Religião

25/09/2019 | domtotal.com

Será que realmente cremos que o Espírito age onde quer?

A terceira pessoa da Trindade é ainda um grande desconhecido de muitos cristãos.

Aprender e abrir-se ao discernimento da ação do Espírito no meio cristão e entre outras religiões é uma tarefa para o teólogo de hoje.
Aprender e abrir-se ao discernimento da ação do Espírito no meio cristão e entre outras religiões é uma tarefa para o teólogo de hoje. (Unsplash/ 卡晨 @awmleer)

Por Fabrício Veliq*

Dentre as pessoas da Trindade, talvez a mais difícil sobre quem se falar seja o Espírito Santo. Isso porque, de todas as três, talvez seja aquela com quem tenhamos menos familiaridade imagética. Pensar o Pai e o Filho é mais fácil pois já temos em mente o que é paternidade, maternidade e filiação. Esses papeis já são claros e fazem parte do nosso dia a dia. Todo mundo é filho ou filha de alguém e, consequentemente, tem um pai e uma mãe que lhes são progenitores.

Quando entra a questão do Espírito, comumente esse lastro é perdido e as imagens que se têm começam a ficar somente no campo do fantasioso. É comum pensá-lo como um vulto branco que fica perambulando pelo mundo ou, ainda, como um fantasma, a la filmes hollywoodianos, o que dificulta muito quando se deseja compreender quem seja essa pessoa para o cristianismo.

Ao longo da história, também foram diversas as formas de se falar a respeito do Espírito, numa tentativa de tornar claro para a comunidade cristã quem ele seria. Desde pensá-lo como o Amor – que une o Amante (Pai) e o Amado (Filho) na teoria agostiniana – até as formas que ressaltam mais seu caráter de pessoa trinitária – com suas atribuições na santificação, regeneração e justificação, tal como nas diversas teologias protestantes – é ponto pacífico a consciência de que tudo que se fala a seu respeito só pode ser dito a partir da experiência de fé que dele se faz. Portanto, é impossível qualquer definição que dê conta do Espírito ou que possa circunscrever seu poder de ação.

O Evangelho de João deixa isso mais claro ao dizer que o guiado pelo Espírito é como o vento, que não se sabe de onde vem nem para onde vai (Jo 3,8). Da mesma forma, dá uma característica que se torna de suma importância para se falar dele hoje, a saber, que o Espirito sopra onde quer. Assim, sua ação não deve ser pensada somente dentro de um escopo bem determinado e, muito menos, dentro de hermetismos doutrinais.

Durante muito tempo no movimento cristão, e em muitos movimentos ainda hoje, pensa-se o Espírito como algo restrito à doutrina ou a um lugar específico, como se ele somente agisse quando determinadas normas fossem obedecidas. De  maneira ainda mais exacerbada, chega-se a considerar que sua ação só é possível dentro do meio eclesiástico cristão. Qualquer agir que não conte com aval eclesiástico não poderia ser considerado seu. Nesse sentido, é comum que uma parcela significativa do cristianismo fundamentalista ainda tente controlar e colocar limites para a ação do Espírito e controlar onde e como Ele deveria proceder, ligando-o somente às questões hierárquicas da vida da Igreja.

Uma vez sendo esse o pensamento, embora triste, não é de espantar a existência de movimentos fundamentalistas – católicos ou protestantes – que ainda briguem entre si, afirmando que o Espírito não age em uma comunidade diferente da considerada “verdadeira igreja”. Com isso, ao invés de discernirem que a divisão não é obra do Espírito, acreditam que estão lutando em sua causa.

O mesmo acontece quando os cristãos, não só os fundamentalistas, pensam sobre esse agir em outras religiões.  Sua dificuldade está em considerar que o Espírito não é de sua exclusividade. Discernir a ação dele nas outras religiões ainda continua um grande tabu. Certamente, o cristianismo atual, no que se refere a esta questão, ainda está como Nicodemos, que pergunta sem entender a colocação de Jesus: “Como pode ser isso?” (Jo 3,9).

Assim, uma tarefa importante se apresenta aos teólogos que pensam o diálogo ecumênico e interreligioso contemporâneo: aprender e abrir-se ao discernimento da ação do Espírito no meio cristão e entre outras religiões. A partir daí, caberá buscar entender melhor quem é essa pessoa da Trindade, no intuito de ensinar e compreender, juntamente com o povo, que ele age onde quer. Seus traços de amor e de vida precisam ser identificados onde quer que os cristãos se apresentem, sendo esses os critérios para se tatear onde o Espírito de Deus estaria ou não.

*Fabrício Veliq é protestante e teólogo. Doutor em Teologia pela Faculdade Jesuíta de Belo Horizonte (FAJE), Doctor of Theology pela Katholieke Universiteit Leuven (KU Leuven), Bacharel em Filosofia (UFMG) E-mail: fveliq@gmail.com.

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