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01/10/2019 | domtotal.com

Criminal e o primado da franquia

Mais que as histórias contadas, interessa a experimentação de formato e algo de ideológico e subversivo que repousa em suas entrelinhas.

A cada episódio acompanhamos uma equipe policial trancada em uma sala de interrogatório tentando arrancar a confissão de um suspeito.
A cada episódio acompanhamos uma equipe policial trancada em uma sala de interrogatório tentando arrancar a confissão de um suspeito. (Divulgação)

Por Alexis Parrot*

Quando se fala de franquias cinematográficas, Star wars, Harry Potter, O senhor dos anéis e o universo dos super-heróis da Marvel são os primeiros exemplos que nos vêm à mente. Ser continuamente bem-sucedidas na bilheteria torna-se a única obrigação para determinar sua longevidade. Acertar uma franquia é o sonho de todo estúdio.

Apesar de hoje em dia o conceito já estar largamente assimilado pelo público, não é uma prática tão antiga e, por incrível que pareça, se originou de uma série de televisão. Do salto da telinha para os cinemas foi que a onda começou - e de marolinha, acabou se tornando esse tsunami que agora conhecemos tão bem.

Os filmes originados da clássica Star trek televisiva, a partir de 79 (uma clara tentativa de capitalização em cima do sucesso estrondoso do primeiro Star wars, lançado dois anos antes), foram os primeiros apelidados com o termo, de certa forma até depreciativo na origem, creditando o forte intuito comercial com que foram projetados.

Com a boa resposta das plateias ao redor do mundo, o passar dos anos viu somarem-se a estes filmes outras cinco séries (que em breve serão seis, com a mais recente, Picard, já em processo de gravação) e um reboot nas produções para o cinema, com a possibilidade até de Tarantino dirigir a próxima aventura estrelada pelos repaginados Kirk, Spock e demais tripulantes da Enterprise.

Se hoje em dia tudo é franquia, o princípio encontrou o seu limite: acaba de estrear uma série que já nasce se apresentando como tal. É Criminal, drama policial bem urdido do Netflix, com inúmeros méritos narrativos de concepção e execução. Porém, mais que as histórias contadas, interessa a experimentação de formato e algo de ideológico e subversivo que repousa em suas entrelinhas.

A cada episódio acompanhamos uma equipe policial trancada em uma sala de interrogatório tentando arrancar a confissão de um suspeito. A ação (ou a falta dela) se desenrola em tempo quase real e nenhuma informação nos é dada sobre o crime cometido além daquilo que se fala ou se mostra naquele espaço e naquele momento. Não temos direito a flashbacks ou narrações em off e, enquanto segue o processo de investigação, nos inteiramos um pouco dos dramas pessoais e pequenas intrigas que correm entre os funcionários da delegacia.

A coisa toda ocupa apenas o saguão de entrada da DP, a sala de interrogatório (equipada com um daqueles manjados espelhos de um lado só) e o cômodo contíguo, onde se pode observar sem ser visto e conversar sem ser ouvido pelo outro lado. E só. Parece pouco – e é.

Mas a cada três episódios tudo muda, mesmo sem mudar. Nos mesmos parcos três cenários as equipes são trocadas. Mais que isso, muda-se a cidade onde esta delegacia está situada. E o país onde as diligências são feitas. Se for para maratonar, de três em três horas o telespectador pula entre Londres, Berlim, Madri e Paris. E uma primeira temporada de doze episódios, em um passe de mágica se transforma em três primeiras temporadas - não de uma série, mas de uma franquia transnacional.

A preocupação de se mostrar atual redunda em posicionamentos políticos claros e temas da ordem do dia se fazem presentes de modo que chegam a beirar o ativismo. O atentado terrorista ao parisiense Bataclan, em 2015; o tráfico humano de refugiados; a homofobia; a pedofilia; golpes que se utilizam das redes sociais e dos aplicativos de encontros; e até um caso antigo relacionado à especulação imobiliária na Berlim Oriental pós-queda do muro em 1989 são motes para que os roteiristas da atração baseiem seu trabalho. Cada um dos quatro países representados tem grandes momentos, mas é o bloco alemão que consegue atingir os melhores resultados, seguido de perto pelos três episódios espanhóis.

Os casos investigados são irregulares: nem todo episódio é tão bom quanto o anterior ou o próximo, e nem sempre a resolução é tão surpreendente. Mas não faz mal. Mesmo que o crime da vez e a investigação não consigam prender tanto, a relação entre os detetives consegue segurar nossa atenção.

Os crimes são resolvidos, mas as questões envolvendo o lado profissional ou pessoal dos interrogadores, nem sempre. Esse "deixar no ar" intriga e pode ser mais interessante do que forçar respostas para fechar cada história. A sutileza de Criminal na maneira como nos apresenta seus personagens os humaniza e é feita para ser sorvida de pouquinho em pouquinho, uma dádiva rara. 

Com tão pouco espaço para o grand guignol, o elenco foi acertadamente montado em cima de bons e ótimos atores, com apenas uma ou outra cara mais conhecida do grande público brasileiro – como David Tennant (de Jessica Jones e Broadchurch) e as almodovarianas Emma Suárez, Inma Cuesta e Carmen Machi.

O custo de toda a brincadeira acaba sendo puxado para baixo, graças ao princípio comercial da franquia e irrisório, se comparado com outras produções do mesmo Netflix. No pólo oposto de Criminal está a premiada e caríssima The crown, série "de épocas" que retrata o reinado de Elizabeth II visto de dentro do Palácio de Buckhingam e que estreia em breve sua terceira temporada.

A economia de recursos em que se baseia a ideia de Criminal é exatamente aquilo que não pode acontecer em The crown; o fausto e o superlativo são as guias mestras da versão romantizada da vida dos membros da Casa de Windsor e da vida política da Inglaterra nos últimos setenta anos.

Uma série é o exato contraponto da outra, para além do sentido de custos de produção. No que Criminal tenta inovar, The crown não poderia ser mais tradicional; a primeira é seca e direta e a última, um novelão melodramático (muito bem realizado, mas ainda assim um novelão).

Se fôssemos compará-las, Criminal seria os esforços de unificação da Comunidade Europeia, buscando as semelhanças nas diferenças entre seus países membros; e The crown simbolizaria a arrogância inglesa que escolheu o caminho do Brexit, incapaz de esquecer seu histórico imperialista. Enquanto uma trata dos aspectos mais brutais do dia a dia do homem comum, a outra busca humanizar reis, rainhas e princesas, meio que os desmistificando mas ao mesmo tempo reafirmando sua condição superior.   

Duas das principais diretrizes do Netflix para decidir as atrações que irá bancar são a diversidade e a variedade, em uma tentativa clara de sempre tentar conquistar gregos e troianos de qualquer parte do globo. A estratégia é tão levada a sério que mesmo séries de sucesso não costumam ter vida longa: os recursos são preferencialmente aplicados na produção de novos programas em detrimento de novas temporadas de programas antigos.  

É por isso que Criminal e The crown cabem lado a lado no menu de opções do mesmo serviço de streaming (e este fato acaba sendo apenas sintoma de um mal maior). Mesmo tão antagônicas em tudo que possam representar artística ou politicamente, servem para reafirmar a única ideologia do Netflix: a incoerência de tentar ganhar dinheiro por todos os lados possíveis, acenando para a tradição e para a rebeldia, indiscriminadamente.

Ao abraçar todos os discursos, periga acabar sem discurso nenhum – ou pior ainda, pregando no deserto.

CRIMINAL – Primeira temporada disponível no Netflix.

*Alexis Parrot é diretor de TV, roteirista e jornalista. Escreve sobre televisão às terças-feiras para o Dom Total.

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*O DomTotal é mantido pela Escola de Engenharia de Minas Gerais (EMGE). Engenharia Civil conceito máximo no MEC.
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