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08/10/2019 | domtotal.com

O seu tênis, a sua comida e a proteção aos oceanos

Se todas as empresas adotarem posturas de preocupação com o meio ambiente estaríamos tratando adequadamente as externalidades ambientais.

É muitas vezes difícil as pessoas amarem aquilo que elas não conhecem e não compreendem
É muitas vezes difícil as pessoas amarem aquilo que elas não conhecem e não compreendem (Sergio Hanquet/Biosphoto/AFP)

Por José Antônio de Sousa Neto* e Luciana M. T. Fabel**

A poluição dos oceanos por lixo plástico constitui um dos grandes problemas ambientais da atualidade e impõe mudanças perigosas ao equilíbrio dos mares e consequências para a própria economia mundial. Estima-se que 8 milhões de toneladas de resíduos plásticos são depositados nos oceanos a cada ano e isso implica em grande prejuízo para o ecossistema marinho, além de afetar a produção de oxigênio (a maior parte do oxigênio que respiramos vêm dos oceanos através das algas) e alimentos, armazenamento de carbono e a manutenção do equilíbrio térmico no mundo.

A consciência deste problema parece estar levando grandes empresas a adotarem práticas sustentáveis de produção e consumo. Já existem iniciativas inovadoras como a produção de artigos esportivos a partir do plástico e outros resíduos que poluiriam os mares. Um exemplo vem da parceria da Adidas e da Parley for the Oceans, uma organização em que os criadores, pensadores e líderes trabalham para a conscientização das pessoas sobre a beleza e a fragilidade dos oceanos e colaboram em projetos que podem impedir a sua destruição. 

Na verdade é muitas vezes difícil as pessoas amarem aquilo que elas não conhecem e não compreendem. A educação do consumidor deverá ser cada vez mais uma responsabilidade também da indústria. E isto, além das razões éticas e morais, se sustenta no pragmatismo econômico. Cada vez mais grandes provedores de recursos exigem evidências de governança, compliance e sustentabilidade ambiental do projetos ou investimentos a serem financiados. Evidentemente, o poder de mudança está também nas mãos do consumidor, uma vez que todos têm uma escolha e o poder de moldar essa nova mentalidade. Para se ter sucesso nos negócios é preciso encontrar maneiras de sincronizar o sistema econômico com o ecossistema da natureza e tornar a proteção ambiental uma forma de incentivar a inovação e maximizar retornos fazendo as coisas certas.

No caso da Adidas e da Parley for the Oceans a estratégia traçada é relativamente simples, eficaz e tem causado um impacto positivo aumentando a conscientização sobre a poluição dos oceanos e demonstrando que inovações são possíveis para atenuar o problema do lixo plástico. Neste caso específico, a postura adotada consiste apenas em evitar o uso de plástico com o fim das bolsas de plástico e microplástico, na interceptação dos resíduos antes que cheguem aos oceanos, e na criação de novos designs, inovando e desenvolvendo produtos a partir de diferentes matérias primas ecológicas. 

Além de benéfica ao meio ambiente e, principalmente aos oceanos, a parceria entre Adidas e Parley for the Oceans atingiu grandes times de futebol e foram criados produtos de alto rendimento para os times Real Madrid, FC Bayern Munique e Manchester United FC. Além disso, ainda realizaram eventos com a intenção de aumentar a conscientização sobre os produtos e a conservação dos oceanos. O tênis confeccionado com materiais de 11 garrafas de plástico e sola feita com borracha reciclada e re-moída, é vendido por US$ 220 a unidade e é o grande sucesso da marca, que acabou recriando três edições de seu tênis UltraBoost.

O plástico usado na confecção dos tênis e demais artigos esportivos é recolhido em comunidades costeiras, em diversos países do mundo, em mutirões de limpeza e coleta de resíduos plásticos. O lixo recolhido é enviado para depósitos na França no qual é processado e reutilizando para produção de artigos esportivos. Foi criada também uma coleção de trajes de banho, feita com poliamida e redes de pesca recicladas em um fio de fibra técnica chamado Econyl, que oferece as mesmas propriedades do náilon comum.

Embora exitam muitas iniciativas promissoras no campo da biotecnologia para a decomposição de material plástico, por exemplo, microorganismos capazes de "devorá-lo", a utilização em larga escala destas iniciativas ainda demanda mais tempo e mais pesquisas. Neste sentido, a busca, já no curtíssimo prazo, por soluções inovadoras que usem plásticos reciclados na produção são extremamente relevantes. 

A combinação destes tipos de iniciativa, mesmo que pequenas individualmente, em um contexto maior trazem contribuições importantes para um planeta que claramente não pode mais esperar.  Apenas como exemplo e para enfatizar o tamanho do problema, a maioria das pessoas nem mesmo sabe que o microplástico ingerido pelos peixes e outras espécies marinhas acaba sendo ingerido também por nós! Não precisa ser cientista para entender e prever as consequências nefastas para nossos organismos!

Nenhum outro grande movimento na história da humanidade se desenvolveu mais rápido que a causa ambiental e é por isso que o início de um projeto de mudança de consciência e comportamento de produção e consumo requer coragem e determinação. Se todas as empresas adotarem posturas de preocupação com o meio ambiente e desenvolverem tecnologias para que novos produtos sejam elaborados e confeccionados a partir de outros que seriam descartados no meio ambiente, estaríamos tratando adequadamente as externalidades ambientais, que são o grande problema do mundo capitalista da atualidade.

* Professor da EMGE (Escola de Engenharia de Minas Gerais)

* Doutoranda da Escola de Direito Dom Helder Câmara

EMGE

*O DomTotal é mantido pela Escola de Engenharia de Minas Gerais (EMGE). Engenharia Civil conceito máximo no MEC.
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