Religião

26/09/2019 | domtotal.com

Na tirania dos violentos, agatha não tem vez

Um Estado que não se importa em matar inocentes não é civilizado, é promotor da selvageria governado por homicidas.

As ações policiais contam com tiros a partir de helicóptero no Rio.
As ações policiais contam com tiros a partir de helicóptero no Rio. (Sergio Moraes/ Reuters)

Por Élio Gasda*

“Quando a farda significa morte, a democracia inexiste e tudo vira uma tragédia” (Machado de Assis). Que tipo de vida a sociedade aceita viver? Que tipo de sociedade nos tornamos? Aquela que sacrifica crianças em nome da ideologia da segurança pública? Ágatha Félix foi sua vítima mais recente. Menina de 8 anos, fuzilada pelas costas dentro de uma Kombi, agonizou no colo da mãe ao lado do seu avô. Agatha, do grego agathe, significa “bondosa, virtuosa”. Mais do que um nome, é uma identidade, um caráter, um projeto. Morte à bondade, morte à virtude, morte ao futuro. Pipoco na civilização!

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O policial não puxa seu gatilho sozinho. Somente uma sociedade permissiva se deixa governar por autoridades que encarnam o extremo oposto de Ágatha. A reação de ambas dá a medida exata de seu caráter. Governantes estimulam a violência policial diante da anuência da população. Sua necropolítica resulta da autorização para matar, é a ordem que policiais estão recebendo. O governador do Rio de Janeiro já apareceu vestido com trajes de policial e dando tiro de sniper a bordo de um helicóptero em Angra dos Reis. 

O Brasil tem um presidente que está on-line o tempo inteiro, que fala mesmo hospitalizado. Mas sobre a morte de Ágatha nem um pio. Quem cala consente. Essa é a sua política de segurança. Em abril, Bolsonaro demorou seis dias para se pronunciar sobre a ação do Exército que disparou mais de 80 tiros contra um carro de família, matando o músico Evaldo dos Santos Rosa e o catador Luciano Macedo. Mas, para o presidente, o “Exército não matou ninguém”. Assim eles tratam os pobres: ninguéns.

A aberração do “excludente de ilicitude”, uma licença para matar, consta do pacote anticrime de um ministro da Justiça! Para o ministro, a morte de Ágatha foi um “evento infeliz”. Infeliz é ter uma polícia despreparada e agressiva que invade as periferias como se estivesse em guerra contra os pobres. 40% dos homicídios registrados na cidade do Rio entre janeiro e agosto de 2019 foram causados por policiais (Observatório da Violência). Um massacre!

A sociedade não se importa com a dor das mães que enterram seus filhos assassinados pelo Estado. Crianças indefesas alvejadas por uma política genocida de “mirar na cabecinha” (Witzel). Estudos da Unicef, com base em dados da Secretaria da Segurança Pública de São Paulo, aponta que mortes causadas por policiais superaram os homicídios com intenção de matar, com 580 mortes entre 0 e 19 anos na capital de 2014 a 2018. A principal causa de mortes de crianças, adolescentes e jovens de até 19 anos na cidade é a ação da polícia.

Conforme a plataforma Fogo Cruzado, outras crianças foram baleadas no primeiro semestre de 2019 no Grande Rio. Em janeiro, uma criança foi atingida pelas costas no condomínio onde mora, em São Gonçalo. Em fevereiro, Jenifer Silene Gomes, de 11 anos, havia chegado da escola e descascava cebolas na porta do bar da família quando foi baleada, em Triagem. Em abril, outra foi baleada no Complexo da Maré em uma operação policial com uso de helicóptero como plataforma de tiros. Foram mortas oito pessoas. Em junho, Letícia Tamirez Gazol, de 9 anos, estava a caminho da Escola, em Duque de Caxias, quando levou dois tiros. Além de Letícia, seu primo, de 6 anos, foi ferido; um vendedor de café foi baleado e três pessoas morreram. No Complexo do Chapadão, em julho, outra criança foi atingida quando dançava balé no quintal de casa. Também em julho um bebê de 1 ano e 10 meses foi baleado no colo da mãe a caminho da Igreja. Ela levou 10 tiros ao ficar no meio do fogo cruzado em uma ação da PM. Lauane Cristina Machado, de 7 anos, foi baleada durante um patrulhamento de policiais da UPP no Complexo da Penha.

Toda essa brutalidade contra crianças tem muito a dizer sobre nossas autoridades e sobre nossa sociedade. Elas escancaram a perversidade dos primeiros e a nossa indiferença. Se a sociedade fosse decente, ela exigira que governos que matam crianças fossem levados aos tribunais. Porque um Estado que não se importa em matar inocentes não é civilizado, é promotor da selvageria governado por homicidas.

Esta é a questão: “Enquanto não se eliminar a exclusão e a desigualdade dentro da sociedade e entre os vários povos será impossível desarraigar a violência. Quando a sociedade – local, nacional, mundial – abandona na periferia uma parte de si mesma, não há programas políticos, nem forças da ordem ou serviços secretos que possam garantir indefinidamente a tranquilidade” (Evangelii Gaudium, n. 59).

O que estas crianças têm a dizer aos cristãos? Como falar de Deus diante de histórias reais de sofrimento e desespero das suas famílias? Seria Deus tão impassível diante do horror quanto seus seguidores? Confessar o nome de Deus somente tem sentido se expressa um Deus sensível e misericordioso para com os sofredores. Deus é o primeiro a não tolerar governos sujos de sangue inocente: “Estas seis coisas o Senhor odeia, e a sétima a sua alma abomina: Olhos altivos, língua mentirosa, mãos que derramam sangue inocente, o coração que maquina pensamentos perversos, pés que se apressam a correr para o mal, a testemunha falsa que profere mentiras, e o que semeia contendas entre irmãos”. (Provérbios 6, 16-18). O Senhor abomina mãos que derramam sangue.

A ausência de indignação diante do assassinato de crianças revela que preferimos witzel a agatha, a bondade, em nosso coração.

*Élio Gasda é doutor em Teologia, professor e pesquisador na FAJE. Autor de: Trabalho e capitalismo global: atualidade da Doutrina social da Igreja (Paulinas, 2001); Cristianismo e economia (Paulinas, 2016).

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