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15/09/2019 | domtotal.com

Solilóquio dos 80 anos

De início, o questionamento sobre o que me reserva o futuro, cada vez mais exíguo. Depois, um sentimento de felicidade por ter alcançado uma idade que meu pai não atingiu.

Para os demais, basta um toque sutil ou discreta nota a respeito das limitações que hoje temos, às nossas capacidades de outrora.
Para os demais, basta um toque sutil ou discreta nota a respeito das limitações que hoje temos, às nossas capacidades de outrora. (Pixabay)

Por Evaldo D' Assumpção*

Sentado à beira-mar, contemplando o vai e vem das ondas, hoje modorrentas e silenciosas, encontrei-me, novamente, comigo mesmo. Sem compromissos e sem horários a cumprir, mergulhei em meu âmago, despertando pensamentos há muito adormecidos. Há quase dois anos, tornei-me octogenário. Ah! Que sensação ambígua! 

De início, o questionamento sobre o que me reserva o futuro, cada vez mais exíguo. Depois, um sentimento de felicidade por ter alcançado uma idade que meu pai não atingiu. É verdade que minha mãe, não só o fez, como a ultrapassou e muito, só não se tornando centenária, por um lapso de seis meses. Paciência. Vez ou outra já reclamava que Deus a havia esquecido. Fisicamente, estava bem para a sua idade. Quase independente, somente sua memória pouco lhe ajudava, e sua audição estava reduzida a quase nada. Sem maiores sofrimentos físicos – aparentes, ou não reclamados – despediu-se da vida sem aguardar a festa que eu não lhe faria, pelos 100 anos. Não o faria, porque estava certo de que seria apenas uma angústia a mais para ela. Já não reconhecendo bem todas as pessoas, tampouco ouvindo-as suficientemente, de nada aproveitaria os festejos. Eles não seriam para ela, mas somente para os convidados. Encantou-se (como dizia Guimarães Rosa) em setembro de 2015, poupando-se de sofrimentos, e poupando-me, único filho vivo, da cobrança de teria de quem esperava uma linda festa, florida, colorida e musical. Que, como já disse, eu não a faria.

Lá se foram quatro anos de sua partida, e agora aqui estou, desfrutando e também padecendo minha octogenariedade (termo que acabo de criar).

Aposentado, delicio-me com a vista, com a brisa e com as caminhadas a beira-mar, sem qualquer compromisso. Sendo assim, não devo, nem preciso me queixar. Mas, hipócrita eu seria, se sorrisse largamente para todos, especialmente para os que me conhecem nas dimensões equivalentes à parte sobrenadante de um iceberg. Aqueles que se espantam com a minha idade, que nunca escondo, e da qual me orgulho pelo que fiz, e pelo que, mesmo sobriamente, ainda faço. E se espantam também, perscrutando-me em busca de alguns sinais que não veem, das oito décadas bem vividas. Hipocrisia, seria eu sustentar as aparências através de frases de efeito, em busca de retribuições elogiosas, surpreendidas ou, quiçá, tão somente lisonjeiras.

Concordo com o que me falam, e educadamente agradeço, pois seja qual for a motivação, será deselegante tornar-me lamuriento, queixando-me de achaques, mazelas do corpo e da alma, em atitudes desagradavelmente autocomiserativas. Afinal, o que se passa em nosso interior, só deve ser exposto para médicos, psicólogos ou confessores. Para os demais, basta um toque sutil ou discreta nota a respeito das limitações que hoje temos, às nossas capacidades de outrora.

No dia a dia, vejo-me por vezes obrigado a decidir entre aceitar um convite para uma atividade social que tanto apreciei na juventude, e mesmo depois, na idade madura, ou delicadamente recusar, buscando justificativas, nem sempre tão autênticas, contudo bem mais palatáveis para os amigos gentis que me convidam. Sei que muitas vezes frustro minha esposa, com minhas recusas de ir a tais festas ou viagens, coisas de que tanto gostávamos, mas que agora, só eu sei o quanto me custam ir. Há também momentos em que minha presença poderia servir de suporte para alguém, quem sabe de ajuda em situações difíceis, talvez outras que demandam esforço físico, coisas para as quais já tive invejável disposição e habilidade. Nessas ocasiões passo por enorme e desconfortável conflito interior, ressentindo-me silenciosamente por não ter a disposição necessária para atender o que me solicitam, direta ou indiretamente. Contudo, certas atuações musculares, algumas posturas de minha coluna vertebral, os atritos de minhas articulações, especialmente nas mãos, e eventuais lapsus memoriae, causam-me razoável desconforto e dor, refreando meu desejo de dizer sim. Digo então um tíbio não, buscando, no mais recôndito do meu ser, uma explicação, uma justificativa para a negação que me dói enunciar, mas a qual devo a mim mesmo, em respeito a uma realidade que somente eu conheço em toda a sua extensão.

Por vezes observo amigos, companheiros e pessoas conhecidas, que estando na mesma faixa etária, esforçam-se para não revelar as suas reais condições, tampouco a sua própria idade. E o fazem, movidos pela vaidade, pois não se entregam à realidade inexorável da evolução vital, que nos cobra todas as transgressões que fazemos, de nossos próprios limites. Claro, não se pode negar, que existem algumas pessoas com excepcional preservação de suas capacidades.

Outros, mais jovens, procuram nos estimular com frases gentis, por vezes recheadas de exageros, mas ignorando que um dia terão as mesmas experiências e verão que receber com naturalidade os dias, meses e anos que nos são acumulados, é um ato de sabedoria, prudência e amor próprio. Nada a ver com cenas lacrimosas, reclamações infindáveis e verdadeiras chantagens emocionais em busca de vantagens, até mesmo indevidas. Não há porque debulhar-se em lamentações, gemidos e trágicas expressões faciais. O que é natural, naturalmente deve ser recebido e absorvido. Os que estão ao nosso derredor, não precisam ser envolvidos e revolvidos com aquilo que nada podem fazer para modificar. Basta que tenham a paciência e a aceitação respeitosa das limitações dos outros. Um dia, elas também serão suas.

*Evaldo D' Assumpção é médico e escritor

EMGE

*O DomTotal é mantido pela Escola de Engenharia de Minas Gerais (EMGE). Engenharia Civil conceito máximo no MEC.
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