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04/10/2019 | domtotal.com

Obras brasileiras, francesas e espanholas rumo ao Oscar

O brasileiro 'A vida invisível' e o francês 'Les misérables' também vão disputar o prêmio.

Cena do filme 'Dor e glória', do espanhol Pedro Almodóvar.
Cena do filme 'Dor e glória', do espanhol Pedro Almodóvar. (STUDIOCANAL/El Deseo)

A batalha oficialmente começou na terça (1º), quando terminou o prazo para inscrição ao Oscar de melhor filme estrangeiro - agora denominado pela Academia como melhor longa-metragem internacional. Com isso, o representante brasileiro, A vida invisível, de Karim Aïnouz, está oficialmente na luta - e com grande chance. Além da chancela recebida no Festival de Cannes, em maio, quando conquistou o segundo principal prêmio, Un certain regard, o longa produzido pela RT Features tem uma importante aliada na campanha americana: a Amazon, gigantesca plataforma de streaming.

"O primeiro passo foi antecipar de janeiro para dezembro a estreia do longa em dois grandes mercados americanos", conta o produtor Rodrigo Teixeira, da RT, referindo-se a Nova York e Los Angeles. "Teremos ações nessas cidades, além de Londres e Paris, onde há também muitos votantes."

Na verdade, a campanha é praticamente mundial, pois há eleitores em vários países, inclusive no Brasil. "Espero ter aqui ao menos um apoio da comunidade artística", comenta Teixeira, que descobriu uma pedra no caminho tão logo A vida invisível foi o longa escolhido para representar o Brasil, em agosto: no dia seguinte ao do anúncio, recebeu um comunicado da Ancine informando que a agência não poderia contribuir para a campanha internacional, como era hábito. Com isso, ele deixou de contar com R$ 200 mil.

"Na verdade, eu já não contava com esse aporte", confessa Teixeira, que concentrou esforços no apoio acertado com a Amazon. "Os executivos da plataforma ficaram empolgados com a delicadeza do filme e decidiram organizar uma campanha parruda."

Ainda que não fale em valores, Teixeira deixa escapar que as cifras investidas deverão se aproximar dos seis dígitos. O necessário para cumprir um organograma que inclui, além do lançamento do filme no final de dezembro em Los Angeles e Nova York, anúncios publicitários em mídia especializada (como a revista Variety), participação em festivais que, embora não tão conhecidos, foram o circuito especial para o Oscar e, principalmente, sessões especiais para os votantes da Academia.

"É nesse momento que o contato com o eleitor é direto, portanto, é organizada uma apresentação especial", conta Teixeira, que vai decidir com a Amazon quem serão os apresentadores do filme nas sessões de Nova York e Los Angeles. "Penso em convidar James Gray (diretor de Ad astra) e até Martin Scorsese, caso ele não esteja ocupado demais com seu novo trabalho, The irishman."

Grande concorrente

A Amazon vai concentrar seus esforços na divulgação de duas produções para a disputa do Oscar de melhor filme internacional: o brasileiro A vida invisível, de Karim Aïnouz, e Les misérables de Ladj Ly, representante da França. Dois longas muito distintos - enquanto o nacional é um tocante melodrama sobre questões de gênero, o francês utiliza os subúrbios parisienses para tratar dos problemas de imigração.

A julgar pelos elogios de alguns críticos americanos, o filme brasileiro reúne grande chance de chegar entre os cinco finalistas, que serão conhecidos no dia 13 de janeiro – a cerimônia do Oscar acontece em nove de fevereiro. "Acredito que dois longas têm lugar certo nesta lista: Dor e glória, do espanhol Pedro Almodóvar, e Parasita, de Joon-ho Bong, representante da Coreia do Sul", observa Rodrigo Teixeira, da RT Features, produtora de A vida invisível. "As outras três vagas seriam disputadas pelo restante." Ele ainda vê com boas chances o dinamarquês Rainha de copas, de May El-Toukhy.

Mesmo assim, a disputa pelo Oscar de produção internacional é diferente das demais categorias, cujas premiações paralelas indicam os mais fortes candidatos – normalmente, os vencedores do Sindicato dos Atores, por exemplo, acabam faturando também a estatueta dourada. Neste ano, a mecânica de escolha mudou: antes era divulgada uma pré-lista com nove finalistas, agora serão 10: sete serão escolhidos por um comitê internacional e os outros três serão votados por um comitê executivo. Os 10 escolhidos serão avaliados novamente pelo comitê internacional, que vai definir os cinco finalistas. "E, nos últimos anos, a Academia rejuvenesceu, contando agora com menos membros conservadores."

É esse aspecto que transforma as redes sociais em grande trunfo na divulgação do filme - para isso, a Amazon se prepara para disparar, por exemplo, uma série de newsletter sobre A vida invisível - não é segredo o interesse da plataforma em ganhar esse Oscar, uma vez que, no ano passado, o vencedor foi Roma, do mexicano Alfonso Cuarón, belíssima produção da Netflix.

"Os executivos da Amazon estão otimistas, muitos me confessaram terem amado o filme do Karim", conta Teixeira, que percebe outro fator positivo, provocado pela forma com que o restante do planeta observa hoje o Brasil. "Nossa imagem agora é estranha, não é mais favorável como antes", disse ele, que esteve no Festival de Zurique no fim de semana passado, quando teve a percepção. "Com isso, a arte desponta como resistência e os estrangeiros estão dispostos a premiar isso."

Além da indicação para a estatueta de produção internacional, A vida invisível, que estreia dia 31 no Brasil e já foi vendido para 30 países, tem grande chance também na disputa da categoria fotografia, com a francesa Hélène Louvart. "Ela já recebeu prêmios específicos da sua área, o que a deixa com muitas chances", explica Teixeira, cuja produtora terá chance de participar de outras categorias de peso com outras produções: Ad astra e Wasp network.

Já em cartaz no Brasil, Ad astra é uma ficção científica intimista, dirigida por James Gray e é estrelada por Brad Pitt, também produtor. "Esse é o grande ano de Pitt, que está também fabuloso em Era uma vez em... Hollywood, de Quentin Tarantino", comenta o produtor, que vê a possibilidade de uma dupla indicação para ele, como ator e ator coadjuvante – além de uma indicação para Gray e até de melhor filme: com isso, em caso de vitória, Rodrigo Teixeira será o primeiro brasileiro a conquistar o prêmio máximo da Academia.

Wasp network, de Olivier Assayas e inspirado em livro de Fernando Morais, pode ter chance nas categorias de atriz (Penélope Cruz) e Gael García Bernal (ator coadjuvante).


Agência Estado

EMGE

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