Religião

06/09/2019 | domtotal.com

Papa confirma: Maria Madalena foi apóstola

Mais uma vez, essa figura emblemática do Evangelho traz ares de ressurreição a homens e mulheres do nosso tempo.

Maria Madalena, de Guido Reni (1630).
Maria Madalena, de Guido Reni (1630). (Roma - Palazzo Barberini)

Por Mirticeli Medeiros*

Há uma festa que, ainda hoje, passa despercebida para a maioria dos católicos: o dia em que se recorda Maria Madalena. Por quê? Porque, até poucos anos, tal celebração simplesmente não existia.

Os familiarizados com os Evangelhos sabem que ela foi a primeira a testemunhar a ressurreição de Cristo. Porém, por muitos anos, a sua memória foi celebrada como a de uma “penitente”, dando a entender que a sua trajetória não tivesse tanta importância na história da salvação. Sem contar o equívoco milenar de associar sua figura à da pecadora que, por pouco, não foi vítima de um apedrejamento.

Em 2016, em pleno ano da misericórdia, papa Francisco realizou um gesto que, com certeza, surpreendeu não só as mulheres, mas todos aqueles que, em meio às tantas intempéries da vida, se identificam com a “pecadora” salva por Cristo. Naquele ano, o sumo pontífice elevou-a ao grau de apóstola, equiparando a celebração de sua memória à dos 12 apóstolos.

Desde então, no 22 de julho, é celebrada a “apóstola das apóstolas”, como veio empossada oficialmente pela Congregação para o Culto Divino, o departamento vaticano que se encarrega da liturgia, do sacramento e da espiritualidade católicas.

Para muitos, pode significar um ato de piedade qualquer. Porém, em se tratando da linha de governo do papa Francisco, mais uma tentativa de ampliar a visão acerca do papel fundamental da mulher na Igreja. E isso vai muito além de discutir se é viável instaurar o diaconato feminino ou não. Reivindicar que a mulher seja tratada de maneira digna no ambiente eclesiástico é mais que conferir-lhe determinadas funções. A voz da mulher tem peso nas decisões que envolvem as questões religiosas? Sabemos que não.

Divulgam o trabalho de nossas nossas teólogas, freiras e leigas da mesma forma que divulgam o saber produzido pelos homens? Dão-lhes o justo reconhecimento em nossas paróquias, dioceses e no próprio Vaticano? Como vemos, há um longo caminho a ser percorrido.

O reconhecimento de que as mulheres –, estigmatizadas e demonizadas pela sociedade renascentista –, têm um papel fundamental na construção de uma igreja onde todos se sentem membros do mesmo corpo, não deveria se restringir aos documentos do magistério.

Sabemos do esforço dos últimos papas no tocante à difusão do princípio da complementaridade entre homem e mulher. Porém, não foi suficiente para acabar com o clericalismo machista, cuja onda devastadora ainda paira sobre os ambientes eclesiásticos europeus. E não adianta dizer que é exagero, já que basta adentrarmos na realidade romana para vermos que nós, na América Latina, estamos um passo à frente no que tange a promoção do feminino na vida eclesial, apesar de não termos atingido um patamar ideal.

Portanto, celebrar Maria Madalena, a apóstola, é celebrar a esperança de que papa Francisco inaugura um tempo novo, onde homens e mulheres, juntos, são capazes de promover não um mero projeto institucional, mas um estilo de vida: o cristianismo. E pensar que, nos primeiros séculos, os cristãos também eram perseguidos por causa daquela “fraternidade inadequada” para os moldes da época. Era inadmissível, para um romano, que todos fossem considerados iguais perante uma divindade. Nos primórdios, era assim que nos considerávamos: éramos simplesmente irmãos.

*Mirticeli Dias de Medeiros é jornalista e mestre em História da Igreja pela Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma. Desde 2009, cobre primordialmente o Vaticano para meios de comunicação no Brasil e na Itália, sendo uma das poucas jornalistas brasileiras credenciadas como vaticanista junto à Sala de Imprensa da Santa Sé.

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