Religião

17/09/2019 | domtotal.com

Senhor, piedade!

A corrupção dos cristãos não é menor que a do povo que ergueu para si o bezerro de metal no deserto.

Do bezerro de ouro ao Touro de Wall Street: cristãos depositam sua segurança em outros 'deuses', como o dinheiro, e se vendem muito facilmente como o fizera o povo do Êxodo.
Do bezerro de ouro ao Touro de Wall Street: cristãos depositam sua segurança em outros 'deuses', como o dinheiro, e se vendem muito facilmente como o fizera o povo do Êxodo. (Sebastian Alvarez/ Wikimedia)

Por Tânia da Silva Mayer*

"Vejo que este é um povo de cabeça dura" (Ex 32,9): é assim que o Senhor se queixa a Moisés do povo que acabara de libertar do Egito, a casa da escravidão, e colocado no deserto a caminho da terra que lhe havia prometido. Ao menor sentimento de abandono por parte de Deus e das lideranças, o povo ergue para si um bezerro de metal fundido e presta sua adoração por este o ter libertado da escravidão. Quem acompanhou a história desse grupelho que foi escolhido por Deus para ser o seu povo e luz para as outras nações desanima diante de tão grande ignorância e infidelidade. Não há dúvidas de que se trata de uma corrupção. Por isso, o próprio Deus se dirige a Moisés afirmando o desvio do povo: "corrompeu-se o teu povo, que tiraste da terra do Egito. Bem depressa desviaram-se do caminho que lhes prescrevi" (Ex 32,7-8).

O povo de Deus sempre viveu na tensão pelo chamado à fidelidade à Aliança com Deus e a possibilidade de rejeição dessa relação. Não poucas vezes, a infidelidade do povo se sobressaiu e pôde ser vista quando este se manteve indiferente frente às propostas de Deus e ao escolher os caminhos mais fáceis. Da parte de Deus sempre há a doação de um amor gratuito sempre disposto a acolher de volta quem se converte, mesmo quando sua ira aparece inflamada com o desejo de exterminar o povo corrompido (cf. Ex 32, 10).

Mesmo depois da morte e ressurreição de Jesus, evento no qual Deus adquiriu para si um novo povo, renascido da Páscoa de Cristo, a tensão entre a liberdade e a escravidão permanece. O cristão é chamado a fazer uma opção radical e definitiva por Jesus Cristo, e isso significa que não há possibilidade de escolher outro caminho diferente daquele que leva ao Reino e o torna presente na vida do mundo. Por essa razão, a conversão deve sempre ser buscada por todas as pessoas, a fim de que possam conformar a própria vida à de Jesus, como resposta da fidelidade à Aliança com Deus.

Mas o que se espera que seja nem sempre se realiza. E a infidelidade ao projeto de Jesus também aparece como fruto da corrupção do povo. De fato, muitos cristãos hoje vivem uma vida à revelia do evangelho de Jesus Cristo. Podemos até considerar que há muitos bons católicos e muitos bons evangélicos, fiéis às suas igrejas e aos seus bispos, padres, pastores e às doutrinas, mas completamente distantes e indiferentes à mensagem do Reino inaugurado por Jesus. Esses cristãos procuraram ocupar os melhores lugares; fazem questão de serem servidos pelos outros; gostam dos cargos de poder; atiram pedras em qualquer pessoa e as acusa de pecadores, aberrações, desviados; vivem uma espiritualidade hipócrita de muita palavra e de nenhuma conversão; não exercem a compaixão e a solidariedade; não se interessam pelos pobres, pelas mulheres e demais excluídos, aproveitam para os excluírem ainda mais; vivem em castas de privilégios e se aliam aos poderosos para manter o status quo; pregam o ódio divino ao invés do amor revelado; incutem o medo e o terror em outras pessoas; depositam sua segurança em outros "deuses", como o dinheiro, e se vendem muito facilmente; preferem não guardar a espada na bainha e a violência está não somente em seus discursos, mas também em suas ações; recusam qualquer diversidade e pluralidade, de modos de vida até os de pensamento; rejeitam o espírito comunitário e cedem ao egoísmo; apegam-se em soluções mágicas e fáceis e dispensam dízimos para contratar Deus em favor da solução de seus problemas; entre outras corrupções.

O fato é que todos podemos nos ver em situações de infidelidade para com Deus, na rejeição ao Reino preparado antes da fundação do mundo. Por isso, é sempre importante ouvir a palavra de Jesus e nos colocarmos outra vez em seu caminho. Enquanto isso, saibamos que esse tipo do ser cristão não agrada nada a Deus. Trata-se, nesse sentido, de uma afronta a ele que vem sempre ao encontro do ser humano em suas dificuldades. Por isso, não é difícil supor que a ira de Deus esteja inflamada por aqueles que pronunciam levianamente seu nome em cultos e liturgias vazios de Jesus e do evangelho do Reino. A corrupção dos cristãos não é menor que a do povo que ergueu para si o bezerro de metal no deserto. Talvez seja ainda maior, visto que Deus deu a conhecer sua plena vontade em Jesus Cristo. Por isso, ainda é pertinente recordar a Deus sua predileção pelo ser humano, sua eleição e seu desejo de Aliança com o povo falho, a fim de que não se inflame e se volte contra nós. Por isso, "vamos pedir piedade: Senhor, piedade! para essa gente careta e covarde", por todos nós.

*Tânia da Silva Mayer é mestra e bacharela em Teologia pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (FAJE); graduanda em Letras pela UFMG. Escreve às terças-feiras. E-mail: taniamayer.palavra@gmail.com.

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