Ciência e Tecnologia

10/09/2019 | domtotal.com

Inteligência artificial é arma poderosíssima, avalia professor da EMGE

Jacques Fux será um dos palestrantes do Congresso do Conhecimento, que será realizado nesta semana em Belo Horizonte.

Até em campos criativos, como a literatura e a música, as IAs estão tendo resultados bastante significantes.
Até em campos criativos, como a literatura e a música, as IAs estão tendo resultados bastante significantes. (Reuters)

Por Patrícia Azevedo
Repórter Dom Total

Endel é alemão e gosta de compor músicas que melhorem o humor das pessoas. Ele utiliza elementos variados para incrementar suas obras: o batimento cardíaco, o ritmo do sono e sons da natureza, como o barulho da chuva. Em março deste ano, assinou contrato para integrar o time da Warner Music Group, uma das maiores gravadoras do planeta, se unindo a nomes como Anitta, Alanis Morrisette, Adam Lambert e Ed Sheeran. Endel é autor de 600 músicas e deve lançar 20 novos álbuns até o fim deste ano. Alguns já estão disponíveis em plataformas como Apple Music e Spotify – procure por Rainy Night, Cloudy Afternoon ou Foggy Morning. Endel é um algoritmo com inteligência artificial (IA).

Essa breve história bem poderia ser uma obra de ficção, daquelas assinadas pelo premiado escritor Jacques Fux, mas não. Aconteceu de fato e foi manchete nos principais sites de tecnologia. “Particularmente, tenho muito medo do que pode acontecer. Até em campos ‘criativos’, como a literatura, a arte e a música, que supostamente mostram a ‘alma’ do ser humano e não estariam comprometidas com as grandes mudanças tecnológicas, as IAs estão entrando com força e tendo resultados bastante significantes”, afirma Jacques Fux, que é também professor da Escola de Engenharia de Minas Gerais (EMGE). Nesta semana, ele discutirá o tema no II Congresso do Conhecimento, que está com inscrições abertas.

Jacques Fux é graduado em matemática e mestre em ciência da computação pela UFMG, doutor e pós-doutor em literatura pela UFMG, pela Universidade de Lille 3 (França) e pela Unicamp, além de pesquisador visitante na Universidade de Harvard. É autor das obras Antiterapias, Brochadas: confissões sexuais de um jovem escritor, Meshugá: um romance sobre a loucura e Nobel. “Quando fiz um mestrado em computação, comecei a estudar redes neurais/neuronais. Porém, naquela época, não tínhamos ‘dados’ e nem hardware suficiente para chegarmos a resultados interessantes”, conta Fux.

Jacques Fux, escritor e professor da EMGE.Jacques Fux, escritor e professor da EMGE.De acordo com o professor, com o boom na coleta (legal ou ilegal) de dados pessoais e o aumento do poder computacional, foi possível demonstrar como essas redes neurais/neuronais são importantes e úteis para criação de softwares de AI. “Como escritor, meu ofício e minha paixão, hoje me interesso pelos aspectos teóricos e pelos problemas e perigos da AI. Uso essas ideias em meus livros de ficção”, completa.

Ética

O termo inteligência artificial (artificial intelligence) foi cunhado por John McCarthy em 1956, durante um seminário na Universidade de Dartmouth, em New Hampshire, Estados Unidos. Porém Alan Turing, considerado o pai da computação, já discutia teoricamente o assunto em seu conhecido Teste de Turing. O teste foi apresentado em 1950 no artigo Computing machinery and intelligence e tinha como objetivo saber se um computador poderia sair-se bem em um “jogo da imitação”. “Ou seja, ele desejava saber se uma máquina, algum dia, seria capaz de se passar por um humano e enganar um terço de seus interlocutores. Hoje em dia, conversamos com várias IAs – assistentes de celular, de bancos, de sites – e, algumas vezes podemos ser ‘enganados’, saímos sem saber com quem de fato falamos”, aponta Fux.

Atualmente, uma das grandes discussões sobre a IA diz respeito aos limites e à ética. As máquinas podem lidar ou já estão lidando com questões essencialmente humanas? “Realmente essa é uma questão sensível. Acredito, no entanto, que a grande polêmica esteja na ética da aquisição dos dados”, afirma Fux. Em março de 2018, uma investigação conjunta dos jornais The Guardian e The New York Times revelou que dados pessoais de 50 milhões de norte-americanos foram obtidos irregularmente pela empresa Cambridge Analytica e utilizados de modo indevido para fins eleitorais

“As informações pessoais estão sendo hackeadas e é a partir delas que as IAs entram em funcionamento. Uma vez de posse desses dados, podemos ‘treinar’ as machine learnings – um tipo de IA que aprende/deduz com base nas informações coletadas”, explica Fux. O professor acredita que o desafio atual é a conscientização de que a IA é uma arma poderosíssima e, por isso, é preciso pensar nos aspectos morais, éticos, filosóficos e, sobretudo, nos aspectos legais para utilização – com segurança e com benefícios para a sociedade – dessa arma. 

Confira música composta pelo algoritmo Endel:



Redação Dom Total

EMGE

*O DomTotal é mantido pela Escola de Engenharia de Minas Gerais (EMGE). Engenharia Civil conceito máximo no MEC. Saiba mais!


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