Religião

20/09/2019 | domtotal.com

Candomblé de Angola e ecologia: um chamado à reflexão

O Candomblé angola congo em sua relação com a ecologia, se vê convocado à constante reflexão sobre sua própria perspectiva de continuidade de seu fazer religioso.

A natureza é parte essencial e de extrema importância para os ritos iniciáticos e a continuidade das práticas na vida cotidiana e religiosa do Candomblé Angola Congo.
A natureza é parte essencial e de extrema importância para os ritos iniciáticos e a continuidade das práticas na vida cotidiana e religiosa do Candomblé Angola Congo. (Unsplash/ Maurício Santos)

Por Guaraci M. Santos e Arthur L. Mendonça*

Diante dos problemas relativos ao meio ambiente que acometem a contemporaneidade em vários segmentos, somos chamados a refletir sobre o tema das religiões afro-brasileiras e a ecologia. Neste sentido, elegemos o candomblé de angola congo de tradição bantu para esta reflexão, na perspectiva de analisar suas formas de inter-relação com a natureza por meio de seus saberes, rituais e crenças a partir de sua cosmovisão.

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Antes de mais nada, devemos esclarecer ao nosso interlocutor, que as religiões afro-brasileiras como as umbandas brancas, esotéricas, e africanizadas de tradições de candomblés de keto, jeje, efon e de angola congo, entre outras, em suas manifestações variadas, não podem ser generalizadas como tendo uma única cosmovisão. Entendemos que as religiões afro-brasileiras, a partir da diversidade apresentada, desautorizam universalizações, pois cada uma dessas tradições resgata suas bases litúrgicas de forma particular a partir de suas origens geográficas e culturais, no que diz respeito à África negra. Com base nisso, elas orientam suas práticas e seu fazer religioso.

No que tange o candomblé de angola congo, este trás em si traços da cosmologia dos povos subsaarianos africanos de tradição bantu. Este grupo étnico-linguístico, caracteristicamente nômade, é permeado pela interação e inter-relação entre os mundos físico e espiritual. Para eles, a relação com a natureza é perpassada e justificada pelas necessidades de sobrevivência, e a natureza é entendida não só como fonte, mas também como potenciadora para a continuidade da vida. Para esses povos, a vida e a existência do planeta se dão de forma cíclica, interligada e continuamente entre si. Segundo Altuna (1985, p. 135) “todo universo é visível e invisível, desde Deus até um grão de areia, passando pelos gênios, antepassados, animais, plantas e minerais, está composto de vasos comunicantes, de forças vitais solidárias, que diminam Deus”.

A saber, dentro da visão dessa religião afro-brasileira, a natureza é parte essencial e de extrema importância para os ritos iniciáticos e a continuidade de suas práticas na vida cotidiana e religiosa. Ademais, desde a terra, as plantas, os animais, as rochas, todos são considerados uma partícula de Nzambi Mpungu (Deus Todo Poderoso) que manifesta a vida no nosso planeta. Com efeito, Nzambi Mpungu criou uma energia que seria primordial em todos seres, o combustível, a força vital. Conhecida como nguzu, ela seria uma energia no seu poder bruto que, quando acessada pelos seres humanos, pode ser direcionada para benefício próprio. Além disso, as atitudes e a ação humana nesse caso são a chave para o sucesso, prosperidade, saúde e longevidade. Contudo, se o nguzu for mal utilizado e sem o devido respeito à sacralidade do mundo natural, perde-se o verdadeiro sentido do trabalho e da espiritualidade por trás do que se busca. Logo, estar em harmonia com Nzambi Mpungu e suas criações, é uma garantia para se viver de forma produtiva e plena.

No que tange à natureza, as florestas, as águas, a terra, as montanhas são vistas como templos abertos das divindades dos povos Bantu, como também carregam as memórias dos moya (espíritos) de seus ancestrais e tinguluve (antepassados). A maior herança que eles nos deixaram foi a natureza e suas belezas preservadas. Cada Nkisi/Mukixi/Hamba (divindade), tem o seu espaço na natureza e um totem animal específico, alguns vivem em lagos, rios, montanhas, matas, cachoeiras, encruzilhadas e muitos outros ambientes. Tem um provérbio kikongo que diz, “mfinda Kasuka tufukidi” – “nós perecemos se as florestas são extintas”. (Fuki, 2015, p. 2). É por isso que vários terreiros possuem “pequenas florestas” em seus ambientes. Para tudo que é feito, é preciso dispor de folhas e raízes específicas, o povo de tradição Bantu sabe que a cura de vários males do físico e do espiritual se encontra nelas. Não adianta um devoto ofertar uma comida para seu Nkisi/Mukixi/Hamba nas florestas, e utilizar objetos que venham a degradá-la. Só deve ser usado aquilo que a própria terra se alimente, somente matéria orgânica. Apenas em último caso, são feitas oferendas fora dos terreiros. Quem possui fundamento, faz dentro de um recinto consagrado para tal prática. Assim, a consciência ecológica é imprescindível para os candomblecistas.

Entretanto, a consciência ecológica nas religiões de matriz africana como o candomblé de angola, não é algo que se manifesta automaticamente. Pelo contrário, deve ser fomentada continuamente pelos mais velhos através de seus saberes tradicionais das comunidades de terreiro. Diversas formas de poluição do meio ambiente perpassam os ritos e as formas de oferendas feitas por alguns adeptos. Os elementos mais danosos que compõem as oferendas são as bebidas, comidas e adereços em recipientes de plástico, barro e vidro que não se degradam facilmente. Quando ao contrário disso, a tradição orienta, por exemplo, o uso das folhas de bananeiras, mamonas e bambu, como recipientes, elementos que se decompõem naturalmente. Diante disso, se faz cada vez mais necessário a informação e bom senso, não só sobre os pilares tradicionais das formas de culto e oferendas, mas também sobre os condicionamentos dessas para que sejam revistos pela sociedade contemporânea e a necessidade da preservação ambiental para a continuidade da vida. Isso nos leva a pensar no cuidado nas relações do sagrado afro-brasileiro com a natureza, como sendo de inter-relação direta e de causa e efeito.

A ecologia se apresenta como um ponto angular para existência da vida no planeta. Sua importância deve ultrapassar os limites da cobiça individual e moderna. Existem modelos de pensamentos diversos, como em outros segmentos, sobre a questão ecológica.  Neste sentido, podemos citar dois modelos de ecologia vigentes: primeiro, a ecologia democrática, a qual busca se posicionar como uma alternativa à crise de responsabilidade humana frente à natureza e sua continuidade, contudo de forma superficial, a fim de atender os interesses de mercado e do capital. Segundo, a ecologia profunda, numa perspectiva holística, que se questiona acerca dos modelos de científicos ocidentais postos em prol do aperfeiçoamento da humanidade, além de buscar uma dinâmica de correlação mais harmônica e consciente entre os seres humanos e a natureza, com o intuito de que se mantenha os ecossistemas o mais preservados possível.

Ademais, há duas visões contrárias no pensamento ecológico na atualidade. Uma é a visão ecológica antropocêntrica, que preza em atender às demandas de satisfação dos seres humanos. E a outra, a visão ecológica ecocêntrica, a qual o escopo se concentra manutenção do equilíbrio do planeta, sendo esta última a mais próxima das referências a serem seguidas pelas religiões afro-brasileiras de matriz africana, como o candomblé de angola congo.

Portanto, o candomblé angola congo em sua relação com a ecologia, se vê convocado à constante reflexão sobre sua própria perspectiva de continuidade litúrgica, prática e legal de seus fazeres religiosos. Litúrgica, pois a tradição preza pelo uso, interação e inter-relação como a natureza, e assim, deve-se preservá-la. Prática, devido a negligência ao cuidado com a natureza, que pode se tornar cada vez mais difícil o acesso às matas, rios e praias para uma interação completa dos adeptos com suas divindades. E legal, por ser da ordem da responsabilidade para consigo e para com o outro, a fim de colaborar na manutenção da vida nos mundos material e espiritual, segundo a tradição subsaariana bantu.

Referências:

ALTUNA, Raul R. de A. CULTURA TRADICIONAL BANTO. Secretariado Arquidiocesano de Pastoral. Luanda, 1985.

FU­KI, Kimbwandende Kia B. TA VISÃO BÂNTU KÔNGO DA SACRALIDADE DO MUNDO NATURAL*. Disponível em:<https://estahorareall.files.wordpress.com/2015/07/dr-bunseki-fu-kiau-a-visc3a3o-bantu-kongo-da-sacralidade-do-mundo-natural.pdf>. Acesso em: 10 set. 2019.

OLIVEIRA, Irene D. de. SAÚDE E DOENÇA NA COSMOVISÃO BANTU. Fragmentos de cultura. Goiânia, v. 13 n. 1 jan./fev. 2003, p. 155-160. 

*Guaraci M. Santos é doutorando em Ciências da Religião. Arthur L. Mendonça é graduando em Ciências Sociais.

EMGE

*O DomTotal é mantido pela Escola de Engenharia de Minas Gerais (EMGE). Engenharia Civil conceito máximo no MEC.
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