Saúde

18/09/2019 | domtotal.com

Pesquisa da UFMG possibilita diagnóstico do câncer de fígado antes de a doença manifestar

Em entrevista ao Dom Total, coordenadora da pesquisa diz que descoberta já pode ser desenvolvida e oferecida à sociedade.

Da direita para esquerda: Maria de Fátima Leite, Antônio Melo (doutorando), Cristiano Lima (cirurgião hepático), Paula Vidigal (patologista), Marcone Santos (mestrando) e Andressa França (doutoranda)
Da direita para esquerda: Maria de Fátima Leite, Antônio Melo (doutorando), Cristiano Lima (cirurgião hepático), Paula Vidigal (patologista), Marcone Santos (mestrando) e Andressa França (doutoranda) (Arquivo pessoal Maria de Fátima Leite)

Por Rômulo Ávila
Repórter Dom Total

Pesquisadores da Universidade Federal de Minas (UFMG) conseguiram encontrar um marcador universal presente em diferentes causas que podem levar ao câncer de fígado. Na prática, a descoberta promissora representa a possibilidade de diagnosticar a doença antes da formação do tumor. O câncer de fígado é a segunda causa de morte entre os mais de 300 tipos de cânceres conhecidos. O estudo foi desenvolvido no Centro de Estudo do Fígado da UFMG, com apoio da Universidade Yale, dos Estados Unidos, e foi capa recente da GUT, uma das mais conceituadas revistas médicas da área da hepatologia e gastroenterologia do mundo.

“Isso mostra a relevância mundial do tema abordado. No momento, estamos procurando parceiros para disponibilizar essa descoberta para a sociedade na forma de diagnóstico que pode prevenir o surgimento do câncer de fígado”, disse ao Dom Total a professora Maria de Fátima Leite, coordenadora do centro e líder da pesquisa.

“Isso é espetacular, porque a gente trabalha com uma estratégia de prevenção da instalação do câncer hepático e não, propriamente, de cura do câncer hepático. Então, a estratégia de prevenir é melhor do que chegar no estágio final de ter câncer, o que, na maioria das vezes, envolve o transplante de órgão, às vezes a ressecção (retirada) de parte do órgão, estratégias mais intensas para o paciente”, analisa.

No estudo, os cientistas da UFMG e de Yale analisaram uma proteína produzida a partir de um gene em amostras de fígado humano e em células de câncer de fígado de camundongo.

O gene identificado altera a sinalização intracelular de cálcio, provocando um aumento da proliferação celular e a redução da autodestruição das células tumorais (apoptose), eventos importantes para a formação do tumor hepático, explica Rodrigo Machado, coautor do estudo.

Maria de Fátima Leite trabalha com estudo do fígado há 20 anos. “Este trabalho específico vem sendo desenvolvido nos últimos cinco anos por alunos de graduação e de pós-graduação, com a colaboração da Universidade Yale, nos Estados Unidos”, diz a professora.

A pesquisadora explica que são vários os fatores que podem levar ao dano hepático. E cita estilo de vida, obesidade, alcoolismo, infecções virais (hepatites) e o consumo de alimentos contaminados com agrotóxicos podem danificar o fígado.

“Essas condições todas, quando são de caráter crônico, levam ao aparecimento do câncer do fígado. O que o nosso estudo encontrou foi um marcador universal. Isso significa que independentemente dessas diferentes etiologias que podem levar ao câncer de fígado, esse marcador está presente nas células do fígado em estágios precoces, antes do surgimento do câncer hepático”, detalha.

A professora mostra preocupação com a liberação desenfreada de agrotóxicos. Somente nessa terça-feira (17), o governo federal autorizou mais 63.  Com isso, chega a 325 o número de pesticidas liberados em 2019, recorte histórico.  “Hoje, a gente pode, por exemplo, frisar a questão da liberação exacerbada desses agrotóxicos. Então, com certeza, nós vamos presenciar, em um futuro breve, um aumento de câncer hepático”, alerta.  

Maria de Fátima ressalta que o resultado do estudo já pode ser aplicado imediatamente, com possibilidade de evitar que o câncer se desenvolva. “É uma técnica simples e nós estamos, na verdade, em busca de parceiros para que isso possa ser viabilizado de forma geral para sociedade”, disse.

“A função da universidade é gerar conhecimento e acho que isso nós temos feito com qualidade, tanto é que revistas divulgam os resultados para os pares e para a sociedade. Agora, o desenvolvimento de um produto depende de empresas e de laboratórios, e isso já não é mais parte da universidade. Mas, no momento, o que estamos fazendo para colocar esses achados em prática é procurar parceiros para desenvolver kits de diagnóstico e viabilizá-los para toda a sociedade, não só no Brasil, mas internacionalmente”, destaca.

Pesquisa sob risco

Os cortes recentes anunciados pelo governo federal são motivo de preocupação para a pesquisa. “Estamos vivenciando agora uma guerra contra a educação e a ciência nesse país. É quase que desnecessário falar o prejuízo que isso representa para nossa sociedade. Então, com essa atitude, o governo está condenando nossa sociedade ao fracasso total”.

Para ela, o estudo que identificou o marcador universal e tantos outros estão ameaçados, uma vez que os estudantes podem ter as bolsas suspensas. Ela ressalta que os alunos da graduação e pós-graduação passam por processo de seleção rigoroso e se dedicam exclusivamente à pesquisa.

“É um grupo de profissionais com qualidade muito alta. É difícil encontrar no mercado pessoas com disponibilidade de dedicação exclusiva, como eles têm que ter. Então, esses cortes vão prejudicar, sim, o andamento da pesquisa, porque não vai ter quem possa continuar a realização dos estudos. Independentemente de conseguirmos financiamento no exterior para investir, sem as bolsas de estudos, o trabalho é interrompido. E isso representa um prejuízo grande para a sociedade”, finaliza.


Redação Dom Total

EMGE

*O DomTotal é mantido pela Escola de Engenharia de Minas Gerais (EMGE). Engenharia Civil conceito máximo no MEC.
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