Religião

12/09/2019 | domtotal.com

Papa Francisco na África: 'não deixemos que os mercadores da morte roubem os frutos desta terra'

A desigualdade é ideológica e política e não econômica ou tecnológica.

'Nunca desistam perante os efeitos nefastos da pobreza, nunca sucumbam às tentações da vida fácil ou do retraimento em vocês mesmos', disse o papa aos jovens de Akamasoa.
'Nunca desistam perante os efeitos nefastos da pobreza, nunca sucumbam às tentações da vida fácil ou do retraimento em vocês mesmos', disse o papa aos jovens de Akamasoa. (Vatican Media)

Por Élio Gasda*

A falta de um teto e de trabalho, os filhos crescendo malnutridos sob a indiferença dos poderosos, deram forças aos pobres de um pequeno povoado da África, que essa semana recebeu a visita do papa Francisco: “Os vossos clamores transformaram-se em cânticos de esperança para vós e quantos vos contemplam. Cada recanto destes bairros, cada escola ou dispensário é um cântico de esperança que recusa e faz calar toda a fatalidade. Digamo-lo com força: a pobreza não é uma fatalidade”.

As palavras de Francisco foram dirigidas ao povo de Akamasoa que significa “bons amigos” em português e se trata de uma obra humanitária que beneficia mais de 25 mil pessoas. Fundado pelo missionário argentino Pedro Pablo Opeka, que vive em Madagascar desde 1970, o projeto levou dignidade para pobres do lixão. Agora eles trabalham em uma pedreira, ganham salário justo e esperança de vida melhor. 

Talvez essa seja a prova de que “a desigualdade é ideológica e política” e não “econômica ou tecnológica”, como afirma o economista francês Thomas Piketty em seu livro Capital e ideologia. Para o autor, as desigualdades não são “naturais”. São construídas a partir de uma ideologia que cria e divide categorias como: mercado, salários, capital, dívida, trabalhadores mais ou menos capacitados, cotações da bolsa de valores, paraísos fiscais, ricos, pobres, clero, nobreza, competitividade nacional ou internacional. “Se trata de construções sociais e históricas que dependem integralmente do sistema legal, fiscal, educativo e político que se escolhe implementar e das categorias que se criam”. Assim, Piketty e o povo de Akamasoa derrubam a narrativa neoliberal de que “não há vida fora do sistema” e confirma a tese de Francisco “esse economia mata”.

Em sua quarta viagem à África, Francisco está mostrando o que Bento XVI afirmou em 2012: “De maneira reducionista e humilhante, se descreve a África como o continente dos conflitos e dos problemas infinitos e insolúveis”. Enquanto “a África é para a Igreja o continente da esperança, é o continente do futuro”. Em 1910 os cristãos do continente eram apenas 1,4% do total, hoje este número já está em 23,9% e em 2050 serão 38,1%. Talvez saia de lá, de entre os mais pobres, o próximo Papa.

Moçambique e Madagascar estão entre os países mais pobres do mundo. Francisco, conhecido como papa dos pobres, leva esperança: “Nunca desistam diante dos efeitos nefastos da pobreza, nunca sucumbam às tentações da vida fácil ou do retraimento em vocês mesmos ... Lembrem-se daquilo que escrevia o apóstolo São Tiago a propósito da fé: se ela não tiver obras, está completamente morta”. E completa: “que possamos alcançar modelos de desenvolvimento que privilegiem a luta contra a pobreza e a exclusão social a partir da confiança, da educação, do trabalho e do empenho”.

Francisco encerrou sua viagem nas Ilhas Maurício. O país que conquistou sua independência ha 51 anos tem como sistema político a democracia, e enfrenta um intenso desenvolvimento, observado pelo papa, que fez um apelo ao povo e aos políticos que não cedam ao modelo econômico “que precisa sacrificar vidas humanas no altar da especulação e da mera rentabilidade, que tem em conta apenas o benefício imediato em detrimento da proteção dos mais pobres, do meio ambiente e seus recursos”, profetizando uma “conversão ecológica integral” para evitar catástrofes ambientais e graves crises sociais.

E se Francisco visitasse o Brasil de hoje, qual seria sua mensagem? O governo está vendendo nossa independência para os EUA, a democracia está em risco. A miséria, a fome, o desemprego, a falta de moradia nos assustam outra vez. Os projetos que levam dignidade e promovem a justiça foram desmantelados. Vidas humanas sacrificadas ao lucro. Nossas lavouras envenenadas. Nossas fauna e flora em chamas!

Talvez o Papa relembre para os brasileiros, seu discurso na Cúpula Pan-Americana de Juízes: “um sistema político-econômico, para seu desenvolvimento saudável, necessita garantir que a democracia não seja somente nominal, mas sim que possa se ver moldada em ações concretas que velem pela dignidade de todos os seus habitantes sob a lógica do bem-comum, em um chamado à solidariedade e uma opção preferencial pelos pobres” (Laudato si, 158), e completou: “Não há democracia com fome, nem desenvolvimento com pobreza, nem justiça na desigualdade”.

O economista Thomas Piketty, bebendo de outra fonte que não o Evangelho, mas comungando com Francisco de que esse sistema exclui, descarta e mata, completaria: “...sempre existiram e existirão alternativas. Em todos os níveis de desenvolvimento, existem múltiplas maneiras de estruturar um sistema econômico, social e político, de definir as relações de propriedade, organizar um regime fiscal ou educativo, tratar um problema de dívida pública ou privada, de regular as relações entre as distintas comunidades humanas... Existem vários caminhos possíveis capazes de organizar uma sociedade e as relações de poder e de propriedade dentro dela”.

Tanto Francisco quanto Piketty apontam para modelos alternativos e novas possibilidades que favoreçam sociedades menos desiguais, com mais justiça e solidariedade. É preciso acreditar e trabalhar para a mudança, para frutificar a terra e para a vida em abundância. A pobreza não é uma fatalidade!

*Élio Gasda é doutor em Teologia, professor e pesquisador na FAJE. Autor de: Trabalho e capitalismo global: atualidade da Doutrina social da Igreja (Paulinas, 2001); Cristianismo e economia (Paulinas, 2016).

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