Religião

13/09/2019 | domtotal.com

João Roque Rohr: incansável defensor da educação humanista

Jesuíta recebe título de 'doctor honoris causa' durante II Congresso do Conhecimento, por seu trabalho em defesa da justiça e do aprimoramento humano.

Padre João Roque Rohr, SJ é defensor da educação como instrumento de aperfeiçoamento do ser humano.
Padre João Roque Rohr, SJ é defensor da educação como instrumento de aperfeiçoamento do ser humano. (ASAV)

Por Gilmar Pereira
Dom Total

Para se receber o título de doctor honoris causa é preciso se destacar por virtude, mérito ou serviços em determinada área do conhecimento. Esse é o caso do padre João Roque Rohr, SJ, que recebe a homenagem da Dom Helder Escola de Direito pelo apoio dado à sua mantenedora, Fundação Movimento Direito e Cidadania (MDC), que completa 25 anos em 12 de setembro de 2019.

Pertencendo a Ordem dos Jesuítas, o homenageado tem como missão o serviço da fé e a promoção da justiça, valores que inspiraram o grupo fundador da MDC. No ano de 1994, religiosos consagrados, com formação em Direito e pertencentes a cerca de 30 congregações, sentiram o impulso de trabalhar em conjunto por essa missão. À frente dessa empreitada estava o também jesuíta, e hoje reitor da Dom Helder, professor Paulo Stumpf. O grupo era ligado à Conferência dos Religiosos do Brasil (CRB), que tinha João Roque como membro de sua direção e, em 1996, como seu presidente.

Esses advogados religiosos discerniram sobre a necessidade de incluir mais pessoas em seu projeto, foi quando se abriram à contribuição laical. Somaram-se pessoas que atuavam em prol do bem comum, ligadas à luta dos Direitos Humanos, agentes de pastoral e outros. Com a expansão, a MDC começou a implementar diversos projetos em parceria com o poder público. A atuação se dava em diversas áreas, como a da criança e do adolescente,  sistema prisional, requalificação profissional, vulnerabilidade social etc. Sobretudo, eram oferecidos cursos de formação em cidadania e direitos humanos,  com o objetivo de criar agentes multiplicadores para atuarem na sociedade, nas comunidades.

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Segundo a professora Valdênia Geralda de Carvalho, que se somou à MDC no ano de 1996, o grupo se pôs a pensar num modo de intervenção maior nas estruturas da sociedade. "Nós percebemos que ficar apenas na militância, nos projetos sociais, não conseguiríamos mudar as políticas públicas, o sistema reinante e a ordem vigente. A Dom Helder surge com o propósito de fazer uma ruptura com esse sistema de injustiça. Como o Direito anda de mãos dadas com a política, queríamos formar um profissional do Direito, com sensibilidade social, que ajudaria mitigar as injustiças e o sofrimento das pessoas. Daí a proposta de criar um curso com formação crítica, reflexiva, humanística, diferente da proposta tecnicista".

Ela ressalta que em todo esse processo, desde a reunião dos religiosos advogados até a criação da Dom Helder, o padre João Roque foi um dos seus maiores incentivadores, empenhando tudo aquilo que podia para que se concretizasse os anseios daquele "grupo de sonhadores". A proposta educativa da nova escola de Direito surge dos ideais inacianos, que tem os jesuítas como bastião.

Veemente defensor da educação como instrumento de aperfeiçoamento do ser humano, João Roque Rohr destaca a importância de uma abordagem multidisciplinar. No entanto, afirma que o Brasil tem dado pouco valor ao sistema educacional e investido menos do que o que é determinado pela Constituição, além de criticar a baixa remuneração de educadores, um dos fatores para o declínio do papel de liderança antes desempenhado por eles.

O senhor teve formação em diversas áreas – filosofia, pedagogia, teologia. Como vê a importância de uma formação humanista ampla e multidisciplinar para a educação?

A formação humanística e multidisciplinar no processo educacional desempenha uma importância fundamental, especialmente quando se requer e propõe uma educação integral que desenvolva conhecimentos, habilidades, competências, valores e talentos até o máximo de possibilidades dos discentes. A amplitude dos processos desencadeados e conduzidos de forma interdisciplinar depende de muitos fatores que devem ser verificados e avaliados. As bases curriculares estabelecem as áreas de conhecimentos em torno das quais se entrelaçam os procedimentos correlatos. Estes dependem em primeiro lugar do interesse, da motivação e da dedicação do próprio aprendiz; papel importante cabe, evidentemente, aos diversos mestres e professores; em terceiro lugar concorrem bastante as ferramentas tecnológicas, tanto as reais, quanto as virtuais. A não ser que alguém enfrente obstáculos e limitações de ordem física ou mental de tal natureza que não consiga um autêntico, cabal e contínuo processo de humanização e de multidisciplinariedade. Neste caso, seu limite é estabelecido pelas circunstâncias que a natureza lhe faculta. Creio que a grande maioria dos alunos matriculados em nossas escolas e universidades tem suficiente capacidade de galgar os mais elevados píncaros do saber e do fazer, quando estes são propostos, ministrados e tratados com métodos adequados, em ambientes favoráveis e de forma cíclica e ascensional. É bom levar em conta que o nosso espírito está aberto para o infinito. Este é um apanágio único e exclusivo do homo sapiens. Nenhum mineral, nenhum animal, nenhum vegetal é capaz de se tornar mais mineralizado, mais animalizado, mais vegetalizado, embora possa evoluir para melhor estar a serviço da vida. Como o ser humano tem esta capacidade, ele pode transpor sempre novos horizontes e alcançar a plenitude de suas dimensões de beleza, de verdade, de bondade e de transcendência.

A partir de sua grande experiência frente a instituições de ensino, como tem visto as transformações na educação no Brasil nas últimas décadas?

Face à grandeza continental do Brasil e à disparidade socioeconômica da numerosa população, vivendo em áreas rurais (mais ou menos 20%) e 80% em áreas urbanas contrastantes entre si em tamanhos e culturas, é difícil analisar e avaliar linearmente as transformações educacionais nas últimas décadas. Em princípio se pode dizer que houve avanços e recuos. Enumerem-se como avanços a quase universalização de matrículas na educação básica em alguns nichos privilegiados. Nestes, também, podem se observar melhorias em prédios, em móveis, em equipamentos tecnológicos, em professores, orientadores e gestores escolares, com formação em níveis de graduação e pós-graduação. As clamorosas estagnações ou até regressões perceptíveis a olhos vistos em vastas áreas do território nacional são observáveis na degradação de muitos prédios escolares, na escassez de espaços livres para a prática de exercícios desportivos, na indisciplina e violência de grande número de alunos em relação aos seus colegas e aos professores, na ausência ou displicência de muitas famílias desinteressadas em colaborar na formação integral de seus filhos. No descaso de grande parte das autoridades constituídas em poder para alavancar a educação em todos os níveis em favor de uma nação socialmente justa, economicamente desenvolvida, cientificamente evoluída e socioambientalmente cuidada, tornando novamente o nosso planeta terra saudável e bonita para se viver e conviver. No que pesem as inúmeras declarações das autoridades governamentais em todos os níveis e instâncias, até mesmo estabelecendo Fundos de Desenvolvimento da Educação Básica (Fundeb), ou instituindo bolsas de estudo para alunos carentes no ensino superior, as gestões destas verbas deixam muito a desejar. Até mesmo os percentuais prescritos pela Constituição Nacional sobre a receita orçamentária (25%) não são observados, nem atingem os fins a que são destinados. Talvez a maior mazela de todo sistema educacional sejam os irrisórios salários atribuídos aos educadores que, na sua maioria, trabalham três turnos para se sustentarem com sua família. Dispõem de insuficientes recursos para aperfeiçoamento de sua formação e aquisição de equipamentos didáticos e profissionais atualizados. Por isto, lamentavelmente, já não desfrutam do prestigio e da liderança de outros tempos e do papel que desempenhavam na sociedade.


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