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16/09/2019 | domtotal.com

Não aos bezerros mansos

Alguns sabem que estão morrendo aos poucos, mas poucos se importam. Afinal, estão à deriva

Os meus amigos que estão à deriva certas noites sentem medo e sentem frio. Calafrios. Em outras noites esquentam. São mormacentas tormentas.
Os meus amigos que estão à deriva certas noites sentem medo e sentem frio. Calafrios. Em outras noites esquentam. São mormacentas tormentas. (Pixabay)

Por Ricardo Soares*

Já há alguns anos escrevi que tinha amigos que estavam à deriva e que pouco poderia lhes dizer além de "resistam"! Mal sabia que o pior ainda estava por vir com golpe, Temer e essa coisa hedionda chamada Bolsonaro. Agora sigo dizendo – e isso vale também para mim – para que sigamos resistindo, pois o mundo é osso e não cabe mais entre nós sequer o lirismo comedido. Não, não acusem o golpe da tristeza, pois ela será vista como sinal de fraqueza.

Há amigos que estão à deriva fumando muito, bebendo demais, ouvindo vozes que dão péssimos conselhos, vagando a esmo. Alguns sabem que estão morrendo aos poucos, mas poucos se importam. Afinal, estão à deriva. O problema é que não há boias lançadas ao oceano e as metáforas todas gangrenaram expostas a todas as hemorragias do bom gosto. O mau gosto triunfa. No rádio, no cinema, na TV, no desmonte da cultura. É como se nos dissessem para desistir da arte pela arte, pois o mercado quer sua parte. E ela não é pequena. Pouco vale a pena. E não há como se segurar num cinturão de asteroides porque estão loteando até o pouco espaço da sensatez.

Há amigos que estão à deriva não porque não tenham concretizado seus sonhos, mas porque não há mais sonhos para sonhar. A uma certa altura reinventar o lúdico é uma missão difícil. E há amigos que desistem fácil. Há amigos que estão à deriva porque tiveram que mascar suas próprias convicções e morderam as línguas e deixaram a alegria sem lugar nas poltronas de suas salas. Esses amigos não querem mais escalda-pés ou massagens relaxantes. Querem pelo menos uma única noite de sono bem dormido, sem sobressalto, sem vigílias apavorantes, sem fantasmas do passado.

Há amigos que estão à deriva porque não se perdoam e nem sabem perdoar. Entram em qualquer trem para qualquer lugar e tanto faz se estão no corredor ou na janelinha. Só querem é abrir passagem para dentro de si mesmos. Eles tem olheiras, tem grandes bolsas sob os olhos. As casas em que moram estão em completo desleixo, precisam de uma mão de tinta. Esses amigos precisam de várias mãos. Mas mesmo que eu ou outros as estendam eles não querem segurar. Preferem lentamente deslizar para o abismo perdendo inclusive o gosto e o prazer de contemplar a derradeira paisagem enquanto caem.

Os meus amigos que estão à deriva certas noites sentem medo e sentem frio. Calafrios. Em outras noites esquentam. São mormacentas tormentas. Eles não tem temperatura média e não conseguimos tomar de verdade as suas pulsações. À deriva como pedaços de papel em um lago escuro. Sequer borbulham.

Disse outro dia o festejado jovem cronista Gregório Duvivier – por quem não morro de amores, mas isso não importa – que "esse governo é um gatilho poderoso pra depressão. As queimadas, o apocalipse iminente, a recessão inevitável, o desemprego crescente, a vergonha mundial. O presidente parece eleito pela indústria farmacêutica pra vender antidepressivo". É fato. Nunca um desgoverno contribuiu tanto para nossa tristeza e desalento mas não é só isso. O astral coletivo mundial está down.

O mesmo Duvivier diz que só conhece uma maneira de não ficar triste: é ficar puto. Pois os únicos momentos em que não estamos deprimidos com esse desgoverno é quando estamos com ódio dele, o que é quase sempre. Essa gente nefasta nos tira o sorriso do rosto, nos faz renunciar a esperanças futuras. Nada de riso, só siso, discurso de ódio, colecionismo de inimizades. A alternativa a isso não é ficar passivo. É dizer que não estamos efetivamente de acordo com nada do que é proposto. Que não queremos uma nação inteira à deriva. Sim, egoísta que sou, me preocupo com meus entes queridos e meus amigos à deriva em primeiro lugar. Mas quero que todos nós deixemos o limbo e o pântano. E ando procurando alternativas até em mundos paralelos para que nos curem a todos da apatia. Não podemos ser conduzidos resignados ao abismo como bezerros mansos e molhados. Temos que sair da deriva.

Ricardo Soares é diretor de Tv, escritor, roteirista e jornalista. Publicou 8 livros, dirigiu 12 documentários.

EMGE

*O DomTotal é mantido pela Escola de Engenharia de Minas Gerais (EMGE). Engenharia Civil conceito máximo no MEC.
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