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24/09/2019 | domtotal.com

Roda Viva na encruzilhada

Desafetos de Bolsonaro ou a defesa de assuntos por ele abominados são a pauta preferencial da atração.

Apesar de ser um problema, o cenário não é o maior entre os que afligem este novo Roda Viva.
Apesar de ser um problema, o cenário não é o maior entre os que afligem este novo Roda Viva. (Reprodução/RodaViva)

Por Alexis Parrot*

A TV Cultura, sob nova direção e novo governo, quer mostrar serviço e aposta no mais célebre entre todos os seus programas para puxar as mudanças que pretende operar em sua grade. Uma reformulação do Roda viva é sempre a primeira carta de intenções oferecida ao público a cada troca de presidente do canal – e dessa vez não foi diferente.

O formato é a chave de seu sucesso: toda segunda-feira, uma bateria de jornalistas organizados em roda sabatina alguém posicionado no centro de uma arena. Diferente dos talk shows, em que apresentador e convidado sentam-se lado a lado – para criar uma impressão de afeto e intimidade –, a posição central do entrevistado não deixa dúvidas sobre quem deve ser o foco das atenções.

Há um sentido no posicionamento dos participantes. A arena é real e simbólica porque sugere que o entrevistado está "encurralado" e, teoricamente, à mercê de seus inquisidores.

No ar há 33 anos, a atração vive de oscilações, apresentando-se às vezes como o supra sumo do jornalismo na TV brasileira, mas também amargando longos períodos de ostracismo ou irrelevância completa. Em sua história, o programa apresentou grandes entrevistas, como a de Brizola, em 1987, uma verdadeira aula de jornalismo e política. Saramago em mais de uma vez iluminou o programa; Ayrton Senna, Haroldo de Campos, Fanny Ardant, Tarik Ali e até Fidel Castro também concederam entrevistas memoráveis.     

Atingiu o fundo do poço mais notadamente em duas ocasiões: primeiro, no ano em que Marília Gabriela esteve à sua frente e o reformulou. A pluralidade de vozes (sua característica principal) foi abandonada; o painel de jornalistas foi trocado por apenas dois entrevistadores fixos. À apresentadora, juntaram-se Augusto Nunes e Paulo Moreira Leite e a arena foi substituída por uma pequena bancada em forma de ferradura.   

O segundo momento "vergonha alheia" foi a desastrosa entrevista em novembro de 2016 com o então presidente Temer, recém-empossado graças ao golpe parlamentar que apeou Dilma do poder. Ricardo Noblat, Eliane Cantanhêde e William Correa (diretor de jornalismo do canal à época), com o apresentador Augusto Nunes puxando o cordão, deram uma aula de como um jornalista não deve se dirigir ao poder, com afagos em excesso e questionamentos sérios de menos.      

A repercussão foi tão negativa que, após a exibição do programa, Chico Buarque pediu que sua música fosse retirada da abertura.

Buscando recuperar o prestígio perdido, desde o inicio de agosto estamos acompanhando a mais nova versão do Roda viva, com direito a novo cenário e nova apresentadora. Daniela Lima (responsável pelo Painel da Folha de S. Paulo) é a nova titular do programa, passando a integrar uma linhagem nobre de jornalistas que se revezaram no posto, como Paulo Markum, Heródoto Barbeiro, Lilian Witte Fibe e Matinas Suzuki Jr.

Usando óculos de estranhas lentes verdes, Lima está longe de ter o pulso com que Rodolpho Gamberini (o primeiro apresentador da atração e um dos melhores, em minha opinião) conduzia os debates. Ainda faltam a ela coesão e síntese e a capacidade de realmente mediar a discussão, além de simplesmente apresentar o programa e fazer uma ou outra pergunta.  

O cenário é um equívoco; parece saído do Castelo Rá-tim-bum ou outro infantil. Encarapitados e perdidos sobre os galhos de uma árvore estilizada em estilo meio art-nouveau, meio cafonice pura e simples, jornalistas convidados continuam a sabatinar semanalmente um entrevistado, todos do mundo da política brasileira nesta largada da reformulação. Curioso notar que, apesar de uma maciça presença feminina na bancada de entrevistadores, até agora nenhuma mulher ocupou o centro da arena.     

O confuso cenário suja e confunde a imagem ao conjugar um azul esmaecido de fundo com o branco impoluto de estruturas tentando remeter a formas orgânicas. Emoldurando e sustentando toda a traquitana, reina a pièce de résistance: placas vazadas que lembram muito os móveis de MDF que imitam madeira das Casas Bahia, com remendos à vista aqui e acolá.    

Apesar de ser um problema, o cenário não é o maior entre os que afligem este novo Roda viva. Os convidados para serem sabatinados até o momento são o grande calcanhar de Aquiles do programa. O observador mais atento já percebeu que a lista serve como trampolim para as pretensões presidenciais do governador João Doria, já de olho em 2022, quando irá enfrentar Bolsonaro nas urnas.    

Desafetos do atual morador do Palácio da Alvorada ou a defesa de assuntos por ele abominados são a pauta preferencial da atração. Foi assim com Rodrigo Maia na semana crucial da votação da proposta da Previdência na Câmara; com o deputado Alexandre Frota, após a expulsão do PSL e em cima do lance da filiação ao PSDB, articulada pelo próprio Doria; ou Felipe Santa Cruz, presidente da OAB que teve a memória do pai, desaparecido durante a ditadura, desrespeitada pelo capitão; ou o jurista José Carlos Dias, ex-presidente da Comissão da Verdade e hoje à frente da Comissão Arns, dedicada à defesa dos direitos humanos. 

A estratégia alcançou seu ponto alto na noite de ontem, com a entrevista do governador maranhense, Flavio Dino. Era ele a quem Bolsonaro se referia quando foi flagrado dizendo que "dos governadores de paraíba, o do Maranhão é o pior. Tem que dar nada para ele". Trazer novamente este assunto à baila pode até fortalecer Dino, mas certamente reaviva o desprezo ao presidente.

Glenn Greenwald também esteve no centro da arena, mas para ser duramente questionado sobre a ética jornalística da Vaza Jato, uma vez que as mensagens do Telegram publicadas pelo The Intercept Brasil foram hackeadas dos celulares de Moro, Dallagnol e companhia limitada. O ataque a Greenwald auxilia Doria – que sonha com Moro a seu lado na próxima eleição presidencial. Em nome disso, irá fazer de tudo para agradar ao justiceiro de Curitiba.

Sobre Alexandre Frota, a despeito da robusta votação que o colocou na Câmara, ficou provado cabalmente tratar-se de alguém que não tem nada a dizer. Por outro lado, cumpriu o script que se esperava dele, que falasse mal do presidente – talvez apenas com virulência menor do que a desejada por seu mais novo padrinho político.

A exceção à regra foi a presença do ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, nos estúdios da TV Cultura. Apesar de ter apanhado que nem boi ladrão (e com toda razão), Salles soube se manter impassível e tranquilo, como só mesmo os hipócritas conseguem fazer diante da adversidade dos fatos e de tudo que foi questionado.

Temer também se colocou à disposição do programa para rememorar os méritos (inexistentes, na verdade) de seu triste governo. Talvez sua presença tenha servido para nos lembrar da frase famosa de José Maria Alkmim, velha raposa mineira: "Pior que o atual, só o próximo". Pelo menos, aí o Roda viva conseguiu um furo: o ex-presidente referiu-se duas vezes ao impeachment como golpe. Dilma, ao comentar o ato falho do antigo companheiro de chapa, disse que foi um "sincericídio".

A patente intenção ideológica e eleitoral das pautas escolhidas traz à tona mais uma vez a grande questão da TV pública, o eterno dilema entre ser de fato pública ou estatal, além de manchar mais uma vez a imagem do Roda viva.

Por enquanto, o esquema é bem-vindo, por atender aos interesses do governador de São Paulo – que deseja gulosamente ser presidente e já está em campanha para tal. Mas e daqui a pouco? Como sustentar o atual posicionamento editorial do programa a partir do momento que as eleições se aproximem? Flavio Dino, as esquerdas e assuntos ligados aos direitos humanos e meio ambiente continuarão a ter direito a tamanho destaque?

O test drive serão as eleições municipais do ano que vem. Aí começaremos a vislumbrar a resposta para estas perguntas e se o Roda viva conseguirá ou não sair da perigosa encruzilhada em que se meteu.

*Alexis Parrot é diretor de TV, roteirista e jornalista. Escreve sobre televisão às terças-feiras para o Dom Total.

EMGE

*O DomTotal é mantido pela Escola de Engenharia de Minas Gerais (EMGE). Engenharia Civil conceito máximo no MEC.
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