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14/09/2019 | domtotal.com

Trilogia descortina os subterrâneos da metrópole

'A vida de Vernon Subutex', de Virginie Despentes, apresenta uma variedade de personagens à margem do capitalismo e que lutam para manter seus afetos e sua humanidade.

Escritora e cineasta, Virginie Despentes traz a linguagem das ruas para suas obras.
Escritora e cineasta, Virginie Despentes traz a linguagem das ruas para suas obras. (Jean-François Paga/Leemage/AFP)

Por Jovino Machado*

Um cantor pop, estrelas de filmes pornô, viciados, moradores de rua, intelectuais masoquistas, moradores de rua, bêbados, travestis, afilhadas de Patti Smith e Madonna, são alguns dos personagens que desfilam na passarela da A vida de Vernon Subutex, romance da escritora e cineasta francesa Virginie Despentes, publicado recentemente no Brasil. Rotulada de feminista "casca-grossa", Virginie nasceu em Nancy em 13 de junho de 1969, trabalhou como empregada doméstica, prostituta e jornalista freelancer de rock. Foi indicada para prêmios importantes como o Prêmio Goncourt des Lycéens e finalista do Prêmio Man Booker. No cinema dirigiu os filmes Baise-moi, Bye Blondie, Mutantes, Les jolies choses e Serious ladies. É autora de mais de 15 obras, incluindo Apocalypse bebê (2010) e Bye bye Blondie (2004).

Este primeiro volume da trilogia Vernon Subutex, publicado originalmente em 2013 e traduzido em mais de 20 idiomas, está sendo adaptado para a TV. Seu trabalho é um inventário da marginalização dos jovens, participa da revolução sexual vivida pela geração X e da aclimatação da pornografia em espaços públicos através de novas técnicas de comunicação.

A vida de Vernon Subutex tem o cheiro e a alma underground de roteiros cult de do cinema independente. Com seu anti-herói fracassado, Despentes narra numa linguagem subterrânea das ruas de Paris, ou de qualquer grande metrópole, as histórias de pessoas que tentam sobreviver driblando as dificuldades de uma cidade grande num mundo em que cada vez mais o poder do dinheiro dita as regras.

A cada capítulo, a autora insere novos personagens que entram e saem da vida do protagonista. Pessoas que fazem parte do seu passado de vendedor de uma loja vinis e o reencontram vivendo nas ruas como mendigo, depois que seu amigo – um cantor de sucesso que o sustentava – morre de uma overdose.

Na mistura das agruras do seu presente e as lembranças de seu passado, Vernon relembra o seu amor por Márcia, a trans linda e chiquérrima. E é da boca da personagem de uma elegância desconcertante que sai a crítica mais contundente ao capitalismo selvagem. Enquanto cheira uma carreira, a trans fala sobre a cocaína: "A cada teco que mandamos pra dentro temos que pensar que estamos cheirando o narcotráfico, o capitalismo mais violento que se pode imaginar, cada teco tem o corpo dos camponeses que devem ser mantidos na miséria para que os preços não aumentem, cada teco representa os cartéis e a polícia, as milícias privadas, as extorsões dos Kaibiles e a prostituição que acompanha o negócio ... os caras cortam cabeças com motosserra. Foi o dinheiro da cocaína que salvou os bancos, todo o sistema só serve pra lavar dinheiro”.

Na ordem do dia, a autora cria uma narrativa que discute e denuncia os problemas contemporâneos. Num mundo cada vez mais careta, a autora que teve filme proibido e foi vítima de censura na França, aprofunda no tema da violência contra a mulher. Com um número cada vez mais assustador de assassinatos de mulheres, o tema é tratado no capítulo em que o personagem Patrice espanca a sua mulher Cécile. Ele diz que a ama e que seu comportamento de espancador, na verdade, não é falta de amor, mas uma dependência física da violência. Tenta se curar do vício frequentando grupos de apoio, mas o seu desdém pelo próximo e a sua arrogância demonstram toda a sua misoginia. Seu fracasso se confirma quando passa a espancar a esposa na frente do filho de 2 anos que se esconde debaixo da cama com medo de também ser espancado.

Vernon tem charme, é simpático e tem os olhos bonitos. É sedutor, não reclama de nada e parece estar sempre de bem com a vida. Não perde a pose e a elegância quando perde tudo e passa a viver como morador de rua. A maioria dos seus amigos já morreram e ele se nega a admitir para si mesmo que chegou num ponto tão baixo da existência. Ao se encontrar com conhecidos inventa mentiras e diz que tudo é provisório. Muitas vezes orgulhoso recusa ajuda e segue o seu destino de outsider, que aproveitou o sexo, as drogas e o rock'n'roll. Sem ter como pagar um plano de internet, ele vaga pelas ruas sem saber que, graças a um comentário que ele deixou no Facebook, todos estão à sua procura. Sentado na calçada para pedir esmolas, na mesma altura de bolsas e sapatos, Vernon precisa levantar a cabeça para enxergar os rostos. Não aguenta mais o desfile de bundas, mas ainda tem uma carta na manga.

A VIDA DE VERNON SUBUTEX – VOL. 1

De Virginie Despentes

Companhia das Letras

336 páginas

R$ 74,90 e R$ 39,90 (digital)

*Jovino Machado é poeta, autor de 'Sobras completas' (2015) e 'Trilogia do álcool' (2018).

EMGE

*O DomTotal é mantido pela Escola de Engenharia de Minas Gerais (EMGE). Engenharia Civil conceito máximo no MEC.
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