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25/09/2019 | domtotal.com

Temores gravados na alma

A sua nudez exposta lhe torturava, mas o medo que sentia era de não ser capaz de resistir.

Ainda trêmulo e titubeante, passava horas dando de comer aos pombos.
Ainda trêmulo e titubeante, passava horas dando de comer aos pombos. (Pixabay)

Por Pablo Pires Fernandes*

A primeira manifestação era auditiva. Os sons cotidianos se espraiavam e borravam, como se saíssem de foco, seguidas por vozes repetindo frases, as mesmas de sempre. Depois, por mais que os sintomas fossem recorrentes, era mais nítido nas mãos: começavam a suar e tremiam a ponto de derramar toda a xícara de café sobre a mesa.

Ao menor tremor no corpo, sentia claramente a morte batendo à sua porta, via vultos e as vozes aumentavam o volume. José corria em direção às janelas e fechava-as por causa dos vizinhos ou de alguém que pudesse observar seus temores. Sentia medo de saberem de sua vida e se sentava no banco da cozinha, num encolhimento que o transformava quase em um feto com pavor de abandonar o líquido materno e enfrentar a respiração. Ofegava.

Quando chegava ao parque, ainda trêmulo e titubeante, passava horas dando de comer aos pombos. Era sua maneira, seu procedimento de chegar à calma. Gostava do chilrear e brincava com os sustos e os afagos ao lançar canjiquinha àqueles pássaros. Naquela tarde, uma jovem muito alva se aproximou dele sorrindo e lhe perguntou se poderia dar comida aos pombos. José ainda se recuperava dos tremores, mas não resistiu ao olhar para o braço alvo estendido da adolescente no gesto desejoso de compartilhar a oferta de alimentar as aves.

No gesto de estender a mão cheia de canjiquinha para a criança, a mão de José tremeu. As pombas batiam as asas com alvoroço, gulosas. A garota segurou seu braço e o conduziu ao banco mais próximo e disse seu nome: Marília.

Ao escutar aquele nome, José se transformou e ordenou, à jovem assustada, que fosse embora. Diante da insistência e do tom imperativo, ela foi, relutante e preocupada.

Os canos de ferro tinham sons ocos e encharcados, seguidos de eletrochoques. Voltaram-lhe os rostos, muito próximos e suados, de policiais aos gritos acusatórios. A sua nudez exposta lhe torturava, mas o medo que sentia era de não ser capaz de resistir. Sucumbir jamais, repetia para si. E o pau sobre seu corpo nu na “sala de justiça”. Resistiu à dor e às porradas, mas José nunca mais foi o mesmo.

As vozes se misturavam. Ouvia ordens de comando. Ora era a voz de Dito, o articulador do “aparelho”, onde vivia e insistia numa luta que se esforçava para crer que valia a pena, que era a dele, ora soavam-lhe na mente os gritos do delegado e dos outros que lhe enchiam o corpo de manchas e de dor.

Desde aquela manhã em que viu o cerco se formando em Ibiúna, em 1968, no congresso da UNE, nunca mais teve paz. José continua a ouvir vozes. Encontrar Marília no parque foi definitivo. Não suportava mais os sons, os traumas, sabia que as sequelas seriam para sempre, mas apenas não aguentava mais. A pele alva e o sorriso cândido de Marília, por mais gentis e afetuosos que fossem, lhe reavivaram os piores momentos de sua vida.

José não conseguiu. Comeu um bolo de abacaxi, presente da vizinha Rosa, e se enforcou com o próprio cinto num sábado à noite. Encontraram-no nu, como veio ao mundo.

*Pablo Pires Fernandes é jornalista. Trabalhou nas editorias de Cultura e Internacional nos jornais 'O Tempo' e 'Estado de Minas', onde foi editor do caderno Pensar. É diretor de redação do 'Dom Total'.

EMGE

*O DomTotal é mantido pela Escola de Engenharia de Minas Gerais (EMGE). Engenharia Civil conceito máximo no MEC.
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