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13/09/2019 | domtotal.com

Patinetes sem lei

As patinetes são um desastre anunciado. Não houve nenhuma orientação para educar e alertar a população.

Prefeitura, legisladores e donos do rentável negócio continuam empurrando com a barriga e não resolvem nada.
Prefeitura, legisladores e donos do rentável negócio continuam empurrando com a barriga e não resolvem nada. (Tomaz Silva/Agência Brasil)

Por Fernando Fabbrini*

Belo Horizonte registrou o primeiro acidente fatal com patinete. A vítima esbarrou num bloco de concreto da avenida e capotou; infelizmente não usava capacete. Quando li a notícia lembrei-me de um fato antigo. Após lançarem as Lambretas e Vespas na Europa, nos anos 1960, os fabricantes italianos voltaram seus olhos para o Brasil, antevendo um mercado interessante e até a instalação de uma fábrica. No entanto, desistiram logo do investimento, resumindo-se a algumas centenas de unidades exportadas.

Por quê? Ora: veículos com pneus de diâmetro reduzido só servem para pisos regulares, bem planos e sem obstáculos. É uma simples questão de física: ao passarem por um buraco, por menor que seja este, os pneus pequenos afundam mais e provocam capotamentos com frequência. Resumindo: ruas (ainda!) esburacadas como as nossas já são inadequadas até para pequenas motos – imagine, então, para patinetes, de pneus ainda menores!

Desde o momento em que quase fui atropelado por uma patinete em disparada, pilotada por um garoto sorridente, pensei: “vai dar eme”. Não que eu seja especialista ou técnico em mobilidade urbana ou similar, mas minha intuição não costuma falhar.

De imediato vieram-me à cabeça algumas percepções de realidades nacionais. Na primeira, vi o trânsito já desrespeitado diariamente pelos trogloditas do volante: avanços de sinais, excesso de velocidade, absoluta falta de gentileza, violência. Na sequência, veio a covardia das autoridades que insistem em “campanhas educativas” totalmente inúteis – ao invés da aplicação rigorosa das leis para infratores, costumeiros deseducados e potenciais criminosos.

As patinetes são um desastre anunciado. Não houve nenhuma orientação para educar e alertar a população. Soltaram os brinquedinhos na cidade onde ciclovias são ridículas e o respeito às leis do trânsito continua uma piada. E a maioria das patinetes – a maioria gritante – circula pelos passeios.

A calçada é "o modal único e exclusivo do pedestre"; um território que deve ser resguardado sem exceções. Nela circulam milhares de pessoas diariamente, incluindo os deficientes auditivos e visuais; usuários de cadeiras de rodas, idosos, crianças. Sobretudo estes agora estão também à mercê de tresloucados sobre patinetes, ouvidos tampados com fones, alheios ao mundo real. E é importante lembrar que patinete não tem placa. Se alguém for atropelado por uma, bau-bau: o cara pode fugir e deixar a vítima, sem prestar socorro.

Alguns defensores da moda alegam que “cada patinete na rua é um automóvel a menos”. Exagero deslavado: o usuário de patinete definitivamente não pertence à mesma categoria do motorista que entope o trânsito. Pode haver um ou outro caso nesse perfil. Porém, em sua maioria, são jovens; meninada que se diverte com a nova e perigosa moda.  

Prefeitura, legisladores e donos do rentável negócio continuam empurrando com a barriga e não resolvem nada. Enquanto isso, as supostas velocidades máximas de 20km/h em ciclovias de até 6km/h em calçadas permanecem no plano das fantasias e burocracias comumente ignoradas pelo cidadão. É mais grave do que parece. Pergunto aos advogados: no Brasil, "onde algumas leis pegam e outras não", estamos criando uma nova categoria de cidadãos inimputáveis?        

Há também observações curiosas e que dão o que pensar. Para um amigo gozador, a onda das patinetes é apenas mais um passo na infantilização dos adultos, coisa típica da nossa época. Segundo ele, os homens começaram usando calças curtas – as bermudas. Depois, bonezinhos. E agora patinetes. Ele completa: “em breve, estarão usando fraldas com a ajuda de aplicativo”, debochou.

*Fernando Fabbrini é roteirista, cronista e escritor, com quatro livros publicados. Participa de coletâneas literárias no Brasil e na Itália e publica suas crônicas também às quintas-feiras no jornal O Tempo.

EMGE

*O DomTotal é mantido pela Escola de Engenharia de Minas Gerais (EMGE). Engenharia Civil conceito máximo no MEC.
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