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26/09/2019 | domtotal.com

O Messias e o Franco

A queda de popularidade, revelada nas pesquisas de opinião, certamente o fará rever conceitos.

O grande problema do país naquela ocasião era uma hiperinflação que chegou a índices estratosféricos.
O grande problema do país naquela ocasião era uma hiperinflação que chegou a índices estratosféricos. (ROBERTO SCHMIDT/AFP – 10/12/1994)

Por Afonso Barroso*

Por dois motivos únicos, Bolsonaro me lembra Itamar. Primeiro, por ser igualmente franco, embora de uma franqueza tosca, por vezes irresponsável. Segundo, por ter acertado, pelo menos aparentemente, na escolha do ministro da Fazenda.

Fernando Henrique Cardoso, o ministro da Economia do governo Itamar, não era propriamente economista. Era filósofo. Mas soube cercar-se de uma equipe competente que se debruçou sobre a doença crônica da inflação e descobriu o antídoto com a criação do Plano Real.

O grande problema do país naquela ocasião era uma hiperinflação que chegou a índices estratosféricos, superando os 40% ao mês (sim, ao mês), o que tornava quase insuportável a vida do cidadão, especialmente da chamada classe trabalhadora.

Merecem ser citados alguns dos economistas que formavam a equipe, como Persio Arida, André Lara Resende, Francisco Lopes e Edmar Bacha. Foram eles os responsáveis pelo quase milagre econômico ocorrido a partir de 1994, um ano depois que Itamar Franco assumiu a Presidência como vice de Fernando Collor, que renunciara para não ser defenestrado no processo de impeachment instaurado contra ele no Congresso.

A instituição do Plano Real foi uma engenharia financeira inédita, baseada na criação de uma tal URV (Unidade Real de Valor), com regras para conversão e desindexação da economia. A URV valia um dólar. Deu certo, e a inflação desceu para a casa de um dígito, possibilitando um período de crescimento econômico e geração de empregos.

Nos 25 anos anteriores tinham sido feitas diversas reformas monetárias, todas com a supressão de três zeros na moeda. Do cruzeiro nasceu o cruzado, que virou cruzado novo, depois voltou a ser cruzeiro, depois cruzeiro real. Deu tudo errado, sempre. Até que chegou o real, criado pela equipe de FHC. O Brasil passou, a partir de então, a ter a moeda mais ou menos forte que vigora até os dias de hoje.

Com a estabilização da economia nacional, o programa fortaleceu de tal forma o ministro Fernando Henrique ao ponto de levá-lo à Presidência da República. Como gostou muito de sentar-se na curul presidencial, FHC foi mordido pela mosca do poder. Vaidoso como ele só, mandou às favas os escrúpulos, comprou os congressistas e instituiu a reeleição, o que ampliou para oito anos o seu mandato e possibilitou o mesmo para prefeitos e governadores. A emenda na Constituição não foi desfeita até hoje, embora oriunda de uma ilicitude vergonhosa.  

Nada dessa história é novidade para o brasileiro razoavelmente bem informado, mas serve para lembrar como é importante e decisivo esse negócio chamado Economia. Se Bolsonaro conseguir, graças à atuação de Paulo Guedes e sua equipe, viabilizar as reformas necessárias, reduzir o desemprego e fazer com que o país volte a crescer, terá boas chances de se reeleger em 2022. O povo esquecerá facilmente suas bravatas, deixará de lado sua posição de direita extrema, suas opiniões esdrúxulas sobre os mais variados assuntos e sua equivocada política externa.

A queda de popularidade, revelada nas pesquisas de opinião, certamente o fará rever conceitos, posições e declarações externadas pelos cotovelos e inaceitáveis para um presidente da República.

O povo que lhe deu crédito pode também negativá-lo no SPC da política. Precisa lembrar-se dessa verdade.

Bolsonaro deverá ainda mostrar, com fatos e com ênfase, que no seu governo não há lugar para roubalheira, até porque foi eleito com a esperança do povo de acabar com a cleptocracia e as práticas antipatrióticas dos governos anteriores.

Resta ao brasileiro vigiar, vigiar, vigiar. E torcer.

*Afonso Barroso é jornalista, redator publicitário e editor.

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