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18/09/2019 | domtotal.com

Aceita uma torta de abacaxi?

O sorriso aberto de dona Rosa ao abrir a porta causou constrangimento entre os soldados.

Estava prestes a desligar o aparelho de escuta quando ouviu a voz de um homem.
Estava prestes a desligar o aparelho de escuta quando ouviu a voz de um homem. (Pixabay)

Por Pablo Pires Fernandes*

Depois de conectar os fios, Carlos Alberto esperou horas antes de ouvir qualquer conversa do aparelho grampeado. Os colegas da tarde na delegacia tinham ido embora e, agora, o pessoal do turno da noite, gente rude, com quem não simpatizava. Mas era respeitado e não tirou o ouvido do aparelho, afinal, queria contribuir para o bem do país, era um patriota.

Ouviu, finalmente, o aparelho emitir algum som do número suspeito. A conversa lhe pareceu insólita. Duas senhoras, sob um chiado irritante, discorriam sobre a missa de domingo e trocavam a receita de uma torta de abacaxi. Mesmo ciente que não serviria para nada, anotou o nome da pessoa citada na conversa. Rosa. Poderia ser algum código, apesar de parecer uma comadre das interlocutoras – Hermengarda e Ersília, que tossia muito enquanto insistisse excessivamente como as claras deveriam ser batidas – até confessarem, ele pensou – e a quantidade de fermento a ser adicionada à massa.

Ao final do terceiro dia, Carlos Alberto estava decidido a voltar para casa – a mulher lhe cobrava a presença, o conteúdo das conversas eram paroquiais, não suportava mais estar com a mesma roupa e dormir no sofá da delegacia. Estava prestes a desligar o aparelho de escuta quando ouviu a voz de um homem. “Rrrrrrrrrrr, tec, tec... “Oi, Mino, preciso de saber como lidar com a flor no dia 25, sabe?”. “Calma, vamos nos encontrar naquele mesmo lugar amanhã às 9h20 e te passo tudo”, respondeu a outra voz.

Depois de dias de desconforto, Carlos Alberto tinha uma pista, alguma, mesmo que vaga, mas soube, enfim, que ali tinha qualquer coisa além de conversa de senhoras carolas. Não era possível saber o local do encontro e fazer o flagrante no dia seguinte, mas tinha a qualidade da paciência. Era questão de tempo.

Quando os militares cercaram a casa e chutaram a porta, Hermengada ficou estática, tremia toda. Apesar da truculência da invasão, Oswaldo, o sargento no comando, buscou um copo d’água e a fez sentar na poltrona. Acalmou-a enquanto os homens vasculhavam cada canto, revirando tudo e deixando uma bagunça que a senhora Hermengarda demorou três dias para colocar em ordem. Nada, nem sombra do vermelho filho-da-mãe.

A batida na casa de dona Ersília tampouco rendeu qualquer pista. Os milicos deixaram a casa revirada e a velha sentada no sofá. Restou-lhe a companhia da vizinha, que a abanava com o terço na mão e insistia que não tinha chegado a hora de encontrar o Senhor. Sargento Oswaldo, o único com noção de respeito e dignidade entre os oito integrantes das Forças Armadas ali presentes, perguntou, de maneira profissional e gentil, por dona Rosa. Dona Ersília não tinha fôlego e fez gestos vagos, mas a vizinha lhe indicou o caminho. “São três ou quatro quarteirões”, disse. Eram sete, mas os homens acharam a casa e bateram à porta.

O sorriso aberto de dona Rosa ao abrir a porta causou constrangimento entre os soldados, mas os encarregados de vasculhar a residência entraram e esperaram a senhora passar o café. Obviamente, foi impossível resistirem à torta de abacaxi.

Foram-se. Dona Rosa comeu a torta e, depois de uns 40 minutos, foi até à copa e disse: “Podem descer, já foram embora”. O recorte no forro que dava acesso ao sótão se abriu e desceram três jovens e assustados. “Dona Rosa, a gente vai embora daqui, mas guarde essas caixas com carinho, tá?”. “Claro, meninos”, respondeu a senhora, sem saber que, nas caixas, havia pistolas, um fuzil, uma submetralhadora e cinco revólveres. Antes de os meninos partiram, insistiu para que provassem a torta de abacaxi.

EMGE

*O DomTotal é mantido pela Escola de Engenharia de Minas Gerais (EMGE). Engenharia Civil conceito máximo no MEC.
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