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27/09/2019 | domtotal.com

Tiros de fuzil

Entrar em favela é barra pesada, bandido tacando tiro pra todo lado.

Mais uma vez a história se repetiu.
Mais uma vez a história se repetiu. (Tânia Regô/Agência Brasil)

Por Fernando Fabbrini*

Cabo Nelson, policial militar carioca, acordou pontualmente naquela manhã de sol. Deu um beijinho na Jussara, sua patroa; foi ao banheiro, tomou uma chuveirada. Em seguida, assentou-se à mesa e tomou o modesto café com pão, comentando com a mulher as expectativas para o jogo no Maracanã. Ela, Flamengo. Ele, Vasco. Sempre dava briguinha, provocações, piadinhas que terminavam na troca de afagos carinhosos.

O policial militar Cabo Nelson olhou o relógio, estava um pouco atrasado. Vestiu a farda apressado. Seu filho, de mochila nas costas, aguardava a carona de moto do pai pra chegar à escola do bairro. Jussara sempre fica apreensiva vendo o marido saindo para o trabalho. Reza muito, desliga a TV para não saber o que está acontecendo na cidade.  

- Bora, Daniel! – disse o pai. E lá se foram eles.

Depois de deixar o menino, Cabo Nelson chegou ao quartel. Formação da tropa, instruções, distribuição de armamento. Na ordem do dia, mais uma incursão numa favela do Rio. Nelson sentiu por um instante o já conhecido calafrio nas costas, a garganta seca, o pescoço tenso. Mas passou logo, soldado vai se acostumando. As contas do fim do mês assustam também.

Entrar em favela é barra pesada, bandido tacando tiro pra todo lado. Tem ainda colega morrendo sangrando com tiro de AK-45 bem na testa e os outros policiais sem poder fazer nada. É o velho truque: bandido atira em um e espera os outros socorrerem o ferido para mudar a tecla do disparo automático – pá-pá-pá-pá! – e completar o serviço. Tem ainda repórter fuxicando, entrando na frente, atrapalhando o trabalho, buscando imagens chocantes para a TV.

Ao subir no caminhão, com capacete, colete à prova de balas e armado de fuzil, Cabo Nelson, policial militar carioca, marido de Jussara e pai do Daniel, esfregou as mãos, contente, e gritou aos companheiros:

- Beleza, pessoal! Vamos agora tacar uns tiros nuns inocentes, de preferência pelas costas!

Pausa. Para muita gente, esta é a versão preferida. Sobretudo para ativistas das redes sociais, acontece dessa maneira, desse jeito. Os militares adoram o trabalho relaxante de subir às favelas, enfrentar traficantes disfarçados de gente boa, entrar em becos dos quais não se sai vivo. Rotina, tudo rotina. Pra variar, de vez em quando atiram em moradores pelas costas.

Mais uma vez a história se repetiu. Operação em favela carioca, tiroteio; uma bala mata uma menina chamada Ágatha, escandaliza a população e vira manchete. Mais um morto da guerra, assim como tantos policiais, como Cabo Nelson, pai de Daniel e esposo de Jussara, do qual pouca gente sabe o nome porque não virou manchete nem escandalizou a população.

No Rio e em outras cidades do país há uma guerra sem fim, há décadas. Guerra com centenas de mortos diversos: civis, militares, trabalhadores, crianças, donas de casa, idosos. Guerra que muitos brasileiros se recusam a encarar como tal; é apenas “a violência do Rio”. Para parte da imprensa, dos comentaristas sempre chocados e da opinião pública indignada, existem “confrontos inadmissíveis onde a polícia deveria ser mais cuidadosa, respeitadora e responsável”. Já os traficantes podem continuar descuidados, selvagens, assassinando quem lhes dá na telha. Podem até usar eventualmente a tática diabólica, inominável, execrável: polícia subindo o morro? Então, tiro de fuzil num morador qualquer para interromper a batida, permitir a fuga da bandidagem e aguardar a televisão.

O usuário das redes sociais cheira sua primeira fileira branca do dia, respira fundo, treme de prazer. Em seguida, confere as novas notícias da guerra nacional. Em êxtase, pupilas dilatadas, suando, coração disparado – não por indignação, mas por efeito do alcaloide – dispara seu fuzil raivoso de palavras e culpa Deus e todo mundo. O Brasil está mesmo uma merda. Porém, ele não tem nada com isso, não é problema dele, que se dane o Brasil.   

*Fernando Fabbrini é roteirista, cronista e escritor, com quatro livros publicados. Participa de coletâneas literárias no Brasil e na Itália e publica suas crônicas também às quintas-feiras no jornal O Tempo.

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