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10/09/2019 | domtotal.com

A estrela de David

Voltei para a cama e a uma hora da manhã ouvi uma espécie de tiro, ou seria fogos de artifício?

Livro de Hans Jansen, Do ódio aos judeus ao terrorismo suicida - islamização do antissemitismo europeu no Oriente Médio. Foto de um quadro de Marc Chagall.
Livro de Hans Jansen, Do ódio aos judeus ao terrorismo suicida - islamização do antissemitismo europeu no Oriente Médio. Foto de um quadro de Marc Chagall. (Lev Chaim)

Por Lev Chaim*

Acordei à meia noite de sábado para domingo com um grito. Era sonho ou era real? Mas logo depois de acordado, ouvi um murmurinho forte de vozes lá fora. Deixei a cama e fui para baixo, para a sala, ver o que ocorria. De cara notei através das leves cortinas, vários jovens que passavam em minha rua, rumo ao centro. Deve ser uma festa qualquer, pensei comigo mesmo, e esses jovens, de povoados vizinhos, devem ter se encontrado aqui em Heusden.

Voltei para a cama e a uma hora da manhã ouvi uma espécie de tiro, ou seria fogos de artifício? Depois, não ouvi mais nada e acabei por dormir até às 6h da manhã. Banho, um cafezinho e uma volta lá fora com o meu cão Pitu para o primeiro passeio do dia. Ao voltar, às 7h30, passando pela outra esquina para entrar na minha rua, notei que a janela da casa da vizinha estava com furos e quebrada. Pelo jeito dos furos pensei logo em tiros o que me remeteu ao barulho desta última madrugada, quando os jovens passaram.

Às 8h, já com café da manhã tomado, voltei à casa da vizinha e apertei a campainha. A dona, Topy, que ficou viúva há menos de dois meses, abriu a porta e me convidou para entrar. Ela sabia a que tinha vindo. Na janela com furos, havia uma grande estrela de David, que pertencia ao seu marido, o professor Hans Jansen, que havia escrito vários livros, entre eles, um muito especial e marcante: Do ódio aos judeus ao terrorismo suicida – A islamização do antissemitismo europeu no Oriente Médio. Nesse tempo, ele trabalhava para o Centro Simon Wiesenthal, em Bruxelas.   

E foi justamente essa janela, onde estava a estrela de David, que foi quebrada. Cheguei em casa e coloquei tudo na minha página do Facebook, contando a história pela metade. Aí vieram mais informações dos vizinhos: uma havia visto o ônibus de uma empresa de turismo despejando cerca de 50 jovens na rua, naquela hora da noite. Outro, havia escutado esses jovens gritando o slogan preferido de times rivais ao time Ajax, de Amsterdã, quando queriam insultar os torcedores do Ajax:  Kanker joden (ou seja: Judeus cancerígenos). A palavra judeu passou a ser um modo de se expressar a raiva para com o time de Amsterdã. Ao procurar a origem de tudo isto, não há algo certo. Alguns dizem que era porque no Ajax de antes havia jogadores judeus, outros dizem que é porque havia muitos torcedores judeus. Ninguém sabe ao certo, mas a coisa pegou e ficou até hoje.

Com essas informações em mente, uni uma coisa com a outra: ao verem a estrela de David na janela, os jovens bêbados e talvez drogados começaram a gritar Kanker joden . Para mim não importa o motivo que faz com que muitos perguntem: estavam eles ou não querendo denegrir o time do Ajax, o fato é que naquela hora da noite, eles agrediram uma casa e quebraram os vidros da janela. Fui eu quem deu parte à polícia, com mais dados sobre o fato, inclusive com o nome da empresa que havia transportado esses jovens delinquentes até Heusden. A polícia me disse que havia ido à casa da vizinha da esquina e constatado que não eram tiros, mas pedras que haviam sido atiradas na janela com a estrela. Se fossem tiros, eles teriam vazado no vidro interior da janela.  

Não contente com essa argumentação, enviei um e-mail à empresa para tentar ajudar a minha vizinha a esclarecer tudo e ficar tranquila. A empresa me enviou um e-mail de volta dizendo que o líder do grupo daquela noite não tinha visto nada que os estudantes haviam feito de errado. Eles pediram desculpas à vizinha e enviaram flores. A janela está sendo reparada e os custos irão para o seguro da vizinha. Tudo isso me deixou angustiado. Como é possível a coisa terminar por aí? Foi cometido um crime de destruição de propriedade, com tintas bastante claras de antissemitismo, afora o terror que a senhora Topy enfrentou sozinha, e a polícia não estava fazendo nada.  

Sempre que ouvia relatos desse tipo, eram histórias de longe, de ouvir contar, de ler, histórias verídicas, mas de outras épocas, ou de hoje mesmo, mas de algum lugar distante. Mas naquela noite, o “diabo” passou pela minha rua e presenciei tudo bem de perto. Parece que você vive numa selva, onde impera a selvageria ignorante que faz com que a história se repita sempre. Tudo isso me levou a abrir o livro do falecido professor Hans, como eu o chamava, e ler a sua dedicatória desse livro que citei acima: “Para Topy, minha querida esposa, que me ajuda diariamente a lembrar as palavras do filósofo Sócrates: "Ignorância é o único mal do mundo”. Perfeito professor Hans! E nós vamos em frente para tentar achar os culpados das pedradas, na janela com a estrela de David.   

*Lev Chaim é jornalista, colunista, publicista da FalaBrasil e trabalhou mais de 20 anos para a Radio Internacional da Holanda, país onde mora até hoje. Ele escreve todas as terças-feiras, para o Dom Total.

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