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30/09/2019 | domtotal.com

Quando vou de táxi

Fiquei imaginando que a negritude do taxista era a tara da ilustre senhora. Nelson Rodrigues a chamaria de dama do taxímetro.

Taxistas em geral conhecem muito desta vida .
Taxistas em geral conhecem muito desta vida . (Pixabay)

Por Afonso Barroso*

Gosto de puxar conversa com motorista de táxi. Nem todos são receptivos e, nesses casos, o melhor que tenho a fazer é recolher-me ao silêncio. Mas, na maioria das vezes, a conversa rende e chega a ser agradável e instrutiva. Como convivem com gente de todo tipo, embora por tempo limitado, taxistas em geral conhecem muito desta vida que a gente vive, ora apressada, ora indolente, ora sem graça, ora trágica. Alguns até tomam a iniciativa de conversar durante a viagem, o que muito me agrada.

Certo dia, um deles, um negão tipo Dwayne Johnson, bonito e bom de papo, contou a história de uma mulher “até muito elegante”, que mal entrou no carro começou a chorar. Soluçava, inconsolável. Passo-lhe a palavra:

“A dona chorava e soluçava tanto que eu fiquei com pena. Pelo retrovisor, via-a enxugando as lágrimas com um lenço muito branco. Pensei que estivesse vivendo um problema, um drama sério, e então perguntei por que estava chorando daquele jeito. Ela subitamente parou de chorar. Trocou as lágrimas por um sorriso e disse que não era nada, queria apenas que eu perguntasse por que chorava. Achei aquilo meio estranho, e ela não deu tempo pra eu pensar em mais nada. Foi logo pedindo que a levasse a um motel. Era onde queria desabafar. Respondi que não podia, que era casado e não misturava meu trabalho com outras coisas. Então me deixe no próximo ponto de táxi, ela disse. Foi o que fiz. Ela pagou, saiu, e eu nem quis ver que rumo tomou. É, meu amigo, acontece cada coisa com a gente...”

Fiquei imaginando que a negritude do taxista era a tara da ilustre senhora. Nelson Rodrigues a chamaria de dama do taxímetro.

Em outra ocasião, peguei um táxi com motorista já de certa idade, cabelos brancos e boa conversa. Muito simpático, com sotaque carioca, me contou que era mesmo carioca e se casara em Minas. Com uma mineira de Cambuquira. Foi morar lá quando se aposentou. Comprou um sítio e fabricava cachaça à qual deu o nome de Sulina. Contou que desativou o alambique porque tinha um filho “meio descabeceado” a quem dera a incumbência de tomar conta da fabriqueta, mas acontece que o rapaz bebia demais. E contou assim o resto da história:

“Não sei se foi a convivência com a birita que o viciou. Passava o dia inteiro bêbado. Acabei vendendo o sítio e vim para Belo Horizonte. Vivo da minha aposentadoria como policial e do que ganho como taxista, coisa que gosto muito de fazer. Dirigir para mim é mais um lazer do que trabalho. Tenho em casa algumas garrafas da Sulina. Gosta de cachaça boa? Vou trazer uma pro amigo”, prometeu.

Não perguntei pelo filho. Isso já faz tempo, e a marvada até hoje não chegou.

Outro taxista que conheci era um sujeito gordinho, de boa conversa e muito engraçado. Um dos assuntos do nosso papo foi o GPS, o incrível Global Positioning System, de grande utilidade para quem precisa procurar endereços na cidade grande ou onde quer que seja. Falamos da tecnologia espetacular do aparelhinho, de como pode captar informações do satélite e informar sobre cada rua, estrada, avenida ou esquina.

Em dado momento, ele diz que sempre usa o aparelho com voz, mas desliga no dia 2 de novembro, o Dia de Finados. Pergunto por que, e ele responde que ao levar pessoas ao cemitério, não gosta nada de ouvir, ao fim da corrida, a voz dizendo “Você chegou ao seu destino”. E o simpático gordinho completa com uma risada:

“Sai fora. Sei que um dia vou chegar lá, mas não no meu táxi. E, se Deus quiser, isso ainda vai demorar”.

Quando a voz informou que chegáramos ao nosso destino, despedi-me dele com um sorriso e o desejo de bom trabalho ao volante. Felizmente, não era 2 de novembro.

*Afonso Barroso é jornalista, redator publicitário e editor.

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