Engenharia Ensaios em Engenharia, Ciência e Sustentabilidade

10/09/2019 | domtotal.com

Economia colaborativa: reduzir, reutilizar, reciclar, reparar e redistribuir

Vivemos um período conhecido como 'era da telecomunicação'.

O fácil acesso à internet, a grande quantidade de opções oferecidas por ela e a simplicidade de seu uso, tornam essa ferramenta extremamente incentivadora ao empreendedorismo
O fácil acesso à internet, a grande quantidade de opções oferecidas por ela e a simplicidade de seu uso, tornam essa ferramenta extremamente incentivadora ao empreendedorismo (Pixabay)

Por Mario Marques* e Jose Antonio de Sousa Neto**

As pessoas estão mais conscientes sobre a importância da sustentabilidade e esta tem por base o tripé formado pela conscientização ambiental, social e econômica. Neste breve texto buscamos analisar como a economia cooperativa tem contribuído para melhoria da qualidade de vida das pessoas e ao mesmo tempo na preservação de nosso planeta.

As necessidades dos consumidores mudam à medida que o tempo passa. O que significa que a maneira como as pessoas consomem também deve evoluir para se adaptar às demandas de uma sociedade moderna. Hoje, mais do que nunca, as empresas estão cientes das preocupações ambientais e sociais dos consumidores e têm levado isso em conta no processo de produção e comercialização dos seus produtos.

Vivemos um período conhecido como “era da telecomunicação”. As novas tecnologias de telecomunicações, principalmente o avanço da internet e das redes sociais, desenvolvidas no início do século 21. Dessa forma, mantemos o planeta inteiro conectado, o que possibilita uma gama de plataformas de serviços. 

O fácil acesso à internet, a grande quantidade de opções oferecidas por ela e a simplicidade de seu uso, tornam essa ferramenta extremamente incentivadora ao empreendedorismo, a criação de novas empresas e realização de diferentes iniciativas. Segundo Rachel Botsman, “a tecnologia está permitindo a confiança entre estranhos. Atualmente, vivemos em uma vila global, onde podemos imitar as relações que costumavam acontecer cara a cara, mas em escala e de maneiras nunca possíveis antes. Então, o que realmente está acontecendo é que as redes sociais e as tecnologias em tempo real estão nos levando de volta – estamos trocando, compartilhando, negociando – mas sendo reinventadas de forma mais dinâmica e atraente”.

A economia colaborativa é uma nova abordagem para o acesso do consumidor a bens e serviços, com base em um modelo interdependente ponto a ponto. A mudança cultural é de uma economia capitalista de consumo baseada em produtores, vendedores e fornecedores ativos, por um lado, e consumidores passivos, por outro. O modelo colaborativo é aquele em que os consumidores também são produtores ou fornecedores com muito maior frequência, embora em pequena escala, e os indivíduos cooperam para atender às necessidades de uma determinada comunidade/sociedade. A ênfase está no empoderamento individual e no uso e distribuição eficientes de recursos, e não na propriedade privada.

Os elementos do modelo colaborativo incluem trocas, compartilhamento, doações, empréstimos e aluguel. Aqui estão alguns exemplos: Mercado Livre Uber, Airbnb, WeWork, Yellow e Green.

O Mercado Livre e outras plataformas de venda e troca de mercadorias as quais chamamos de "mercados de redistribuição" estão cada dia maiores. Em vez de simplesmente jogarmos fora itens usados, como fazíamos antes, os itens agora estão sendo redistribuídos de onde não são mais necessários para onde ainda poderão ser utilizados. “Redistribuição” é o quinto “R”, após reduzir, reutilizar, reciclar e reparar, o que prolonga o ciclo de vida de um produto (reduzindo o desperdício).

O Uber, que todos conhecemos, é um sistema baseado em aplicativo, no qual a ideia é que as pessoas prestem um serviço de motorista usando seus próprios carros. Hoje, a empresa disputa o mercado com vários concorrentes e o aluguel de um carro com motorista está muito mais acessível do que quando tínhamos apenas o monopólio dos táxis.

Atualmente, projetos que estimulam a carona programada também vêm ganhando espaço. Isso não apenas diminui os gastos de cada usuário, mas também coopera com o meio ambiente, diminuindo as emissões de poluentes.

Os motoristas que precisam viajar para qualquer lugar podem convidar alguém para acompanhá-los no carro. Dessa forma, outras pessoas que precisam chegar ao mesmo destino têm uma maneira alternativa de chegar lá. Em troca, os passageiros se oferecem a pagar uma quantia ao motorista para ajudar nas despesas da viagem, principalmente, nos custos com gasolina e pedágio.

Por exemplo, no caso de uma pessoa dirigir todos os dias de segunda a sexta-feira de Betim para Belo Horizonte a trabalho: ela pode convidar outras pessoas que desejam ir a Belo Horizonte no mesmo dia e que estejam dispostas a dividir o custo da gasolina. Nesse caso, não apenas o motorista economiza dinheiro, mas também os passageiros economizam e ainda ajudam diminuir a poluição e o trânsito.

Um ponto crucial antes de viajar é encontrar um lugar para ficar. Hoje em dia, dada a ampla oferta de acomodações essa missão ficou mais fácil. O Airbnb, permite que as pessoas aluguem suas casas ou quartos para viajantes. Essa opção de aluguel de moradias é uma maneira de tornar nossas casas ou cômodos lucrativos quando estão vazios. Portanto, durante o período em que saímos de férias ou mesmo os quartos dos filhos que cresceram e se mudaram, se tornam a residência/quarto de outra pessoa. Se tudo correr bem, ambas as partes saem satisfeitas no negócio.

O compartilhamento ou leasing de escritórios e espaços profissionais também tem crescido como, por exemplo, em Belo Horizonte o WeWork, o Impact Hub, a Casa Baanko, o P7creativo, entre outros. Graças a essas iniciativas, empreendedores podem alugar escritórios ou até mesmo compartilhar espaços. Empresas ou profissionais liberais com atividades comerciais independentes podem utilizar esses espaços como uma forma de trabalho em equipe ou cooperativo. Dessa forma, as despesas são compartilhadas entre todas as partes, gerando uma economia considerável para todos.

Economia colaborativa não é o meio perfeito para satisfazer necessidades, mas uma forma de economia adaptada aos tempos modernos e às novas gerações. De fato, ainda há muito trabalho a ser feito para melhorar esse conceito, a fim de gerar mais confiança aos usuários. No entanto, muitos benefícios podem ser obtidos para todas as partes envolvidas. Esses benefícios podem ser traduzidos de acordo com os diferentes campos: em termos econômicos (as economias), em termos sociais (bem-estar, comodidade, relacionamentos ou amizades criadas) e em termos ecológicos (promovendo o consumo de uma maneira mais racional e ecológica).

O ceticismo e a burocracia governamental são talvez as maiores barreiras que as iniciativas de economia colaborativa precisam enfrentar. Portanto, os esforços daqueles que desejam promover esse modo de consumo devem ser direcionados à criação de confiança.

A implementação dessas propostas é maior que as expectativas da grande maioria. Portanto, é apenas uma questão de tempo, até que todas essas plataformas dedicadas ao movimento colaborativo alcancem uma expansão maior.

A tendência para a economia colaborativa é promover a mudança. Ela combate a evolução do século 20, caracterizada pelo desperdício e consumismo excessivos, até o século 21, para se tornar a era colaborativa. Acredita-se que isso possa se tornar realidade por meio da tecnologia e de uma mudança nas atitudes dos seres humanos, nos levando a uma maneira mais flexível e social de compartilharmos as coisas. Segundo Rachel Botsman “a economia de mercado está unindo e permitindo que as pessoas compartilhem recursos sem sacrificar seus estilos de vida ou suas liberdades pessoais. Estamos em um período em que acordamos de uma ressaca de imenso vazio e desperdício do século 20 e damos um salto para a criação de um sistema mais sustentável, construído para atender às nossas necessidades inatas de preocupação ambiental e social”.

Acreditamos que esta época será lembrada como o período da transformação econômica, quando a economia de livre mercado promove a ideia de compartilhamento e sustentabilidade. Finalmente, cabe fazer a conexão com o tema de cidades sustentáveis. Observe que todas estas questões têm vinculações muito próximas, algumas diretas e algumas indiretas, com a questão do desenvolvimento sustentável de cidades, embora em um primeiro momento talvez isto não fique tão evidente. Quando observamos tudo isso através de um olhar/abordagem mais ampla, que inclui concomitantemente as perspectivas econômica, ambiental, social e cultural esta constatação se torna mais clara. 

* Professor da SKEMA e participante do Grupo de Inibição Científica da EMGE sobre Cidades Sustentáveis

** Professor da EMGE

EMGE

*O DomTotal é mantido pela Escola de Engenharia de Minas Gerais (EMGE). Engenharia Civil conceito máximo no MEC. Saiba mais!

Comentários

Instituições Conveniadas