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23/09/2019 | domtotal.com

Uma historinha da propaganda

No mesmo dia do julgamento realizado, um dos jurados me ligou para perguntar por que não havíamos inscrito o comercial da Loteria Mineira.

Na fase nacional, o comercial conquistou o primeiro lugar entre os concorrentes da região Leste.
Na fase nacional, o comercial conquistou o primeiro lugar entre os concorrentes da região Leste. (Pixabay)

Por Afonso Barroso*

Como trabalhei durante muitos anos como redator de publicidade, tenho algumas histórias mais ou menos interessantes para contar sobre a nossa antigamente charmosa atividade. Conto aqui uma que aconteceu em 1979, ano em que a Rede Globo lançou o primeiro concurso Profissionais do Ano, que dava prêmio em dinheiro para os criadores e diretores de cena dos melhores comerciais veiculados na emissora.

Eu trabalhava na Skema Publicidade, que tinha como um dos clientes a Loteria Mineira. Não preciso abrir parênteses para dizer que a agência pertencia ao grande Orlando Junqueira, pioneiro da propaganda em Minas Gerais, pessoa que merece o título de figuraça. Era mais poeta do que publicitário. Pertence hoje à sociedade dos grandes amigos mortos.

Eu havia criado, para a Loteria, um comercial que fez muito sucesso, anunciando a extração de São João. Tinha o seguinte roteiro: com um bilhete na mão, apresentador (o excelente Edgard Gianullo) falava do valor do prêmio, da tirinha premiável, da farra que ia ser a extração, e terminava abrindo o bilhete, que dobramos em forma de sanfona, e tocando com ele uma marchinha típica de quadrilha junina.

Esse comercial era, disparado, o melhor da safra na ocasião, e foi com muita esperança, quase certeza de vitória, que o inscrevemos no concurso da Globo. Acontece que um dos jurados achou um jeito de furtar o videocassete da Skema e tirar o comercial do julgamento. As suspeitas recaíram em um certo publicitário cujo nome prefiro omitir.

No mesmo dia do julgamento realizado, um dos jurados me ligou para perguntar por que não havíamos inscrito o comercial da Loteria Mineira. 

- Como assim? Nós inscrevemos – respondi intrigado.

- Não foi apresentado. Fiquei surpreso, porque teria o meu voto – disse o amigo.

Conversei com o Orlando e resolvemos recorrer ao diretor da Globo Minas. Fomos a ele levando o comprovante da inscrição e mais uma cópia do comercial. Acho que tinha sobrenome Nicoli, um sujeito muito simpático, que nos recebeu com atenção, ouviu também surpreso nosso relato e não teve dúvida: mandou anular o julgamento e promover outro que incluísse o comercial da Loteria. Resultado: vencemos o concurso.

Na fase nacional, o comercial conquistou o primeiro lugar entre os concorrentes da região Leste. Dias depois fomos ao Rio para receber o prêmio, eu, o Orlando e o Rogério Falabela, que dirigiu o filme (ele mesmo, o pai da Débora). No avião o Falabela nos contou que no momento em que trabalhava na mixagem do filme em São Paulo, estava no estúdio o famoso sanfoneiro Caçulinha, que faria uma gravação. Caçulinha viu o comercial e gostou tanto que se ofereceu pra fazer o som da sanfona. Resultado: ganhamos um parceiro sensacional, que enriqueceu nossa criação.

Quanto ao boicote tentado no julgamento em Minas, as suspeitas se confirmaram quando no segundo escrutínio o único voto contrário foi do tal publicitário, tido e havido no meio como detentor de caráter, digamos, provisório.

*Afonso Barroso é jornalista, redator publicitário e editor.

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