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02/10/2019 | domtotal.com

E Walter Franco desabafou

Ouvi o desabafo de um homem, não por ser artista, mas simplesmente por ser feito gente.

Conduzi o músico até a varanda do Edifício Joaquim de Paula e ficamos filmando o vaivém das pessoas e dos carros.
Conduzi o músico até a varanda do Edifício Joaquim de Paula e ficamos filmando o vaivém das pessoas e dos carros. (GoogleMaps)

Por Pablo Pires Fernandes*

O terno branco chamou minha atenção. Ele observava o fluxo dos carros, o abrir e fechar dos semáforos até se deter diante da placa azul da Praça Milton Campos como se quisesse entender onde estava. Talvez buscasse um rumo, embora eu não percebesse qualquer sinal de aflição em sua visível desorientação.

Fui até ele e Walter Franco me respondeu com uma pergunta: “É por aqui que se come uma lasanha?”. Conduzi-o até o veículo sempre estacionado na rua, próximo a um centro espírita, que alimenta noctívagos famintos. Ele só quebrou o silêncio depois da sexta ou sétima garfada. “Que delícia.”

Descemos a Afonso Pena conversando enquanto prostitutas e travestis faziam gestos insinuantes e nos dirigiam cantadas chulas. A cada abordagem, ríamos e seguíamos sem destino certo. Imaginei ele cantando para as moças trabalhadeiras: “Amor não chora, de sofrimento, vim te buscar, cheguei agora, no vento”, mas o que saiu da minha boca foi outro verso da mesma canção – “Viver é afinar o instrumento”. Ele soltou uma gargalhada sonora e respondeu com um gesto obsceno se referindo a outro tipo de instrumento.

Na altura da Praça ABC, Walter Franco segurou meu braço. Sem olhar nos meus olhos – mirava o chão, numa espécie de timidez, parecia lutar contra algum tormento interior e era clara a dificuldade de se expressar –, confessou sua angústia de ser tachado de maldito. Falou sobre incompreensão e o preço que pagou por ser um artista livre de amarras, de ser franco, apenas Walter.

Ouvi o desabafo de um homem, não por ser artista, mas simplesmente por ser feito gente. Ousou se entregar, ser pleno e apanhou muito. Não foi físico, mas decepções e rasteiras machucam a alma. Eu ouvia. Ele falava sem parar e a gente seguia descendo a avenida sem se importar com o destino. Quase chegando ao Parque Municipal, Walter Franco estacou e, pela primeira e única vez, me dirigiu um olhar direto. Estava sério, sem qualquer traço de ressentimento.

“Depois de olhar, cair no fundo do poço e sair de lá, tudo fica mais simples e claro”, falou com a certeza de um juiz corrupto, mas ele era franco, como sempre, não seria diferente. Notei uma certa angústia – era óbvio o esforço para fazer aquele discurso, por mais verdade que fosse. Puxei o passo e andamos em silêncio até a Praça Sete, quando consegui dizer: “Coração tranquilo”. “Será?”, ele replicou.

Conduzi o músico até a varanda do Edifício Joaquim de Paula e ficamos filmando o vaivém das pessoas e dos carros. Ele me pediu para fechar os olhos – “um precipício”, disse – e me fez ouvir os sons, só os sons. O trânsito, as conversas no bar, o pulsar da cidade.

Fiquei um tempo imerso na cacofonia citadina. Quando abri os olhos, Walter Franco tinha desaparecido. O garçom do bar, que havia sido gentil no convite e entendeu as nossas recusas, me entregou um bilhete numa comanda molhada. “Agora é tarde, eu vou. Saiba que a cabeça pode”, li estupefato.

Da varanda, ainda o procurei. O homem do terno branco sumiu. Tenho certeza, porém, de ser dele o grito que soou na noite. Foi convicta e inequívoca a maneira de pronunciar a palavra “canalha”. Só alguém tão franco deixa um eco assim.

*Pablo Pires Fernandes é jornalista. Trabalhou nas editorias de Cultura e Internacional nos jornais 'O Tempo' e 'Estado de Minas', onde foi editor do caderno Pensar. É diretor de redação do 'Dom Total'.

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