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11/09/2019 | domtotal.com

Escrito de saudade

Até hoje me pergunto como não surtei ao ouvir 'Pressentimento' aquela noite.

Penso que a tradução seria algo relacionado a faca ou navalha.
Penso que a tradução seria algo relacionado a faca ou navalha. (Divulgação)

Por Pablo Pires Fernandes*

Estive pensando sobre o curioso poder de certas músicas e canções. Na capacidade de evocar memórias, o que varia conforme a nota ou o ouvido. As possibilidades são imprecisas como a cor laranja. Umas remetem de pronto a uma determinada festa ou viagem, a lugares. Outras trazem de volta sentimentos vagos de uma época ou estão, inevitavelmente, associadas a uma antiga namorada. Há aquelas que produzem relâmpagos indistintos e atemporais sobre o passado – apagado por defesas inconscientes ou sinapses gastas.

Memória é bem estranho.

Escrevo isto porque morreu um cara especial chamado Elton Medeiros, um bamba dos graúdos. A triste notícia puxou umas coisas guardadas lá no fundo do meu arquivo, o HD inevitável das nossas mentes. Veio minha surpresa feliz ao topar com o CD Elton Medeiros, de 1973, na Motor Music, na galeria da Rua Pernambuco com a Aimorés, no coração da Savassi em BH. E me vem a imagem clara da expressão de decepção da amiga Cláudia por eu ter levado o último exemplar do álbum que ela queria muito. Claro que o CD ainda está guardado aqui em casa e não empresto.

Meu HD, porém, guarda de Elton Medeiros um arquivo mais pesado. Foi registrado numa noite no Rio de Janeiro. Já conhecia bem o álbum – é uma pérola de engasgar tubarões e fazer golfinhos saltarem triplos carpados. Em termos humanos, penso que a tradução seria algo relacionado a faca ou navalha.

Até hoje me pergunto como não surtei ao ouvir Pressentimento aquela noite no Bip Bip, o “alfredístico” boteco em Copacabana onde se celebra a cerveja, a amizade, o samba e as pessoas ainda acreditam num Brasil possível. Como sempre, o lugar vibrava repleto de alma e encontros e sorrisos simpáticos. Não consta no meu HD (surrado, já disse) qualquer esporro do senhor barbudo na noite de 12 de agosto de 2013. Aí a turma do samba tocou Pressentimento, do Elton e com a letra do Hermínio. Já nos primeiros acordes, arrepiei.

A canção sempre me trouxe sentimentos ambíguos. Aquele violão do Dino, a melodia do Elton cantando “ardido peito” deixam no ar melancolia e sofrimento. Só que a letra aponta para um novo amor e retrata um momento de renovação. Afinal, “os jardins estão floridos”. Só que aquele violão do Dino e a melodia do Elton cantando “ardido peito” deixam no ar um tanto de melancolia e sofrimento.

Agora, a poucos dias da morte deste sambista genial, e depois de escutar Pressentimento umas oito vezes durante a escrita deste texto, a lembrança ainda me dói.  Não pude me despedir, isso dói. Viajei às pressas para o Rio e me deparei com ele no hospital, acoplado a aparelhos, máquinas bufantes e tubos. Segurei sua mão, falei com ele, mesmo inconsciente. Naquela tarde, o que é raro, rezei – o Pai nosso é uma oração linda.

Mesmo desorientado, saí do hospital e cheguei no Bip Bip. Pressentimento é meio feliz e meio triste. Andava pela calçada, sem rumo e nunca me esquecerei de ouvir aquele verso: “E a resposta é o silêncio, que atravessa a madrugada”.

O velho Lisca morreu no dia seguinte. Adeus, pai.


*Pablo Pires Fernandes é jornalista. Trabalhou nas editorias de Cultura e Internacional nos jornais 'O Tempo' e 'Estado de Minas', onde foi editor do caderno Pensar. É diretor de redação do 'Dom Total'.

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