Brasil

07/10/2019 | domtotal.com

Meditações imaginárias

De tanta gente que lindamente escreveu sobre esse mundo levo o gosto pelas boas palavras e dos rancorosos não consigo me libertar.

De tanta gente que lindamente escreveu sobre esse mundo levo o gosto pelas boas palavras e dos rancorosos não consigo me libertar.
De tanta gente que lindamente escreveu sobre esse mundo levo o gosto pelas boas palavras e dos rancorosos não consigo me libertar. (StockSnap/Pixabay)

Por Ricardo Soares*

Do soberbo cronista Paulo Mendes Campos roubo o título dessa crônica e a ele devo a convicção que se faz sim poesia em prosa e prosa em poesia e que se pode subverter a caligrafia se for por um bom propósito. Por causa dele e do Rubem Braga dou pouco crédito e importância a cronistas modernos desses tempos dos infernos e por causa deles eu faço uma garoa espessa em mim mesmo pensando em como seria o bairro do Leme no tempo em que eles por lá flanavam. Lugar onde flanei muito depois.

Se de Paulo Mendes roubei o título da crônica do meu avô roubei um certo azedume e um gosto remoto por partidas de xadrez e por cozinha com jeito português. Da minha avó nada roubei pois seus olhos claros alemães foram descansar muito cedo e só lembro de suas pernas envoltas em meias geriátricas quando eu adivinhava mundos sob uma mesa da sala.

Do meu pai roubei um certo esoterismo sem rumo, uma devoção mesclada sem eira e nem beira por santos, entidades e evocações em diferentes direções. Também dele levei a dura sinceridade e, doa a quem doer, o gosto por conhecer a serra do Roncador, a serra de Paranapiacaba e um abraço muito além do fraterno quando uma doença terminal lhe levou o juízo. Da mãe ficou o coração fraco embora valente, o medo do futuro, o excesso de passado, uma enorme vocação para o drama.

Das tias afanei um pouco de amor meloso, gosto por dar presentes quando posso, receitas culinárias que perdi com o tempo. De Frederic François Chopin levo para sempre a paixão arrebatadora por Polonaises e de Manuel Bandeira o apreço, açúcar e afeto pela poesia que irradia acima de tudo simplicidade.

De tanta gente que lindamente escreveu sobre esse mundo levo o gosto pelas boas palavras e dos rancorosos não consigo me libertar quando queimo a língua com palavras duras que pronuncio. De São Francisco queria tudo levar mas sou mortal, pecador imperfeito, julgador implacável que muitas vezes condena sem defesa.

De Edgar Allan Poe levo o gosto por fantasmas antigos e de Stephen King carrego os fantasmas modernos porém ianques. De Tom Jobim pego emprestado uma bossa que pretende ser só brasileira e meus olhos umedeço toda vez que da janela do avião vejo o Corcovado, o Redentor, que lindo...

Levo comigo tantas coisas nessas meditações imaginárias que trilham as trilhas das Gerais, as praias do Nordeste ou as pedras da Córsega e os lagos da Patagônia e por fim debruçam-se sobre a minha fileira de bananeiras no fundo do meu quintal que me perguntam se há pipocas modernas na minha geleia geral. Aí penso ser muito mais fácil adiar os problemas e curtir um dia de cada vez. Bem ao gosto desse freguês.

*Ricardo Soares é diretor de TV, escritor, roteirista e jornalista. Publicou oito livros, dirigiu 12 documentários.

EMGE

*O DomTotal é mantido pela Escola de Engenharia de Minas Gerais (EMGE). Engenharia Civil conceito máximo no MEC.
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