Religião

04/10/2019 | domtotal.com

Uma ponte entre o Vaticano e a Amazônia

Justino Sarmento Rezende Tuyuka, conselheiro do papa para o Sínodo da Amazônia, inaugura a cobertura especial do 'Dom Total' sobre a assembleia em Roma.

Pe. Justino Sarmento em procissão com comunidade indígena na Amazônia.
Pe. Justino Sarmento em procissão com comunidade indígena na Amazônia. (Acervo pessoal/Justino Sarmento)

Por Gilmar Pereira
Repórter Dom Total

O padre tuyuka Justino Sarmento Razende, de 58 anos, é o único indígena que colaborou como especialista na produção do documento a ser debatido no Sínodo dos Bispos para a Amazônia. A assembleia especial, convocada pelo papa Francisco em 2017, começa no Vaticano neste domingo (6) e o debate vai durar três semanas. Salesiano, Justino mora em São Gabriel da Cachoeira e é clérigo há 25 anos. Formado em Filosofia e Teologia, mestre em Educação, hoje faz o doutorado em Antropologia Social na Universidade Federal do Amazonas.

Voz ativa para um diálogo entre a Igreja e os povos da Amazônia, Justino aposta que o sínodo abre a possibilidade para a concretização deste encontro. No entanto, para que isso seja alcançado, deixa clara a necessidade de uma transformação da prática de evangelização na região, de a Igreja se transformar e adquirir “um rosto amazônico”.

Em entrevista ao Dom Total, Justino revela uma voz conciliadora e defende que a Igreja Católica deve se “enculturar”, assimilando práticas culturais, religiosas e cerimoniais dos povos amazônidas. Crítico da atual política do governo brasileiro em relação à população da Amazônia, ele fala do passado colonialista da Igreja, do avanço evangélico e das expectativas do encontro determinante para a visão católica sobre o meio ambiente, a alteridade e o futuro eclesial. A entrevista é a primeira publicação da cobertura especial do Dom Total sobre o Sínodo para a Amazônia. Confira:

A relação histórica da Igreja Católica com os povos indígenas provoca críticas por realizar uma imposição cultural evangelizadora. O que a Igreja entende hoje como evangelização quando se propõe a discuti-la no contexto amazônico?

Na história da América Latina, a Igreja Católica sempre teve atitudes de levar a evangelização para os diversos povos sem ter em conta as riquezas culturais, espirituais, teológicas de cada povo. Não existiu diálogo para fazer o trabalho de evangelização. A Igreja veio à América Latina e à Amazônia com os colonizadores e, por isso, muitos pesquisadores olham essa história como uma imposição religiosa e outra leitura é essa mesma, que a Igreja tinha atitudes coloniais na prática evangelizadora. A maioria dos missionários eram europeus, que chegam trazendo o Evangelho com seus modelos culturais. E não houve, porque eram outros tempos, caminhos de diálogo, de planejamento comum, de entendimento com as comunidades onde chegavam, não tinha nada disso. E a questão da civilização dos povos indígenas estava atrelada à cristianização e à educação escolar, muito ligada e confiada aos religiosos. A Igreja era quem fazia em nome do Estado a educação escolar em muitos lugares. E também ela que fazia o processo de evangelização dos povos.

Como isso tem a ver com sua experiência?

Fui aluno interno dos salesianos em Pari-Cachoeira. Eu sentia que não tinha muita diferença entre civilização e evangelização. Porque uma reforçava a outra. Para poder fazer uma boa civilização dos povos, tinha que fazer uma boa evangelização. Para fazer uma boa evangelização, tinha que fazer um bom processo civilizatório. Eram outros tempos. Minha leitura é essa. Se não fizermos uma leitura a partir de outros contextos, vamos fazer esse tipo de leitura que foi uma imposição. Mas era o modo que se fazia na época, o que, na atualidade, seria muito fora de contexto. Hoje, se fala em diálogo, de encontros culturais, diálogos com religião e ecumênicos, com outras religiões cristãs, com os povos indígenas. São contextos diferentes. Temos que fazer leituras contextualizadas das práticas da evangelização que aconteceram na América Latina e na Amazônia.

Nas discussões sobre o sínodo, fala-se muito de uma Igreja com rosto amazônico. Que rosto é esse?

Rosto amazônico é aquilo que a Igreja vem dizendo sobre a enculturação da mensagem do Evangelho. Que o povo, que é cheio de valores culturais, expressões culturais, riquezas culturais e cerimoniais, vai expressar os valores cristãos a partir de sua identidade cultural como qualquer cultura. Nenhuma cultura vive o Evangelho fora da cultura. Isso que muita gente não entende. Parece que tem um modo fácil de viver o cristianismo. Não é assim. Quem recebe o Evangelho, deve vivê-lo dentro dos seus parâmetros culturais, a proposta vai ter que fortalecer e encontrar muitos valores da cultura local, mas também, como proposta nova, vai ter que contribuir para que coisas não tão boas naquela cultura possam ser acertadas ou modificadas. Desde o Concílio Vaticano II, bispos e cardeais vêm falando da enculturação do Evangelho. Para dizer que Jesus, ou a boa nova de Deus, o Espirito de Deus, já estavam presentes em todas as culturas antes mesmo da chegada dos missionários. Então, quando se fala de uma Igreja de Cristo com rosto indígena, é justamente essa dimensão dos indígenas, quando assumem o Evangelho – o Evangelho, não o cristianismo. O cristianismo aqui é aquele dos encontros culturais. Deve-se entender que, quando os indígenas assumem o Evangelho, eles vão expressar os valores do Evangelho em sua própria língua, nas suas celebrações, que vão expressar a riqueza da mensagem do Evangelho através de suas artes, de seus ritmos, de suas músicas. O rosto indígena é isso significa que os indígenas precisam expressar o que têm no coração. O coração indígena tem muitas coisas boas, muitos valores. No encontro com o Evangelho, vão expressar a alegria de viver a vida cristã como indígenas. Senão fica aquela tristeza porque vão lhe obrigando a ser aquilo que não é, que aquele indígena viva a vida cristã como se fosse europeu – italiano, alemão, francês, norte-americano. Quando o sínodo vem falar sobre a questão do rosto indígena, do rosto amazônico, é para dizer que a Igreja cristã na Amazônia precisa se encarnar, precisa se enculturar, precisa criar diálogos com outras culturas, com outras experiências religiosas. É a questão da interculturalidade que o documento fala.

Como a Igreja e o sínodo se colocam em relação aos povos amazônicos?

Hoje em dia, todos estão interligados ou conectados com outros povos. Alguns dizem “Ah! O sínodo quer que os indígenas voltem a viver como no passado”. Pura mentira! Ninguém fala disso. O que se pensa é que, no contexto atual, os indígenas também estão bastante modernizados, atualizados. Então, as pessoas que têm contato com as universidades, que são gestores de escolas, que são padres, teólogos e leigos comprometidos, eles precisam afirmar seu direito de ser Igreja a partir do que vivem como indígenas, como amazônidas, como quilombolas, com ribeirinhos, como povos das cidades. Não para mostrar que a Igreja vai se separar. Mas para enriquecimento da nossa Igreja Católica universal. No entanto, muitos críticos olham como ruptura – “agora os indígenas vão criar nova Igreja”. Essa também é uma interpretação equivocada. Ninguém fala de criar uma nova Igreja.

O sínodo vem recebendo críticas por grupos dentro e fora da Igreja. Quais são as maiores resistências e qual a origem delas?

Quem está acostumado viver um estilo tradicional – nós também vivemos o tradicional –, mas a ideia de retornar para um ainda mais tradicional assusta. Mas o sínodo está indo para o caminho inverso. Enquanto muitos estão se voltando para o fundamentalismo católico, o que estamos dizendo é: vocês, povos da Amazônia, precisam pensar como podem enriquecer a Igreja assumindo modos próprios, enquanto povos específicos e diferenciados, para enriquecer da vida da Igreja e a vida da sociedade. Também há um o tradicionalismo do outro lado. Porém, se querem viver assim, que vivam. Mas também existe outro modo de viver a vida cristã, como indígenas, com seus valores, com suas expressões culturais, com sua língua, com suas linguagens, fazendo esse encontro com a mensagem do Evangelho, com os valores cristãos. Existe aí mensagem de Jesus que se encarna numa cultura. Todos os conteúdos que Jesus trabalha passam pelo filtro de uma cultura. Jesus não falou pelo ar, tudo ele falou pela cultura que ele estava encarnado. A Igreja deveria ser assim aqui na Amazônia. Quem vai fazer esse processo de enculturação serão os próprios membros dessa cultura. Para fazer isso teremos que compreender bem o que é o Evangelho, o que é a vida cristã, senão a gente pode estar fazendo uma teatralização das coisas importantes. Por isso a necessidade de formação, de estudos, dar tempo ao tempo. Não é uma coisa tão simples como se tenta.

Os grupos evangélicos, sobretudo pentecostais, têm crescido na região amazônica. Quais os impactos disso sobre o povo da região?

Os evangélicos estão fazendo hoje, principalmente esses pentecostais mais fundamentalistas, aquilo que a Igreja Católica fazia: entrar nas aldeias, fazer a imposição, impedir que eles pratiquem suas culturas, suas cerimônias, etc. É o retrato do catolicismo dos primeiros centenários. Era justamente isso o que a gente fazia. Quando a gente olha isso, digo: são os católicos ontem, é o meu retrato do passado. Então, não dá para criticar. Hoje, estamos tentando nos afastar disso. Mas eles mostram para nós, visivelmente, quem somos nós católicos na América. todo movimento indígena, toda a reflexão da teologia índia ajudou para que, aqui, na Amazônia, principalmente aqui a América Latina de maneira geral, se pensasse outros modos de pensar a evangelização. Não foi tão fácil. A Igreja (Católica) está presente aqui na Amazônia há 403 anos e não chegamos ainda pensar numa Igreja diferente. Não temos ainda padres suficientes para pensar; nós mesmos indígenas, como poderiam ser nossas celebrações, como poderiam ser as formações. Ainda somos dependentes de missionários que vêm de fora. Porque demorou tanto tempo para se criar as vocações indígenas? Ainda existe preconceito contra os indígenas? Será que a Igreja nos olha como pessoas humanas capazes de assumir ministérios?

Como a Igreja e as congregações lidam com as vocações indígenas e a formação?

Muitas congregações estão em processo de acabamento, estão terminando. Há muitas congregações que atuam há muito tempo e não têm vocações. Aí eu pergunto: será que eles não conhecem os povos amazônidas mesmo convivendo com indígenas? Quando participo de eventos grandes – nacionais e internacionais – escuto teólogos e muitas pessoas dizerem que os indígenas são incapazes de viver o celibato. Isso, para mim, é uma visão preconceituosa, porque o celibato e a vida religiosa se vive com a graça de Deus da espécie humana. É preciso repensar os conteúdos da formação humana, não só dos indígenas, mas também dos que não são indígenas. Porque o problema não é compreender os indígenas, mas fazer com que o não indígena compreenda os povos amazônidas, os povos indígenas. O trabalho tem que ser em duas frentes.

Diante dos estudos e narrativas majoritariamente europeias e estrangeiras, como o senhor, que trabalha com educação junto aos povos indígenas, pensa o  futuro da educação e da catequese em uma perspectiva amazônica?

A Igreja não mudou porque ela quis, ela foi obrigada a mudar. A uma ideia mais recente, em relação aos povos indígenas, de que deve haver respeito, novos modelos de educação própria, que seja comunitária, específica e feita nas suas próprias línguas. Tudo isso obrigou a Igreja a respeitar seu modo de fazer a evangelização. Surgiram vários movimentos indígenas que trabalharam sobre a questão da valorização das culturas, da revitalização das práticas culturais, do fortalecimento das identidades indígenas. A Igreja foi obrigada a repensar sua forma de evangelização. Em outros lugares, a própria Igreja foi motivadora para que os povos indígenas pensassem suas culturas de forma diferente. Muitas organizações indígenas surgiram pela assessoria ou por iniciativa da própria Igreja, houve um trabalho em conjunto. Hoje em dia, a Igreja sozinha não vai conseguir fazer muitas coisas novas. Ela tem que estar articulada a outros movimentos que trabalham com as mesmas questões.

Como a Igreja pode colaborar para a organização popular dos grupos e povos da Amazônia e qual é o papel político da Igreja na região?

Papel político, não sei. Quem deve fazer são os destinatários. O papa fala que os interlocutores principais em diversos níveis na educação, na evangelização, na vida acadêmica, na organização social devem ser os próprios indígenas. A sociedade cai em cima como se nós estivéssemos impondo a eles o modo de fazer. Mas, hoje, na Amazônia, os próprios indígenas estão qualificados e capacitados a exercer a vida política, de diálogo, negociação, gestão escolar. São questões que mudaram muito. Hoje, a Igreja não faz tudo. Ela está presente colaborando com todo esse movimento. O governo sozinho faz muito pouco e os indígenas sozinhos também. Então precisa da Igreja, esse compromisso compartilhado, o que, para mim, é muito importante. Não dá mais para a gente tentar fazer um trabalho isolado de outras organizações sociais da Amazônia.

O que os povos da Amazônia querem e esperam da Igreja e o que a Igreja quer e espera da Amazônia?

Nesse momento, os povos indígenas querem que, no sínodo, seja falado aquilo que eles propuseram na escuta. A Igreja quis ouvir dos povos da Amazônia o que o sínodo tratasse. Muitos povos indígenas, povos ribeirinhos, quilombolas, povos das grandes cidades, das dioceses, os bispos, os missionários, as missionárias, agentes de pastorais, padres, todos deram propostas, como se pedia no tempo das escutas. Que as propostas fossem valentes, ousadas e sem medo. Isso está proposto e se materializou no Instrumentum laboris. Mas é impossível colocar tudo, há muitas sínteses da escuta que não foram contempladas. Os povos amazônicos esperam que os bispos e os padres sinodais façam ecoar essas vozes da Amazônia durante o sínodo, que mostram o que a Igreja precisa falar para a defesa da Amazônia, da defesa dos povos, para a defesa da economia, da política..., porque agora ele escapa das mãos dos povos indígenas e escapa também de nós que ajudamos. Agora, o trabalho é dos bispos. É eles que vão expressar, refletir, decidir, encaminhar para o papa Francisco aquilo que eles pensam a partir dessa realidade amazônica. Devemos sonhar alto, fazer uma nova experiência de vida cristã. Que ela seja mais próxima. Aquilo que o documento diz, que a Igreja seja mais presente na vida das comunidades. É isso que nós esperamos. Claro que nem tudo o que se quer vai acontecer. Nós, povos amazônidas, estamos na Amazônia. Vamos continuar a viver por aqui. Não sei, o futuro eu não sei. O futuro só Deus sabe dizer como será. Mas a esperança é muito grande que a Amazônia dê uma boa contribuição para a nossa Igreja Católica.

EMGE

*O DomTotal é mantido pela Escola de Engenharia de Minas Gerais (EMGE). Engenharia Civil conceito máximo no MEC.
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