Cultura TV

17/09/2019 | domtotal.com

Inacreditável e decepcionante

A série, baseada em acontecimentos reais, vem sendo apontada como uma resposta feminina a True detective, o consagrado drama policial da HBO.

Merrit Wever e Toni Collette são duas policiais na busca de um estuprador em série.
Merrit Wever e Toni Collette são duas policiais na busca de um estuprador em série. (Beth Dubber/Netflix)

Por Alexis Parrot*

Uma dupla de investigadoras da polícia do Colorado tenta descobrir a identidade de um estuprador em série enquanto acompanhamos, em paralelo, os impactos causados na vida de sua primeira vítima, três anos antes. Se os detetives encarregados tivessem levado a sério esta denúncia inicial, talvez o culpado já estivesse preso, sem a possibilidade de levar adiante sua carreira de crimes e atrocidades.

Em linhas gerais, assim é Inacreditável, série baseada em acontecimentos reais recém estreada no Netflix. Vem sendo apontada como uma resposta feminina a True detective, o consagrado drama policial da HBO.

A atração defende a seguinte tese: a falta de empatia de policiais homens lidando com uma vítima de estupro seria inversamente proporcional à dedicação de uma mulher na mesma função. Ao expor o contraponto de maneira tão simplificada e maniqueísta, perde-se uma ótima chance de discutir questões que orbitam a condição social da mulher e estão na ordem do dia. Este é o problema principal da série, porém, em uma análise mais meticulosa, trata-se apenas da ponta do iceberg.

Existe uma intenção ideológica, e não há problema nenhum nisso. Programas e filmes engajados politicamente de alguma maneira são sempre bem-vindos, desde que apresentados com honestidade e franqueza. O pecado mortal é quando, por inépcia ou má-fé, a ideologia pretendida ultrapassa os limites e se torna panfletagem barata. A mensagem deve estar mesclada no drama - e não o contrário.  

Como fica claro até demais, este é um mundo ainda dominado pelos homens e pela maneira como eles conduzem suas relações com o gênero oposto. Os desafios surgem por toda parte, desde o ambiente de trabalho (onde mulheres ainda precisam provar o tempo todo sua competência), passando pelos dilemas da vida pessoal contra vida profissional, até à maneira como uma vítima de estupro é encarada e julgada. Contra este postulado machista levantam-se as heroínas da série. Além dos crimes a serem investigados, seu trabalho passa a ser o de quebrar estas barreiras (tanto reais, quanto da ordem do simbólico) e de empunhar a bandeira da sororidade. 

Mal comparando, a série policial inglesa Prime suspect (com Helen Mirren encabeçando o elenco) soube tratar estes temas com mais profundidade. Assistida hoje, ainda seria tão atual quanto na data da estreia, em 1991 - enquanto esta Inacreditável já nasce envelhecida e desbotada.

O ir e vir no tempo é algo que está na moda, bem como a estrutura narrativa de histórias que acabam se encontrando em algum momento. Apesar de ser um clichê da televisão seriada do nosso tempo, este lugar comum em si não é um problema - desde que bem trabalhado (como em The affair e True detective) ou subvertido (como em Boneca russa, onde o tempo e a repetição são a própria narrativa). Infelizmente, nem uma coisa nem outra chega a acontecer em Inacreditável.    

Um dos responsáveis pela série (criação, produção executiva e roteiro de alguns episódios) é o escritor Michael Chabon. Provavelmente, seu romance de maior repercussão ainda seja Garotos incríveis, graças ao filme homônimo, dirigido por Curtis Armstrong e estrelado por Michael Douglas. É um dos casos raros em que o filme ficou melhor do que o livro - e olha que o livro já era maravilhoso.

Explico o porquê: na transposição para as telas, soube-se manter tudo de melhor do livro e apenas o que não fazia falta mesmo para o evoluir da história foi cortado. Ainda assim, o filme é extremamente fiel à sua matriz. A julgar pelo que foi visto em Inacreditável, temos que levantar as mãos para o céu que a adaptação foi feita pelo diretor do filme e não pelo próprio Chabon - que na série parece estar escrevendo um romance e não um roteiro. Saber que ele também chefia a equipe criativa da série que vai retomar o personagem do capitão Picard, de Star trek - a nova geração, é para deixar qualquer fã da franquia sem dormir.

Há uma preocupação em se explicar demais tudo a todo momento, quer seja sobre a intenção ideológica ou sobre procedimentos de investigação. Com tamanho didatismo, criou-se até o personagem de um estagiário para que as policiais veteranas pudessem ensinar a ele tudo aquilo que o roteiro acha que o público não vai entender. Essa condescendência com o telespectador é uma afronta e, narrativamente, tudo acaba resultando artificial.

Com a sutileza já morta e enterrada, a direção dura e burocrática (com Lisa Cholodenko puxando o cordão) joga a pá de cal derradeira em todo o projeto. Todo o desenvolvimento da história é feito por meio dos diálogos e a imagem pouco ou nada acrescenta; as câmeras apenas acompanham a ação dos atores, como se fosse uma novela brasileira das mais rasteiras.

A cada novo episódio, a série se distancia mais e mais da excelência de True detective. O grande mérito desta é se aproveitar do gênero policial para falar sobre outras coisas. O que mais importa é a trajetória pessoal e a construção psicológica dos protagonistas; o crime é apenas uma desculpa para tanto.

Porque vai no caminho oposto, com personagens banais e uma investigação que caberia facilmente em um filme de hora e meia, Inacreditável definitivamente não é True detective. Para quem se motivar a assisti-la querendo encontrar alguma semelhança, a decepção é garantida.

*Alexis Parrot é diretor de TV, roteirista e jornalista. Escreve sobre televisão às terças-feiras para o DOM TOTAL.

EMGE

*O DomTotal é mantido pela Escola de Engenharia de Minas Gerais (EMGE). Engenharia Civil conceito máximo no MEC.
Saiba mais!

Comentários


Instituições Conveniadas