Religião

19/09/2019 | domtotal.com

Setembro amarelo: valorize a vida, sempre!

O suicídio é uma questão global: em todo o mundo, uma pessoa tira a própria vida a cada 40 segundos.

Faz-se necessário quebrar o tabu em torno do suicídio.
Faz-se necessário quebrar o tabu em torno do suicídio. (Pixabay)

Por Élio Gasda*

“Os problemas atuais requerem um olhar que tenha em conta todos os aspectos da crise mundial, proponho que nos detenhamos agora a refletir sobre os diferentes elementos de uma ecologia integral, que inclua claramente as dimensões humanas e sociais” (LS, 137). Papa Francisco nos alerta que “a interdependência obriga-nos a pensar num único mundo, num projeto comum” (LS,164). A vida é um projeto comum, a vida do planeta Terra, sua fauna, sua flora, seus rios e mares e as pessoas. Os problemas são globais e as soluções também.

É setembro, é amarelo. O suicídio é uma questão global: em todo o mundo, uma pessoa tira a própria vida a cada 40 segundos (OMS). É bom não perder de vista o que diz papa Francisco: "Quanta dispersão e solidão existe entre nós. O mundo está completamente conectado e, ainda assim, parece crescentemente desunido". O suicídio pode estar interligado a causas antropológicas e existenciais, mas também a questões ambientais, econômicas, sociais e políticas. Basta consultar os dados da ONU.

A cada ano, cerca de 800 mil pessoas tiram a própria vida e um número ainda maior de indivíduos tenta suicídio. Foi a segunda principal causa de morte entre jovens de 15 a 29 anos em 2016. Nos adolescentes de 15 a 19 anos ficou em terceiro lugar, atrás dos acidentes de trânsito e violência interpessoal. Também em 2016, 79% dos suicídios ocorreram em países de baixa e média renda, os países ricos também registram casos. A taxa maior esta entre os homens, com 13,7% contra 7,5% entre as mulheres. No geral, no Brasil a taxa é de 6,1% para cada 100 mil habitantes. Ingestão de pesticidas, enforcamento e armas de fogo estão entre os métodos mais comuns de suicídio.

Nas Américas as taxas aumentaram em 6%. No Brasil os números entre adolescentes que vivem nas grandes cidades aumentaram 24% entre 2006 e 2015, de acordo com pesquisa da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Os pesquisadores se basearam em dados do Sistema Único de Saúde, Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e Coeficiente Gini (que mede desigualdade), apontam a popularização da internet, as mudanças sociais no país e a falta de políticas públicas de combate ao suicídio como as principais razões para esse aumento.

Os suicídios são evitáveis, alerta a Organização Mundial de Saúde (OMS) convocando todos os países a adotar estratégias de prevenção, com esforços que necessitam de coordenação e colaboração entre os múltiplos setores da sociedade, incluindo saúde, educação, trabalho, agricultura, negócios, justiça, lei, defesa, política e mídia. Uma das medidas apontadas pela OMS é restringir o acesso a pesticidas. A organização apresenta estudos no Sri Lanka, onde a proibição de pesticidas levou a uma queda de 70% nos suicídios e a uma estimativa de 93 mil vidas salvas entre 1995 e 2015.

O Brasil sempre na contramão. O ministério da Agricultura liberou essa semana, mais 63 agrotóxicos.Em nove meses o atual governo já liberou 325 pesticidas. Dados do Ministério da Saúde mostram que, de 2007 a 2017, mais de 12 mil pessoas tentaram suicídio com agrotóxicos em todo o Brasil. Dessas tentativas, 1.582 resultaram em mortes.

A taxa de mortes causadas por armas de fogo para grupo de 100 mil habitantes foi de 22,9 em 2017, a maior da década e 6% acima da de 2016, segundo o estudo Atlas da Violência 2019, divulgado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública. A taxa de suicídios por arma de fogo está em 8,4%. Segundo o filósofo Albert Camus, suicídio e armas de fogo se atraem como ímãs. 

Essa semana o governo sancionou o projeto de lei que permite moradores rurais a ter a posse de arma de fogo em toda a extensão de imóveis no campo. Especialistas dizem que a medida pode agravar a violência e aumentar o número de suicídios nas zonas rurais. Para piorar, em 2017, a OMS apontou o Brasil como o primeiro no ranking latino-americano da depressão e o quinto no mundo.

Faz-se necessário quebrar o tabu em torno do suicídio.  No ano passado, o papa Francisco disse que “o suicídio seria como fechar a porta à salvação, mas tenho consciência de que nos suicídios não há plena liberdade. Pelo menos acredito nisso. Ajuda-me o que o Cura d’Ars disse à viúva cujo esposo se suicidou jogando-se de uma ponte em um rio. Disse: ‘Senhora, entre a ponte e o rio está a misericórdia de Deus’. Porque acredito que no suicídio não há uma plena liberdade, mas é a minha opinião". Para o bispo Ricardo Hoepers, “a aceitação do sofrimento e da angústia da vida é fruto de uma fé autêntica e, como são Paulo nos ensina que apesar de toda dor física e moral, de humilhações, de sofrimentos, nada pode separar-nos do amor de Cristo”(cf. Rm 8, 35-37). Nem o suicídio.

Falar é a melhor solução! Perguntar, como vai você? Escutar! Não julgar! São atos cristãos!

*Élio Gasda é doutor em Teologia, professor e pesquisador na FAJE. Autor de: Trabalho e capitalismo global: atualidade da Doutrina social da Igreja (Paulinas, 2001); Cristianismo e economia (Paulinas, 2016).

EMGE

*O DomTotal é mantido pela Escola de Engenharia de Minas Gerais (EMGE). Engenharia Civil conceito máximo no MEC.
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