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16/09/2019 | domtotal.com

Donald Trump dispensa o seu 'falcão' mais agressivo

Em termos gerais, Trump manda embora quem o contraria.

Em termos gerais, Trump manda embora quem o contraria.
Em termos gerais, Trump manda embora quem o contraria. (Alex Edelman/Getty Images)

Por José Couto Nogueira*

Que Trump gosta de despedir, já o sabemos desde o programa de TV O aprendiz, que criou a sua reputação nacional entre 2004 e 2015. Que Trump presidente despede a torto e a direito, tivemos ocasião de verificar 34 vezes nestes últimos dois anos – uma média de quase dois despachados por mês, só contando os mais chegados ao topo, secretários de Estado, conselheiros e assessores próximos. 

John Bolton, por exemplo, é o quarto conselheiro de segurança a cair em desgraça. Antes dele, Herbert McMaster, Katherine MacFarland (interina) e Michael Flyn passaram tragicamente pelo posto mais importante da Segurança Nacional, que não só aconselha o presidente como toma decisões internacionais de grande porte e superintende a enorme teia de agências de segurança norte-americanas. Houve ainda um inédito estrategista-chefe, uma espécie de conselheiro de segurança alternativo, ocupado exclusivamente para quem foi criado, Steve Bannon.

Em termos gerais, Trump manda embora quem o contraria. Ou seja, considera que os seus assessores não estão ali para o aconselhar, mas para o aprovar. Se faz uma pergunta, quer a resposta que gosta, não uma que lhe provoque ira ou, no mínimo, incômodo. Se pede uma opinião, é porque quer a confirmação da sua opinião.

Dentro desde quadro de fundo, as pessoas são mandadas embora pelas razões mais variadas, desde suspeitas de traição até falta de entusiasmo. Concretamente, sabe-se de cada caso quando o presidente tuíta que “já não precisa dos serviços” de alguém. Ficou famoso o caso de Reince Priebus, que foi literalmente mandado passear durante o percurso do cortejo presidencial de Maryland para Washington. A meio caminho, o carro de Priebus destacou-se do grupo e seguiu para casa dele, enquanto Trump tuitava ao vivo o que estava a acontecer. Nunca o famoso “Você está despedido!” conseguiu humilhar tanto um caído em desgraça. Priebus, um fiel republicano, não tinha conseguido transmitir, como chefe de gabinete, a enganação firme que lhe era exigida.

Cada um que sai, é outro que entra, convencido de que ele é que vai mudar a postura presidencial. Até se desconvencer, ou ser desconvencido, tanto podem passar 10 dias (Anthony Scaramucci) como dois anos (Sarah Huckabee Sanders). No caso de John Bolton foram 16 meses – entre 9 de abril de 2018 e 10 de setembro de 2019.

A escolha de Bolton para o cargo, se por um lado fazia sentido, uma vez que era, tal como Trump, muito America first por outro surpreendeu, pois o ex-embaixador dos Estados Unidos na ONU (em 2005-2006, sob o presidente George W. Bush) é muito mais radical em política externa – é verdadeiramente o ultra hawk (falcão – belicoso na gíria americana). É contra a ONU, que acha que não serve para nada, o serve os interesses dos inimigos do país. Defendeu a intervenção na Líbia e a guerra do Iraque, é a favor de invadir o Irã, ou provocar uma violenta “mudança de regime”, contra a saída do Afeganistão e a União Europeia. Acha que se deve antecipar um ataque preventivo à Coreia do Norte, endurecer as relações com a Rússia e aumentar o potencial militar na Ásia para uma eventual guerra com a China, que acusa de roubar tecnologia dos Estados Unidos. Queria invadir a Venezuela e é a favor de Bolsonaro e Duque Marquez, da Colômbia.

“Eu é que acalmava o John, por mais estranho que pareça”, admitiu o próprio Trump, que tem opiniões contrárias no que toca à Otan (é contra) e a Putin (é a favor). Realmente, vendo as posições de Bolton em várias situações, era muito mais agressivo do que o presidente, que prefere confrontos comerciais a militares, e tece loas a líderes como Kim Jong-un, que Bolton detesta. Sempre discutiram muito, era sabido; com Trump tuitando os seus estados de alma diariamente, as divergências não podiam passar despercebidas. Mas Trump sempre mostrou mais tolerância para opiniões e pessoas que condizem, por assim dizer, com o seu alter-ego mais agressivo, do que com posturas tolerantes e conciliadoras. Bolton seria o discordante aceitável.

Não mais. Os analistas se dividem em considerar que as divergências se vinham acumulando à medida que Trump se afastava do percurso que Bolton considerava o mais indicado, e as negociações de paz com os talibãs foram a proverbial gota d'água. Bolton era a favor de aumentar a pressão no Afeganistão e, sobretudo, contra qualquer aproximação ao inimigo. As conversações de altos representantes de ambas as partes – ignorando ignominiosamente o governo do Afeganistão que os americanos sustentam – enfureciam-no. Quando Trump convidou os talibãs para ir a Camp David, a casa de férias oficial dos presidentes, onde geralmente só vão amigos e aliados, no intuito de finalizar um acordo de paz que Bolton considera uma derrota, as diferenças tornaram-se excessivas. À última hora Trump cancelou o convite, não por aderir às teses de Bolton, mas porque os talibãs, numa tentativa de forçar a sua vantagem negocial, deflagraram um atentando na “zona de máxima segurança” de Cabul, ferindo 100 pessoas e matando 16, inclusive um americano. O ataque foi a 2 deste mês; o encontro em Camp David seria no fim de semana de 7 e 8; Trump cancelou-o em cima da hora e deu por findas (ou, pelo menos, interrompidas indefinidamente) as conversações. Terça, dia 10, Bolton se demitiu, ou foi demitido. Aliás, se se despediu ou foi despedido tornou-se imediatamente um contencioso entre os dois.

Na terça, Trump tuitou: “Informei John Bolton ontem à noite que os seus serviços na Casa Branca já não são necessários. Pedi-lhe que se demitisse, o que ele fez hoje de manhã.”

À tarde Bolton tuitou que tinha se demitido na segunda à noite. Enviou a mensagem em tempo real para Brian Kilmeade, um dos defensores de Trump no programa Fox & friends: “Sejamos claros. Fui eu que me demiti". Kilmead confirmou que Bolton o tinha autorizado a ler o tuíte frente às câmeras.

Na mesma terça-feira, o senador ultra-conservador Ted Cruz, o republicano do Texas, que em tempos foi adversário de Trump mas que, como tantos outros, depois aderiu de alma e coração ao presidente, exprimiu num programa de TV a sua preocupação com a demissão: “Espero sinceramente que a sua saída da Casa Branca não signifique as 'forças do estado profundo' na Relações Externas e no Tesouro (“deep state forces”, um chavão da extrema direita que se refere a um possível complô do aparelho de Estado contra as políticas de Trump), que têm lutado com toda a energia para preservar o acordo nuclear com o Irã feito por Obama, não tenham finalmente convencido Trump a ser conciliador com o Irã.” E acrescentou: “Aliviar a estratégia de pressão máxima que tem sido tão bem-sucedida a enfraquecer o Estado que é o maior patrocinador do terror, seria um grande erro". Finalmente, Ted Cruz avisou que Trump estaria assim a recuar na “maior vitória da segurança nacional” e a voltar para a deficiente política externa de Obama na Europa, lançando um salva-vidas econômico ao aiatolá (Rohani).

Portanto, a saída de Bolton pode ser vista como uma derrota dos ultras. O que representa, certamente, é uma derrota da possibilidade de qualquer crítica ao presidente da parte dos seus próximos. Como salienta o The Economist, “se esta administração tem ainda tem alguns céticos, ficaram muito caladinhos, e a cabeça de Bolton num espeto ainda os vai calar mais. Isto torna a América um lugar muito perigoso – com um presidente instável que dá maior prioridade aos seus interesses do que ao interesse nacional e estava disposto a fazer um acordo histórico (com os talibãs) para solidificar o seu legado, além de valorizar mais a aceitação do que a honestidade entre os seus próximos".

Isto, escrito num jornal inglês de direita; não se trata duma opinião dos órgãos de fake news americanos sempre prontos a criticar o presidente.

Por ora, o quinto conselheiro de Segurança Nacional (e segundo interino), será Charles Kupperman – que não pode durar, pois fez carreira como assessor de Bolton.

Trump anunciou que nomeará o sexto na próxima semana. Não há qualquer indicação de quem ele possa ser, até porque o próprio Trump deve andar a pensar quem estará disposto a passar pelos vexames que inevitavelmente esperam um operacional da Casa Branca. A única coisa certa é que os Estados Unidos são, como diz The Economist, um lugar cada vez mais perigoso.

*O jornalista José Couto Nogueira, nascido em Lisboa, tem longa carreira feita dos dois lados do Atlântico. No Brasil foi chefe de redação da Vogue, redator da Status, colunista da Playboy e diretor da Around/AZ. Em Nova York foi correspondente do Estado de São Paulo e da Bizz. Tem três romances publicados em Portugal.

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