Mundo

07/10/2019 | domtotal.com

A China e o desafio do marxismo capitalista

Com 70 anos, o Partido Comunista da República Popular da China mostra-se um jovem cheio de energia.

Governo chinês celebrou o aniversário de 70 anos da sua revolução e de domínio do Partido Comunista.
Governo chinês celebrou o aniversário de 70 anos da sua revolução e de domínio do Partido Comunista. (Kevin Frayer/Getty Images)

Por José Couto Nogueira*

No dia 1º de outubro, a China mobilizou-se para celebrar a vitória do partido do poder há 70 anos e mostrar a sua potencialidade de liderar o mundo. Com uma história atribulada de mais de 3 mil anos, o país encontrou finalmente o seu destino.

Na Praça Tiananmen, uma impressionante parada de 15 mil militares, 600 veículos e 180 aviões, seguida de um desfile de 110 mil civis, passou perante a muralha da Cidade Proibida, sobriamente decorada com o retrato de Mao Tsé-Tung. O maior desfile militar na história da China, que tem o segundo maior exército do mundo. (O primeiro, por ora, ainda é o dos Estados Unidos) Impressionante, a ordem unida das tropas e a determinação na expressão dos soldados. Na varanda, o presidente vitalício e secretário-geral do Partido Comunista, Xi Jiping, ladeado pelos seus antecessores, Jiang Zemin e Hu Jintao. Depois, o próprio Xi Jiping passou em revista as tropas formadas, com o seu sorriso de discreto orgulho e certeza de que está no bom caminho.

Exceto no minúsculo território de Hong Kong, insignificante em população e território, todos os 1,4 bilhão de chineses na terra mãe e muitos milhões espalhados pelo mundo relembraram as tradições e celebraram com orgulho a modernidade – porque a China, hoje, é uma amálgama cuidadosamente organizada do passado e do futuro. Embora a tecnologia em constante desenvolvimento e o urbanismo monumental sejam evidentes, as tradições do confucionismo e do complexo sistema de castas mantêm a sua influência. Segundo a doutrina em vigor, o xijipingismo, é essa combinação de respeitinho à antiga e modernidade consumista que garante o progresso, o bem-estar e a obediência da sociedade.

Até aqui, a China percorreu um longo, complexo e atribulado percurso, de que há registo histórico, isto é escrito, desde a Dinastia Shang (1750-1040 a.C.), época em que foi inventada a seda. Na Dinastia seguinte, Zhou, fundia-se ferro e calculou-se a tabela de multiplicação. É neste período que surge o taoismo e o confucionismo, filosofias que nunca mais saíram da cultura chinesa. Confúcio (551-479 a.C.) acreditava que a moral era essencial aos bons dirigentes e que a virtude se obtém com comportamentos sãos. Também foi ele a determinar que o imperador tem um mandato divino para dirigir, criando a expressão “Filho do Céu”. A legalidade exigia a supressão dos contestatários, procurando unificar o país através do controle minucioso e do medo. O conceito de uma oposição leal não fazia sentido, uma vez que o imperador era mandatado pelo céu. De certo modo é o equivalente ao despotismo iluminado que se impôs na Europa no século 18 – só que na China, ao contrário do nosso continente, nunca mais foi contestado e tornou-se o “estado natural” da política.

As invenções chinesas, como o papel, a clepsidra, a pólvora, a besta e tantas outras, são deste período, contemporâneo do nosso Império Romano, com o qual nunca houve contato.

Durante a Dinastia Han começou a expansão para Ocidente, através da famosa Rota da Seda, que chegou à Índia e à Pérsia. Começou a construção da famosa Muralha da China, para conter os mongóis. É desta época o conhecido exército subterrâneo de terracota no túmulo do imperador Qin Shi Huang. Calcula-se que por volta de 200 da Era Cristã a população chinesa seria de 60 milhões, equivalente à do Império Romano.

Este progresso técnico e científico é interrompido em 1279 com a invasão dos mongóis. O império de Kublai Kan, neto de Gengis Kan, manteve a ordem social e impôs um totalitarismo ainda mais radical. Abarcava toda a China e a Ocidente ia até à Pérsia.

Mas não durou muito, em 1421 caiu e a etnia chinesa voltou ao poder com a Dinastia Ming. Neste período aconteceu uma iniciativa formidável que esteve quase a dar à China o poder mundial que foi conquistado poucas décadas depois pela Europa.

É um daqueles acontecimentos cruciais que poderiam ter mudado a história.

O terceiro imperador da Dinastia Ming, Yong, ordenou ao seu almirante Zhang-He que construísse uma armada gigantesca para explorar o mundo. A primeira armada era composta por 317 navios e cerca de 28 mil homens; marinheiros, carpinteiros, soldados, diplomatas, medidos, astrônomos e especialistas em culturas estrangeiras, sobretudo islâmicas. A armada fez sete viagens, chegando à Índia, à costa Leste da África, e à Indonésia. Não se sabe ao certo todos os territórios visitados, havendo uma teoria de que teria chegado à América e ao Brasil. O objetivo das expedições não era a conquista, mas antes estabelecer relações diplomáticas, com troca de embaixadores.

As expedições ocorreram entre 1405 e 1433, pouco antes dos portugueses iniciarem a expansão europeia. Ou seja, os chineses poderiam ter criado o império ultramarino que os portugueses e espanhóis viriam a estabelecer pouco depois.

Porque não o fizeram? Um novo imperador chegou ao trono e, devido à politicagem na corte, onde existiam diversas facções, foi decidido instituir uma política oposta, de isolamento em relação ao mundo. A maior frota da história, que chegou a ter 3,5 mil navios (a Marinha norte-americana da atualidade tem menos de 350 barcos de guerra), foi queimada e os mapas destruídos. Desde esta época até ao final do século 19 a China isolou-se do mundo, repelindo os navios europeus que, entretanto, lá iam chegando. Enquanto a Europa se desenvolvia tecnologicamente e passava por lutas religiosas e grandes alterações sociais, a China permaneceu parada no tempo. A Dinastia Qing, que reinou de 1644 até 1911, manteve um sistema rígido de castas, um registo policial dos cidadãos e uma ordem social imutável. Os documentos científicos da Dinastia Ming foram queimados.

A chamada cultura ocidental – Europa e, a partir do final do século 18, os Estados Unidos e os territórios sob o domínio britânico – desenvolveu-se exponencialmente, sobretudo a partir da Revolução Industrial, no século 19, e adotou os valores "Liberdade, Igualdade e Fraternidade" em 1789. O parlamentarismo é ainda mais antigo; o primeiro exemplo ocorreu nos Países Baixos, em 1581, e o mais famoso na Grã-Bretanha, em 1707. A expansão pelo mundo, a exploração das riquezas coloniais e o contacto com outras civilizações deram ao “Ocidente” um ímpeto imparável. A China, isolada, continuava com um sistema medieval de classes e desconhecia o desenvolvimento das invenções que tinha criado.

No final do século 18, a expansão britânica chegou à China. Os ingleses tinham um modus operandi característico de exploração imperial. Trocavam os produtos entre colônias e países sob a sua influência, com margens de lucro enormes. Ou vendiam os seus produtos industriais a troco das matérias primas que precisavam, aos preços que lhes convinham. Quando o explorado não estava pelos ajustes, entravam com a artilharia. A Marinha britânica era a maior do mundo. O seu Exército o mais disciplinado e bem equipado. Não hesitavam em usá-los como força de coerção.

No caso da China, queriam chá. Em troca vendiam o ópio do Afeganistão. Em 1828, o ópio constituía 16% dos rendimentos da Companhia das Índias Orientais, enquanto 10% das taxas de importação recebidas pelo governo britânico provinham do chá chinês. Os americanos, um poder emergente na época, também começaram a negociar o ópio que compravam na Turquia. O imperador promulgou vários decretos proibindo o consumo, que já ia em milhões de utilizadores, e escreveu repetidamente à rainha Vitória pedindo-lhe que impedisse o tráfico. Não obtendo resultados, teve a ousadia de prender os comerciantes ingleses e fechar-lhes os armazéns onde circulavam toneladas de ópio. Os ingleses bombardearam Cantão e ocuparam brevemente Pequim com uma força internacional (constituída por norte-americanos e europeus). Em 1842, com a China humilhada e derrotada, obtiveram várias concessões, entre elas o porto de Hong Kong. (Macau foi uma situação diferente, negociada pacificamente entre o imperador e a Coroa portuguesa.)

Em 1853, a China, completamente em desordem, com dois imperadores, milhões de viciados e sem poder militar, foi forçada a assinar um novo tratado que legalizava o tráfico do ópio, isentava os estrangeiros de taxas de importação e abria todo o país ao comércio.

A instituição imperial, totalmente decadente, foi finalmente derrubada em 1911 por um golpe militar dirigido por Sun Yat-sen, que se tornou o primeiro presidente da República. Seguiu-se um período dominado por vários senhores da guerra, mais ou menos alinhados com conflitantes interesses entre ingleses e norte-americanos. O exército organizou-se por várias facções e recebeu algum treino moderno. Deu-se uma incipiente industrialização – sobretudo tecelagens de algodão onde trabalhavam mulheres e crianças, com equipamentos importados do Ocidente.

É este imenso país fragmentado, sem estruturas e anárquico que é invadido pelos japoneses em 1937.

O Japão teve um percurso diferente da China. Inicialmente sofreu forte influência cultural chinesa, mas nunca se deixou conquistar. Ao perceber a superioridade tecnológica dos ocidentais, enviou estudantes para o estrangeiro, que aprenderam as técnicas modernas e estudaram os processos industriais. Em 1994, invadiu Taiwan e conseguiu derrotar a Coreia, que os Chineses nunca tinham conseguido subjugar. Em 1900, uma aliança de oito nações ocidentais, incluindo a Rússia, derrotou os chineses, na Guerra dos Boxers.

Em 1904, o Japão á era uma potência industrial e naval suficientemente forte para infligir uma vergonhosa derrota à armada russa em Port Arthur, na Manchúria, com a ajuda dos ingleses. Depois das derrotas e humilhação dos ocidentais, a China viu-se ocupada pelos japoneses, com uma brutalidade nunca vista.

A estagnação da sociedade chinesa durante os séculos de isolamento e 100 anos de desastres militares marcaram profundamente a China. Em 1945, finda a Segunda Guerra Mundial, era um país imenso, imensamente destruído. É neste contexto que surge o Exército Revolucionário Popular, dirigido por Mao Tsé-Tung. Os comunistas conquistaram rapidamente todo o território, excepto a Ilha de Taiwan, último reduto dos “nacionalistas” de Chiang Kai-shek.

Os principais objetivos de Mao Tsé-Tung foram o restabelecimento do país como uma nação independente e a criação duma sociedade sem classes – sem, contudo, abandonar os princípios do confucianismo. Segundo ele, o primeiro objectivo só era possível pela união dos trabalhadores, camponeses e pequena burguesia numa única classe. Mas a estratificação social continuou, agora com uma diferença entre os cidadãos comuns e as elites do Partido Comunista.

Mao fez várias experiências catastróficas, como o Grande Salto em Frente, em 1958, (30 milhões de mortos) e a Revolução Cultural, em 1966-1969, que mergulhou a China no caos e reduziu o crescimento econômico a zero. O potencial do país, um dos maiores do mundo e com uma população imensa, continuava a escapar-lhe. Quando Mao morreu, em 1976, a China ainda era uma sociedade de costumes arcaicos e sem força industrial.

Em 1978, o seu sucessor, Deng Xiaoping (que tinha sido expulso do partido e preso durante a Revolução Cultural) resolveu mudar completamente o paradigma da orientação do partido, com uma eficiência pragmática.

Em 1991, a União Soviética desmoronou-se e Gorbachev escolheu uma orientação que se pode resumir no desmantelamento sistema político – o partido único marxista – e o desenvolvimento econômico de mercado livre. O resultado foram anos de anarquia e a criação duma classe de grandes oligarcas, vindo das máfias e do aparelho do partido dos anos da URSS.

Os chineses seguiram atentamente os acontecimentos na Rússia e Deng Xiaoping seguiu a política oposta: manter a autoridade absoluta do partido e desenvolver a economia a partir das classes mais baixas. A sua lógica era que os cidadãos, desde que lhes fosse permitido o bem-estar material, aceitariam a ditadura política.

Quando faleceu, em 1993, a China já era uma potência autônoma e possuía quadros técnicos para progredir. A filosofia confucionista, que nunca foi abandonada, favorecia uma população submissa e empenhada na tarefa de desenvolver as reservas de matérias primas (sobretudo carvão e ferro) e mão de obra barata.

Este resumo rápido da história da China é necessário para compreender a nova política de Xi-Jiping e explicar a situação atual do país, a caminho de se tornar a maior potencial mundial.

Xi-Jiping, que chegou ao poder em 2012, é um modelo dos anos conturbados por que a China passou. Filho de um próximo de Mao, foi educado nas escolas de elite do partido até que a Revolução Cultural o mandou para o campo e o pai para a prisão. Depois da morte de Mao, subiu a pulso pelos escalões da hierarquia chinesa e conseguiu que o pai fosse reabilitado. Mostrou-se um maoista fiel e cumpridor, conseguindo ser eleito, finalmente, para o cargo máximo do partido em 2012.

No seu discurso do dia 1º de outubro, descreve linearmente os objetivos da nova China e também os antecedentes que levaram a este desejo de retribuição. Xi Jiping disse que quer “erguer a China do século de humilhação, durante a Dinastia Qing, face à invasão por potências coloniais como o Reino Unido e o Japão.”

A ênfase de Pequim em desenvolver mísseis e outras armas de longo alcance refletem o seu desejo de deslocar os Estados Unidos como força dominante na Ásia Oriental, e pressionar Taiwan no sentido da reunificação. Dados estes passos, segue-se o domínio mundial do comunismo ao estilo chinês, obtido através não de vitórias militares, mas da cooperação internacional e o livre comércio – obviamente dirigido pela China. Como o atual desenvolvimento o prova, a fórmula da livre circulação e iniciativa, tuteladas minuciosamente pelo partido, é muito mais eficiente para a felicidade dos povos do que a decadente democracia ocidental, desorientada economicamente e anárquica no seu comportamento.

Mas esse amanhã que canta tem de ser apoiado por um poder militar convincente, cada vez mais presente: Segundo o Instituto Internacional de Pesquisa para a Paz de Estocolmo, a China já tem o segundo maior orçamento militar do mundo, avaliado em US$ 250 bilhões. (O dos Estados Unidos está em US$ 650 bilhões.) Por ora ocupa-se a dominar os mares à volta da China, construindo até ilhas artificiais com campos de aviação. Tem porta-aviões, aviões furtivos, drones e mísseis de longo alcance. É uma potência nuclear.

O projeto de expansão universal tem um nome, a Nova Rota da Seda. Na prática, trata-se da construção de infraestruturas portuárias, ferroviárias e rodoviárias que levarão os produtos chineses aos quatro cantos da terra. Começou em 2017 com a compra do Porto de Djibuti. Seguiu-se a concessão por 99 anos do Porto de Pireu, na Grécia e a construção do Porto de Gwadar, no Paquistão. Estradas e vias férreas estão a ser feitas ou planeadas por toda a parte; uma delas terminará na Grã-Bretanha, outra em Moscou, ainda outra em Sines. Os investimentos em África somam bilhões. Não há problemas de direitos humanos, corrupção das autoridades ou outras minudências que impeçam os negócios. Se os países não têm dinheiro, a China empresta a um juro muito alto, o que lhe dá poder político e econômico a longo prazo.

Por outro lado, Xi Jiping não descura a influência nas organizações internacionais, desde que o recebem de braços abertos e não falem dos incômodos problemas de direitos humanos que o “capitalismo cientifico” coloca. E criou o seu próprio areópago, a Organização de Cooperação de Xangai, que inclui a Rússia, Índia, Paquistão, Irã e Turquia.

Muitos analistas previam que a subida de nível de vida na China levaria inevitavelmente à vontade popular por reformas democráticas. Tal não se verificou e nada indica que vá acontecer.

Com 70 anos, o Partido Comunista da República Popular da China mostra-se um jovem cheio de energia. A longa marcha de Mao pode não ter dado os resultados almejados, mas a longa marcha de Xi Jiping ultrapassa as expectativas.

*O jornalista José Couto Nogueira, nascido em Lisboa, tem longa carreira feita dos dois lados do Atlântico. No Brasil foi chefe de redação da Vogue, redator da Status, colunista da Playboy e diretor da Around/AZ. Em Nova York foi correspondente do Estado de São Paulo e da Bizz. Tem três romances publicados em Portugal.

EMGE

*O DomTotal é mantido pela Escola de Engenharia de Minas Gerais (EMGE). Engenharia Civil conceito máximo no MEC.
Saiba mais!

Comentários


Instituições Conveniadas