Religião

20/09/2019 | domtotal.com

Judaísmo e ecologia

Diferentemente do que poderia supor uma exegese desavisada do mandamento divino dado a Adão e Eva, há uma preocupação latente no judaísmo com a ecologia.

A Mitsvá de  Shemitá que prescreve o descanso da terra é uma confissão pública de que a terra enquanto organismo vivo e que o homem não  é senhor do cosmo.
A Mitsvá de Shemitá que prescreve o descanso da terra é uma confissão pública de que a terra enquanto organismo vivo e que o homem não é senhor do cosmo. (Unsplash)

Reuberson Ferreira, M.S.C*

 בְּרֵאשִׁית בָּרָא אֱלֹהִים אֵת הַשָּׁמַיִם וְאֵת הָאָרֶץ׃
No princípio criou D’us os céus e a terra
Bereshit,1: 1

Na segunda metade do século 19, alguns pesquisadores de matizes científicas distintas, aventaram a tese de que a Torá – consequentemente as tradições religiosas dela nascidas – seriam a fonte cultural da tirania do homem sobre a natureza e sua subsequente destruição. Dois historiadores, um britânico e outro  norte-americano, respectivamente, Arnold Toynbee e Lynn White Jr – para citar apenas alguns – sustentaram a ideia de que a D’us deveria ser impingida à culpa sobre a destruição da natureza, pois o mandato divino dito à Adão e Eva, lhes outorgava direitos  e legitimava a  ideia de  submeter e dominar toda a criação (cf. Bereshit [Gênesis],1: 28).

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Não obstante essa tese e as hermenêuticas dela extraídas, deve-se dizer que o mandato bíblico prescrito no livro do Bereshit não exprime toda a “extensão, largura e profundidade” da relação entre o judaísmo e a questão ecológica. Esse fato porque trata-se de um tema amplo, plural e, sobretudo, eivado da consciência espiritual de inter-relação entre D'us, a humanidade e a natureza.

Divisando o Livro Sagrado do judaísmo percebe-se que a lei judaica é profundamente conscienciosa do zelo com a criação, do cuidado com a natureza. A Mitsvá de Shemitá (שמיטה) que prescreve o descanso da terra, no sétimo ano, é uma confissão pública de que, de um lado, a terra enquanto organismo vivo, necessita de um lastro para recompor-se, reestabelecer-se; e, de outro,  que o homem não  é senhor do cosmo, antes  é guardião da criação. D’us, sim, é Senhor do universo!

O grande rabi espanhol Moshe Ben Maimon – Maimônides – em sua icônica obra chamada Guia dos perplexos, dedica longas páginas sobre a questão do Shemitá. Nelas, ele explica que a finalidade do ano sabático não se reduz somente “a indulgência e libertação para os homens," mas também para “que a terra se torne mais fértil, fortalecendo-se pelo descanso". Não sem razão, a sabedoria judaica assegura que o "Mashiach virá ao final de um ano de Shemitá".

Ainda no universo da profícua relação entre judaísmo e ecologia dever-se mencionar a celebração religiosa nomeada Tu Bishva (ט״ו בשבט): o ano novo das árvores. Em tempos imemoriais, essa data marcava o início das estações dos frutos em Israel. Os primeiros brotos das árvores despertavam e começam um novo ciclo frutífero.

Essa estação, ainda hoje, é comemorada através da recitação de bênçãos antes e após a degustação de frutos especialmente de espécies nativas de Israel. Ao provar dos novos frutos e recitar as bênçãos reconhece-se, também, D'us como o Criador do mundo, da natureza e de tudo nela contido bem como compromete todos com o cuidado da criação. Na moderna Israel, Tu Bishvat é celebrado. Não raro, em escolas, faz-se plantio de árvores enfatizando o incomensurável valor da preservação da natureza.

Há, ainda, no seio da tradição judaica, regras estritas para que não sejam impingidos sofrimentos desnecessários às aves e a toda sorte de animais que podem ser usados, licitamente, como alimentação. Igualmente há, inspirado sobretudo no mandamento do Devarim [Deuteronômio] capítulo 20, o preceito de “Não destruir” (Bal tashchit, בל תשחית). Ele aplica-se a preservação, mormente das árvores frutíferas que podem servir as gerações futuras. Lê-se nessas normas, mesmo que numa interpretação hodierna, o compromisso com o equilíbrio da criação bem como a preocupação com uma ecologia Inter-geracional (integral).

Em um plano geral, respaldado pela Escritura judaica e pela dimensão festivo-religiosa, percebe-se, diferentemente do que poderia supor uma exegese desavisada do mandamento divino dado a Adão e Eva, que há uma preocupação latente no judaísmo com a ecologia. Entende-se a natureza como criação de Du’s e como um organismo vivo que inspira, merece e requer um cuidado, incluso com motivação religiosa. Ao homem, partícipe dessa criação e, portanto, elemento inter-relacionado, compete exercer o papel de guardião da criação que, a rigor, é guardar a própria vida e subsistência.

*Reuberson Ferreira, MSC é doutorando em teologia, especialista em Docência do Ensino Superior e em História, Teologia e Cultura Judaica. Bacharel em Filosofia e Teologia. Religioso Missionário do Sagrado Coração e Sacerdote católico.

EMGE

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