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10/09/2019 | domtotal.com

Câmeras indiscretas: o terror dos políticos

Chegamos ao ponto em que nos tornamos uma sociedade vigiada e vigilante por natureza.

Recentemente, as vítimas das câmeras à vista têm sido peixes mais graúdos
Recentemente, as vítimas das câmeras à vista têm sido peixes mais graúdos (Pixabay)

Por Alexis Parrot*

"Uma câmera na mão e uma ideia na cabeça". O célebre mote que definiu o movimento do Cinema Novo é também a frase mais famosa de Glauber Rocha que não foi dita por Glauber Rocha – segundo o próprio, o verdadeiro autor do dístico havia sido Paulo Cesar Saraceni. Em tempos de tecnologia acessível, digital e portátil, o lema cinemanovista passa a ser uma regra quase universal. (Digo "quase" porque apenas o primeiro trecho da oração pode ser estendido sem ressalvas. A parte da "ideia na cabeça" não chega a ser tão largamente executada).

Todo mundo, hoje em dia, tem uma câmera na mão e todo mundo pode estar sendo filmado a qualquer momento ou mesmo o tempo todo. O que disso pode virar conteúdo a ser compartilhado ou se tornar viral são outros quinhentos. Muito embora não faltem plataformas para a sua disseminação, o que vai determinar o número de likes ou simples visualizações de qualquer post de vídeo na internet tem a ver, basicamente, com três fatores: interesse público, oportunidade e exclusividade.

Chegamos ao ponto em que nos tornamos uma sociedade vigiada e vigilante por natureza. Os sistemas de observação e escuta (que até algumas décadas atrás eram coisa de filme de espionagem) passaram a integrar normalmente nosso dia a dia, com a segurança deixando de ser a única justificativa para tanto. Como um voyeur que, enquanto espia pelo buraco da fechadura, também é espiado, somos todos Big Brothers de outros Big Brothers.

O conceito de candid camera, tradição pioneira da televisão norte-americana, conquistou o Brasil pelas mãos de Silvio Santos; depois mudou de nome e virou pegadinha no Domingão do Faustão e desdobrou-se na "trollagem", como quer a língua de youtubers e digital influencers que infestam as redes sociais. Podem ser inocentes ou humilhantes e, de quando em quando, invadem a vida real para prestar algum serviço de utilidade pública.    

Foram câmeras escondidas os catalisadores responsáveis por expor o esquema de corrupção do PTB dentro dos Correios – o que acabou redundando no escândalo do dito Mensalão – ou pela derrubada do então governador do Distrito Federal, José Roberto Arruda, flagrado recebendo maços e maços de notas a título de propina, ou ainda a prova testemunhal da corridinha ridícula do deputado Rocha Loures, funcionário de confiança de Temer, puxando uma mala de rodinhas cheia de dinheiro sob a garoa da noite paulistana.

Se ocultas podem fazer tamanho estrago na reputação de homens supostamente de bem, é de se admirar que, mesmo quando à vista, consigam igualmente derrubar do cavalo muita gente desavisada.     

Para aqueles que permanecem sob os holofotes da mídia durante muito tempo, tudo acaba se naturalizando. De tão acostumados com a presença de equipamentos de captação de imagem, ou com tantos microfones impostos a todo momento exigindo opiniões sobre tudo ou coisa nenhuma, mais cedo ou mais tarde, essas pessoas acabam baixando a guarda e daí para frente, tudo pode acontecer. 

É necessário entender a câmera como um mecanismo apenas de ato, nunca de potência. Se ela pode gravar ou filmar, temos que presumir que, quando presente, ela estará sempre gravando ou filmando. Não importa se estamos preparados ou não para ela, não importa se o que enxergamos como relevante (uma entrevista, um depoimento ou cerimônia, por exemplo) não tenha ainda começado ou já terminado. Não somos nós, enquanto objetos de interesse da mídia, que decidimos este tipo de coisa.

Por relevar esta norma, Rubens Ricúpero foi obrigado a renunciar do Ministério da Economia no auge do sucesso do Plano Real, no governo Itamar Franco. Antes de começar uma entrevista em estúdio que iria ao ar ao vivo, conversando casualmente com o jornalista Carlos Monforte, não resistiu à bravata e disse: "Eu não tenho escrúpulos. O que é bom a gente fatura, o que é ruim a gente esconde". O equipamento já estava ligado e as imagens vazaram para quem possuía parabólica. A frase descontextualizada, entre outras, degolou o ministro.

Wiliam Waack também caiu por um vazamento, em situação análoga. Antes de começar uma entrevista, fez uma piada de cunho racista com o entrevistado no estúdio. A fala foi gravada e posteriormente vazada por um editor de imagens que se sentiu ofendido com o comportamento do jornalista.

Recentemente, as vítimas das câmeras à vista têm sido peixes mais graúdos ainda. O presidente da França, Emmanuel Macron, foi flagrado antes do inicio de uma conferência do G7 levando um pito de Angela Merkel, obrigando-o a ligar para Bolsonaro, com vistas a botar panos quentes na situação da Amazônia. Para a chanceler alemã, o francês teria exagerado no tom das críticas e ameaças.

Este final de semana, outro vazamento colocou Macron em evidência novamente. Em um intervalo do mesmo encontro, um vídeo revela uma conversa do ocupante do Eliseu com Sebastián Piñera, presidente do Chile. Falavam sobre o mal estar causado pela aprovação que nosso presidente deu para um comentário grosseiro acerca da primeira dama francesa nas redes sociais.

Macron justificava suas declarações públicas, quando disse que esperava que "em breve o Brasil tivesse um presidente à altura". Tanto Piñera quanto Merkel (que passava pelo local) foram solidários com o companheiro europeu e concordaram que o brasileiro não poderia ter ficado sem resposta. Se no primeiro vazamento Macron teve a imagem arranhada, este último conseguiu restituir para ele a estampa de homem de brios.

Infelizmente, Bolsonaro também já protagonizou triste episódio concernente ao tema. Por mais bobagens e absurdos que possa falar em público, o homem não se cansa de nos surpreender. Sem perceber que as câmeras da TV Brasil já estavam ligadas em um encontro com jornalistas da imprensa estrangeira, confidenciou ao ministro da Casa Civil, Onyx Lorenzoni, referindo-se a Flavio Dino: "Daqueles governadores de paraíba, o pior é o do Maranhão. Tem que ter nada com esse cara".

A frase preconceituosa contra o Nordeste e nada republicana sobre o governador maranhense do PCdoB gerou uma série de críticas e reações inflamadas, não sem razão. Para justificar o presidente, alguns tentaram culpar a imprensa pelo imbroglio (por vazar o que não deveria se tornar público, por não ter sido dito com este objetivo – o que é uma balela); outros sustentaram que Bolsonaro não quis dizer o que disse; como geralmente argumentam aqueles que tentam defendê-lo de sua própria língua.    

Além da exposição inerente à sua condição pública, a vaidade acaba sendo determinante para que a classe política seja traída tão constantemente pelo mecanismo. Talvez se não adorassem tanto ver a si mesmos na tela ou se exibir diante de uma câmera, os políticos poderiam evitar toda uma série de constrangimentos ou mesmo derrotas, sofridos simplesmente por descuido – porque pegos no pulo, dizendo ou fazendo coisas que mostram sua verdadeira natureza.

*Alexis Parrot é diretor de TV, roteirista e jornalista. Escreve às terças-feiras sobre televisão para o Dom Total.

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*O DomTotal é mantido pela Escola de Engenharia de Minas Gerais (EMGE). Engenharia Civil conceito máximo no MEC. Saiba mais!

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