Cultura

08/10/2019 | domtotal.com

AHS 1984 - muita surpresa para pouco suspense

Para que desbravar quando se pode navegar na placidez de ondas já testadas e aprovadas pelo gosto popular?

A escolha dos anos 80 para ambientar a nova temporada de American horror Story cheira a calculado oportunismo.
A escolha dos anos 80 para ambientar a nova temporada de American horror Story cheira a calculado oportunismo. (Divulgação FX)

Por Alexis Parrot*  

Em 2011 Ryan Murphy nos apresentou uma série que destoava completamente do que havíamos visto de sua lavra até então. Conhecido pelo sucesso estrondoso de Glee e pela estranha Nip/Tuck, American horror story era algo de fato novo, ainda que trabalhando com a mesma agenda política liberal de costumes, sempre cara ao realizador e seus companheiros de criação.

O primeiro ano de AHS era de fato assustador, de uma maneira como raramente se vê na televisão. Público e crítica renderam-se em definitivo ao toque de Midas de Murphy e outras oito temporadas seguiram-se, com uma nona em curso e uma décima já confirmada. Workhaholic assumido , o prolífico autor emplacou ainda a bem-sucedida American crime story, uma maravilhosa temporada de Feud e a importante Pose.   

Um dos motivos para o frescor da série é o formato de antologia em que cada temporada apresenta uma trama independente, com começo, meio e fim. Como em uma companhia teatral de repertório, atores e atrizes podem voltar a cada novo ciclo, porém, representando personagens diferentes, com Sarah Paulson, Kathy Bates e Jessica Lange sendo as integrantes com maior frequência de participações.

Após ambientar a narrativa em um ambiente pós-apocalíptico na temporada passada, dessa vez AHS se dedica a homenagear aquele tipo de filme de terror, o slasher, onde um assassino dedica-se a exterminar todo um grupo (geralmente de adolescentes) sem razão aparente. O representante mais marcante desta linhagem cinematográfica é, sem dúvida, o vilão Jason, da franquia Sexta-feira 13, seguido de perto pelo não menos demente Michael Myers, de Halloween e suas sequências. Ambos são descendentes diretos de Leatherface, o psicopata canibal de O massacre da serra elétrica, clássico de 1974, dirigido por Tobe Hooper. 

A década de 80 marca o auge do gênero e, por isso, 1984 vem se juntar ao panteão de subtítulos emblemáticos já usados pelo programa, como Murder house, Asylum, Freak show, Coven, Cult e Hotel.     

Após um rápido prólogo e um salto no tempo de mais de uma década, aterrissamos em uma aula de aeróbica típica dos anos 80, com direito a maiôs metalizados colantes combinados com meias e polainas coloridas, além daqueles datadíssimos cortes de cabelo e penteados à la Farrah Fawcett. Para quem viveu aquele momento, é impossível não se lembrar de Perfeição, filme com John Travolta e Jamie Lee Curtis ambientado no universo das academias e verdadeira febre em 1985, ano de seu lançamento.

(De tão corriqueiras e de utilização indiscriminada, idas e vindas no tempo são uma obrigatoriedade a que as séries vêm se rendendo como se fosse uma cláusula pétrea da televisão. Obedecendo à moda, só nos três primeiros episódios de AHS 1984, já vimos: "quatorze anos depois", "uma semana antes", "ano passado", "no verão passado", "três horas antes", além de outros flashbacks e flashforwards sem a indicação precisa. Pelo andar da carruagem, até o final desta temporada, provavelmente ainda veremos algo como "dois minutos atrás", anunciando mais uma passagem de tempo.)

Apesar de bem embasada no que se propõe, a escolha da época para esta nova incursão da série, cheira a calculado oportunismo. Afinal, nada mais hype nestes anos 10 do século XXI que o revival dos anos 80 - puxado pelo megassucesso de Stranger things e perpetuado em atrações como GLOW, Black monday, Young Sheldon e White gold. Para que desbravar quando se pode navegar na placidez de ondas já testadas e aprovadas pelo gosto popular?  

Outra bola fora é o uso da época de maneira esquemática, revelando uma preferência pelo anedótico, em detrimento da substância. Desde os créditos iniciais (que lembram a abertura da novela Verão 90 ) até as referências aos vídeos fitness de Jane Fonda e às Olimpíadas de Los Angeles, tudo surge como simples ambientação. A seu favor, pelo menos até esta altura, está a distância que vem mantendo do merchandising ostensivo - o pecado mortal cometido pela terceira temporada de Stranger things.  

No pólo oposto, estão Black monday (a época usada a favor da narrativa, com comentários que remetem ao tempo atual, tanto no que se assemelham quanto no que diferem entre si) e no recém-lançado filme do Coringa. Neste último, não há cartelas anunciando ou precisando a época, mas ela está lá, na direção de arte e figurinos; nos carros que trafegam pelas ruas; nos aparelhos de televisão de tubo e retumbantes aparelhos de vídeo cassete. Onipresente na mesma medida em que silenciosa, é um trunfo narrativo do filme e muito contribui para o clima cinzento da trajetória do perturbado Arthur Flek.

Apenas em um momento é possível situar exatamente no tempo esta nova versão para a origem do vilão, quando, quase no final do filme, veem-se de relance as atrações em cartaz na fachada de um cinema de rua: As duas faces de Zorro e Um tiro na noite (este, o tratado insuperável sobre a importância do som no cinema perpetrado por Brian de Palma). Só aí o filme nos conta que se passa em 1981. Desse tipo de sutileza, AHS 1984 está a léguas de distância.

Na série de encontros que François Truffaut manteve em 1965 com Alfred Hitchcock, o cineasta francês perguntou-lhe a diferença entre suspense e surpresa. A resposta, registrada nas páginas do livro Hitchcock truffaut entrevistas (editado pela Companhia das Letras no Brasil), serve para nos guiar pelos meandros nada sutis desta nona temporada de AHS.

Assim manifestou-se o mestre: "... Estamos conversando, talvez exista uma bomba debaixo desta mesa e nossa conversa é muito banal, não acontece nada de especial, e de repente, bum, explosão. O público fica surpreso, mas, antes que tenha se surpreendido, mostraram-lhe uma cena absolutamente banal, destituída de interesse. Agora, examinemos o suspense. A bomba está debaixo da mesa e a plateia sabe disso, provavelmente porque viu o anarquista colocá-la... De súbito, a mesma conversa banal fica interessantíssima porque o público participa da cena. Tem vontade de dizer aos personagens que estão na tela: 'Vocês não deveriam contar coisas tão banais, há uma bomba debaixo da mesa, e ela vai explodir.'"

Para ele, o suspense seria "o meio mais poderoso de prender a atenção do espectador", porém, "é indispensável que o público esteja perfeitamente informado dos elementos presentes. Do contrário, hão há suspense."

Para ser fiel à matriz de onde se origina, AHS 1984 opta pela surpresa pura e simples. Segue também fiel a si mesma, com seu gosto pelo exagero, ao levar a coleção de surpresas que vão se acumulando à beira do inverossímil (e sem esquecer do elemento sobrenatural, outra de suas marcas), sem acrescentar nada de novo  - e nem de crítica - ao gênero.

Para aqueles que buscam o arrepio e o susto por si só, a série de filmes Pânico certamente seria uma opção mais interessante, justamente por ter escolhido o caminho do suspense e não da mera surpresa como cânone. Ao comentar e rir abertamente dos clichês cristalizados do slasher movie (e da própria noção de terror no cinema), a tetralogia de Wes Craven resulta superior por não se contentar em ser pastiche.

Longe do frisson causado na estreia, há oito temporadas atrás, American Horror Story 1984 diverte, mas denota algum desgaste (ou preguiça) em um programa que já assustou e ousou mais.      

(AMERICAN HORROR STORY – Nona temporada em exibição no FX, todas as quintas, à meia-noite)

*Alexis Parrot é diretor de TV, roteirista e jornalista. Escreve sobre televisão às terças-feiras para o DOM TOTAL.

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*O DomTotal é mantido pela Escola de Engenharia de Minas Gerais (EMGE). Engenharia Civil conceito máximo no MEC.
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