Religião

18/09/2019 | domtotal.com

Migração, perseguição e o possível emudecimento da voz cristã

A crescente migração de muçulmanos preocupa o Ocidente cristão.

Uma vez que a religião é parte integrante de determinada sociedade, é de se esperar que imigrantes, pertencendo a outra fé, busquem seus pares para se reunirem e realizarem seus cultos no novo país.
Uma vez que a religião é parte integrante de determinada sociedade, é de se esperar que imigrantes, pertencendo a outra fé, busquem seus pares para se reunirem e realizarem seus cultos no novo país. (Utsman Media/ Unsplash)

Por Fabrício Veliq*

É muito comum tanto no catolicismo como nos movimentos evangélicos atuais certo medo de perseguição. Que o cristianismo seja a religião mais perseguida no mundo parece claro para qualquer pessoa que se dedica a leitura sobre perseguições religiosas ao redor do globo. São diversos os casos de cristãos presos, torturados e até mesmo mortos devido à sua crença. Essa perseguição, por sua vez, não é algo novo.

O cristianismo, desde seu início, teve que lidar com esse fardo, principalmente nos seus quatro primeiros séculos. As perseguições eram constantes. Os espetáculos envolvendo os primeiros mártires podem ser vistos em qualquer filme abordando essa história. Isso nos mostra que ser cristão não era uma tarefa simples e, em muitos lugares, continua não sendo.

No Ocidente, após o cristianismo virar a religião do Império Romano, como sabemos, a situação mudou drasticamente. De perseguido o cristianismo se transformou em perseguidor, fazendo com os outros o mesmo que sofria anteriormente. A Idade Média, amplamente conhecida e lembrada como um momento de grande perseguição religiosa e de enorme obscurantismo em diversas esferas da sociedade, mostra-se, até hoje, como um retrato e um alerta para o perigo que há quando acontece uma mistura entre religião e Estado, sendo este subordinado àquela.

Com o passar do tempo e o advento da modernidade, juntamente ao processo de secularização que propôs a separação entre Igreja e Estado, ser cristão ou não passou a ser uma questão de escolha. Ninguém mais é obrigado a aderir ao cristianismo, embora a presença e a influência cristã no Ocidente ainda sejam marcantes, definidoras de diversos traços culturais e formas de ver o mundo e as relações humanas. De certa maneira, isso faz com essa religião ainda seja bem influente em grande parte do mundo ocidental.

Diante desse cenário, muitas pessoas veem com grande temor os fluxos migratórios atuais. Estes são resultado das políticas imperialistas e de guerras comandadas por diversos países para angariar zonas petrolíferas e rotas comerciais de grande valor. Por esses conflitos e genocídios acontecerem, na sua maioria, em países islâmicos, milhares de muçulmanos chegam diariamente ao Ocidente. Eles buscam segurança e vida digna, longe dos terrores da guerra e do assombro constante da possibilidade de morrer.

Uma vez que a religião é parte integrante de determinada sociedade, é de se esperar que imigrantes, pertencendo a outra fé, busquem seus pares para se reunirem e realizarem seus cultos no novo país. Essa situação, por sua vez, pode gerar conflito, visto que muitas das regras dos países do Ocidente não levam em conta aspectos caros àqueles que vêm de outro contexto cultural e pertencem a religiões – que, como todas, possuem tanto leituras fundamentalistas quanto progressistas a respeito de seus textos sagrados.

Caso a leitura seja de viés fundamentalista, o que tende a ser mais comum, pode-se facilmente criar guetos que funcionam como Estados paralelos dentro do Estado territorial. Nos primeiros se seguem as regras de determinada religião; no segundo, tem-se que viver de acordo com a laicidade. Essa dinâmica, muitas vezes conturbada, gera conflitos difíceis de resolver e que demandam análises teológicas e políticas aprofundadas para se tentar conciliar as duas formas de ver a mesma realidade.

Do lado cristão fundamentalista, por sua vez, o medo de ter sua voz calada pelo avanço de outras religiões no contexto ocidental faz com que cresçam movimentos contrários à garantia de culto dessas, bem como movimentos xenofóbicos e de perseguição. Claramente, esquecem-se de que o cristão é chamado à acolhida do diferente e à luta pelo direito dos que são perseguidos.

Ao mesmo tempo, esquecem-se de que a voz cristã é a voz do amor. Assim, dizer que uma religião calará a voz cristã é dizer que ela impedirá o cristão de amar o próximo. O que significa maior preocupação com o cristianismo do que com o ser cristão verdadeiramente – importante lembrar que nem toda pessoa pertencente ao cristianismo é cristã e vice-versa.

Contudo, não quer dizer que o cristianismo não seja uma religião importante, que não deva ser respeitado e ter seu direito de culto garantido em qualquer lugar do mundo. Humanamente devemos sempre condenar todo e qualquer tipo de perseguição feita a qualquer grupo religioso.

Ao mesmo tempo, o cristianismo não deve se esquecer de que, mais importante do que dogmas e cultos é o amor para com os semelhantes. De acordo com o Evangelho, esta é a única maneira de mostrarmos que realmente somos discípulos de Jesus de Nazaré.

Desse modo, podemos dizer que se alguma religião conseguir impedir uma pessoa que teve um encontro com o Ressuscitado deixe de amar, então essa religião realmente terá calado a voz cristã.

*Fabrício Veliq é protestante e teólogo. Doutor em Teologia pela Faculdade Jesuíta de Belo Horizonte (FAJE), Doctor of Theology pela Katholieke Universiteit Leuven (KU Leuven), Bacharel em Filosofia (UFMG) E-mail: fveliq@gmail.com.

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