Brasil Cidades

20/09/2019 | domtotal.com

Vesículas inúteis

Quando uma decisão parte de um político ou de um governo, a extensão do dano pode ser catastrófica.

Pode ser que o Brasil doente se restabeleça daqui a aproximadamente uma década.
Pode ser que o Brasil doente se restabeleça daqui a aproximadamente uma década. (Pixabay)

Por Fernando Fabbrini*

Dizem que de boas intenções o inferno anda cheio. Os responsáveis pelas remessas podem ser pessoas comuns, como você e eu, gerando pequenos mal-entendidos, talvez a perda de uma amizade ou rusga familiar. No entanto, quando uma decisão parte de um político ou de um governo, a extensão do dano pode ser catastrófica.

Milton Friedman, economista e vencedor do Prêmio Nobel, disse que os governantes têm uma perigosa tendência de avaliar políticas e programas com base em suas intenções, não em resultados práticos. Explicou melhor: “impacientes com a lentidão da persuasão e ansiosos por alcançarem as grandes transformações sociais que imaginam, eles querem usar o poder do Estado para alcançar os fins e confiam demais em sua capacidade de gerar mudanças”.

Há um exemplo famoso que ilustra bem o ponto de vista de Friedman. Conta-se a história de um cirurgião que, durante anos a fio, retirou centenas de vesículas biliares de seus pacientes. Levou algum tempo até que a direção do hospital constatasse aquele exagero e fizesse uma apuração. Para a surpresa dos investigadores, o cirurgião declarou candidamente ter certeza de que as vesículas biliares eram inúteis no organismo humano. Apoiando-se na sua experiência, estava seguro: vesículas eram, sim, causas de inúmeras doenças. Daí, extraía as danadas, sem dó.  

O homem movia-se apenas “pelo profundo amor aos seus pacientes” e estava absolutamente convicto de suas intervenções. (Relendo essa história, lembrei-me também da mania de se extrair as amígdalas, estranha moda que levou às salas de cirurgia uma geração inteira de brasileiros).

Fatos assim – e outros mais graves – vêm servindo de base para a formulação de uma teoria interessante denominada “falácia da virtude”. O professor de economia Barry Brownstein alerta para a ascensão de tais boas intenções na política moderna, principalmente em regimes de viés socialista. Apesar da claras e incontestáveis “boas intenções”, tais medidas causam, na verdade, estragos terríveis a médio e a longo prazo.

Ele cita um exemplo atual e bem curioso de seu país, referindo-se ao estado da Califórnia, o mais rico dos EUA. A Califórnia gasta bilhões de dólares por ano em programas assistenciais – o mais alto valor entre os estados norte-americanos – mas também registra a maior taxa de pobreza do país. O estado detém a maior alíquota de imposto de renda dos Estados Unidos, 13,3%, – mas apresenta também a quarta maior desigualdade de renda entre os 50 estados.

Outro indicador: a Califórnia tem um dos mercados imobiliários mais regulamentados dos Estados Unidos. Porém, ao mesmo tempo abriga a maior população de moradores de rua da América do Norte e é o penúltimo colocado entre os estados no quesito oferta de moradia.

A Califórnia é um problema norte-americano, deixemos pra lá. Aqui, começamos a sentir na pele o resultado das “boas intenções” dos governos anteriores. Na surdina, a corrupção devorava recursos preciosos. Na face visível, jogando para a plateia, os governos de FHC, Lula e Dilma meteram o país na grave crise em que vivemos.

Como disse um outro economista – este nacional – “em vez de tratar o câncer, políticos e governos recentes aplicaram altas doses de morfina no doente; tudo paliativo. Agora, o dilema é pagar a conta hoje ou deixá-la para depois, quando estará ainda bem mais alta”.

Se cessarem as falácias das virtudes e enfrentarmos a dura realidade que nos apresenta, pode ser que o Brasil doente se restabeleça daqui a aproximadamente uma década. Caso contrário, segundo previsões, chegaremos a 2020 mais pobres do que em 2011. E não vale mais arrancar vesícula para enganar o paciente.

*Fernando Fabbrini é roteirista, cronista e escritor, com quatro livros publicados. Participa de coletâneas literárias no Brasil e na Itália e publica suas crônicas também às quintas-feiras no jornal O Tempo.

EMGE

*O DomTotal é mantido pela Escola de Engenharia de Minas Gerais (EMGE). Engenharia Civil conceito máximo no MEC.
Saiba mais!

Comentários


Instituições Conveniadas