Religião

20/09/2019 | domtotal.com

Nem todos os católicos entendem o que é justiça social, dizem especialistas

O ensino social católico e, mais especificamente, a justiça social não é algo que os fieis compreendem bem, apesar de ser algo inerente aquilo que professam.

Elaine Nelson, gerente de serviços de alimentação do Mercy Hospice, na Filadélfia, serve pratos quentes de espaguete e almôndegas aos assistidos da Serviços Sociais Católicos, mulheres sem-teto e seus filhos nesta foto de 12 de fevereiro de 2014.
Elaine Nelson, gerente de serviços de alimentação do Mercy Hospice, na Filadélfia, serve pratos quentes de espaguete e almôndegas aos assistidos da Serviços Sociais Católicos, mulheres sem-teto e seus filhos nesta foto de 12 de fevereiro de 2014. (CNS photo/Sarah Webb, CatholicPhilly.com)

Gina Christian*
CNS

O termo “justiça social” está nos lábios de muitos líderes pastorais atualmente.

Dioceses, paróquias e congregações religiosas costumam ter algum tipo de coordenador de justiça social, que defende respostas baseadas na fé a questões como imigração, racismo, pobreza ou mudança climática. Porém, apesar de toda a discussão e divulgação, os católicos nos bancos das igrejas realmente entendem o que significa justiça social?

Na verdade, parece que não, de acordo com Craig Giandomenico, professor adjunto de religião e teologia na Universidade La Salle, na Filadélfia. "É um termo que a história tem carregado até o ponto de ruptura", disse, observando que "é importante desembrulhar a justiça social, especialmente devido ao nosso tenso clima político".

O professor disse que "este momento tão crucial na Igreja exige esclarecer a confusão sobre os termos que todos nós acreditamos que estamos usando da mesma maneira". Giandomenico observou que os católicos dos EUA geralmente acham mais difícil entender o que a justiça social implica, dada a "complicada história do país de lutar com o papel da religião na esfera pública".

Como resultado dos processos que envolvem a justiça social, acrescentou, muitos "paroquianos comuns" tendem a ter "uma concepção privada do ministério e serviço da Igreja", assumindo que a instituição fala apenas com indivíduos e não com comunidades, culturas e sociedades como um todo.

O padre vicentino John Freund concordou. "A maioria (dos católicos) não conhece a longa e rica tradição da justiça social católica", disse o padre, cuja paróquia se concentra em servir os membros mais pobres e marginalizados da sociedade.

No entanto, a irmã da misericórdia Suzanne Gallagher, que serve como coordenadora de justiça de sua congregação religiosa, disse que a maioria dos católicos pode simplesmente estar "tratando a justiça social por outro nome, como obras corporais e espirituais de misericórdia, por exemplo".

Os próprios estudiosos debatem a origem e o escopo real do conceito, que é uma forma específica de uma ideia mais ampla de justiça. Vários pesquisadores afirmam que o entendimento da justiça social se desenvolveu no final do século 18, após as revoluções industrial e francesa, à medida que o pensamento político e econômico se tornava mais complexo e modernizado.

Outros atribuem o conceito ao jesuíta italiano Luigi Taparelli D'Azeglio, que cunhou o termo em seu Tratado teórico sobre o direito natural baseado em fatos, 1840-1843, no qual pedia uma recuperação e reinterpretação contemporânea do que Aristóteles e Tomás de Aquino chamavam de "justiça geral".

Alguns comentaristas mais recentes continuaram discutindo o que exatamente significa justiça social. De fato, uma boa parte deles, incluindo o falecido teólogo e escritor Michael Novak, afirmaram que o conceito foi usado por progressistas políticos para tentar reduzir ou mesmo abolir o capitalismo de livre mercado.

Embora a justiça social transmita um senso geral de justiça na vida comunitária, Giandomenico prefere o termo mais preciso dentro do ensino social católico. "Quanto mais específicos somos em nosso idioma, menos confusão", disse. "O ensino social católico ajuda a lembrar ao ouvinte que os problemas em questão estão diretamente relacionados à sua fé pessoal, que talvez seja errônea e muitas vezes percebida como privada".

O papa Pio XI foi o primeiro a usar o termo justiça social no ensino católico, de acordo com Barbara Wall, professora associada de filosofia na Universidade Villanova e editora do Journal of Catholic Social Thought.

Escrevendo apenas dois anos após o grande colapso do mercado de ações de 1929, disse Wall, o papa Pio se baseou no trabalho de seu antecessor, o papa Leão XIII, cuja encíclica, publicada em 1891, Rerum novarum, aplicou diretamente o ensino da Igreja à vida industrial e social moderna.

Ao longo do século seguinte, uma riqueza de reflexão sobre justiça social foi produzida e, sob são João Paulo II, o Compêndio da doutrina social da Igreja foi publicado em 2004.

A Conferência dos Bispos Católicos dos EUA lista em seu site sete temas importantes nesta instrução: vida e dignidade da pessoa humana; chamado à família, comunidade e participação; direitos e responsabilidades; opção pelos pobres e vulneráveis; dignidade do trabalho e direitos dos trabalhadores; solidariedade; e cuidado da criação de Deus. Contudo, mesmo com essas diretrizes, "a maioria dos católicos" do país sabe pouco sobre o ensino social da Igreja, embora seja "parte integrante" da fé, disse Wall.

Ao mesmo tempo, simplesmente oferecer mais informações não necessariamente inspirará os fiéis a abraçar o chamado à justiça social, disse o padre Freund. "A justiça social católica não é uma teoria ou um exercício intelectual, mas como as pessoas de fé são chamadas a viver o Evangelho em um mundo quebrado e sofrido", disse. Freund também ofereceu sugestões para apoiar ações de justiça social, tais como: aprender mais sobre questões específicas, assumir posições participando de protestos e manifestações, usar as mídias sociais, voluntariar-se em organizações e iniciativas sociais.

A irmã Suzanne concordou que “o termo justiça social pode se tornar relevante quando discutimos situações específicas” e disse que sua congregação se concentra em “cinco preocupações críticas: paz e não violência, racismo, cuidados com a terra, imigração e mulheres”.

A fundamentação da justiça social em exemplos práticos – e na estrutura do ensino social católico – impede que o conceito se torne abstrato demais, disse Giandomenico. "A doutrina social católica deve nos lembrar daquelas situações em que o coração do mistério cristão é exposto", disse. “São situações de natureza tão sistêmica que nos lembram nosso vínculo comum como seres humanos, criados à imagem de Deus e que merecem uma dignidade inviolável e compartilhada”.


Publicado originalmente por Catholic News Service.


Tradução: Ramón Lara

*Christian é produtora sênior de conteúdo da CatholicPhilly.com, agência de notícias da Arquidiocese da Filadélfia.

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*O DomTotal é mantido pela Escola de Engenharia de Minas Gerais (EMGE). Engenharia Civil conceito máximo no MEC.
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