é capaz de fazer o bem, mas controla tudo aquilo que somos e gostaríamos de ser, nossa missão é fadada ao fracasso. As nossas relações financeiras são necessárias, mas o nosso maior recurso é o amor misericordioso. Que deixemos de lado os valores impressos nas cédulas para reconhecer no rosto do irmão a face do Senhor. Vamos entregar a César o que é de Cesar, conscientes de que a escolha cristã é a comunhão.

*Daniel Couto é mestrando em filosofia, bolsista da Fapemig e membro da rede de animação litúrgica Celebra.

TAGS


EMGE

*O DomTotal é mantido pela Escola de Engenharia de Minas Gerais (EMGE). Engenharia Civil conceito máximo no MEC.
Saiba mais!



Outras Notícias

Não há outras notícias com as tags relacionadas.

Comentários