Religião

09/10/2019 | domtotal.com

Professor defende que a fé católica de Shakespeare é refletida em sua obra

Uma obra de arte sempre incorpora e encarna as crenças mais profundas de um autor. Portanto, a teologia e a filosofia de um autor claramente estarão presentes em sua obra.

Tributo a Shakespeare durante o desfile que marcou os 400 anos de sua morte em Stratford-upon-Avon, Warwickshire.
Tributo a Shakespeare durante o desfile que marcou os 400 anos de sua morte em Stratford-upon-Avon, Warwickshire. (Joe Giddens/PA Wire URN:26146340 / AP)

Por Sean Salai, S.J.*
América

Joseph Pearce é um escritor católico nascido na Inglaterra e crítico literário que atua como diretor de publicação de livros no Instituto Augustine, editor da St. Austin Review, da Faith Culture, da série Ignatius Critical Editions e de outras publicações, além de redator.

Especialista em fé religiosa das figuras literárias cristãs, seus livros mais vendidos incluem The quest for Shakespeare, Tolkien: man and myth, The unmasking of Oscar Wilde, C.S. Lewis e a Igreja Católica, Literary converts, wisdom and innocence: a life of G.K. Chesterton, Solzhenitsyn: a soul in exile e Old thunder: a life of Hilaire Belloc. Ele já fez dois especiais de 13 partes para televisão sobre Shakespeare na EWTN e palestrou em uma ampla variedade de eventos literários internacionais em faculdades e universidades nos EUA, Canadá, Grã-Bretanha, Europa, África e América do Sul.

Em entrevista por telefone, Pearce  fala sobre os últimos desenvolvimentos de pesquisas sobre a vida de fé de Shakespeare. A seguinte transcrição foi editada por estilo e duração.

Embora filmes como Shakespeare apaixonado tenham apresentado o Bardo como religioso ou anglicano obediente, produções mais recentes, como Will, da TNT, o retrataram como amigo dos católicos, como do jesuíta Robert Southwell, e outros o mostram inclusive como católico. O que mudou nas últimas décadas em relação à percepção popular da fé de Shakespeare?

Houve, principalmente, um aumento muito grande na quantidade de bolsas de estudos em andamento para a pesquisa do mestre, trazendo à luz fatos sobre a vida de Shakespeare que antes não eram conhecidos ou foram esquecidos e negligenciados. Então, agora, as evidências do catolicismo de Shakespeare se tornaram populares.

Embora o Bardo conhecesse muitos católicos e por isso seja difícil vê-lo fora do catolicismo, a fé de Shakespeare surgiu como um enigma na cinebiografia All is well de Kenneth Branagh do ano passado, sobre os últimos anos do dramaturgo. Na sua opinião, por que algumas pessoas ainda têm dificuldade em ver Shakespeare como um papista?

Penso que um dos problemas é que tendemos a ler no sentido pós-moderno, compreendendo através de nosso próprio orgulho e preconceito. Em outras palavras, queremos ver Shakespeare refletindo nossa própria compreensão do mundo. Portanto, essas pessoas que se opunham ao catolicismo não perceberam essa dimensão.

Posso ver as pessoas dizendo que defendo esse ponto porque sou católico. Contudo, insisto que minha pesquisa consiste em ler a obra objetivamente através dos olhos do autor, o que significa que precisamos aprender o máximo possível sobre ele. Então, embora você possa provar o catolicismo de Shakespeare lendo as peças, acho que deva começar provando isso biográfica e historicamente através de sua vida, e acho que agora há evidências suficientes, além de qualquer dúvida razoável, de que Shakespeare era certamente um simpatizante do catolicismo e, de uma forma ou outra, praticante, um católico não conformista.

Seus escritos fornecem uma avalanche de evidências sobre as conexões católicas do bardo. Se alguém lhe pedisse para declarar brevemente o argumento mais forte do catolicismo de Shakespeare, o que você diria?

Se eu tivesse que dar apenas um exemplo, apontaria para a compra da casa conhecida como Blackfriars Gatehouse em Londres em 1612, pouco antes de ele se aposentar e voltar para Stratford-Upon-Avon. Este era um notório centro de atividades católicas clandestinas em Londres. A Gatehouse (o esconderijo) permaneceu em mãos católicas desde a dissolução dos mosteiros até a compra de Shakespeare, 80 anos depois, e este insistiu que John Robinson – cujo irmão havia partido no mesmo ano a fim de estudar para o sacerdócio no Colégio Inglês de Roma – deveria permanecer como inquilino, indicando que a casa continuaria sendo usada como um centro da atividade católica. Não há como negar que Shakespeare comprou a casa para que permanecesse em mãos católicas e, de fato, em suas próprias mãos, que eram católicas.

A afiliação religiosa de Shakespeare é importante?

Seja consciente ou inconsciente, intencional ou não intencional, uma obra de arte sempre incorpora e encarna, em certo sentido, as crenças mais profundas de um autor. Portanto, a teologia e a filosofia de um autor, no contexto dos tempos em que ele vive, claramente estarão presentes em sua obra. Se Shakespeare acredita em determinado ponto, isso determinará como entendemos sua obra e, mais precisamente, seu significado objetivo.

Qual é a sua compreensão de como a fé de Shakespeare pode ter mudado ou se transformado ao longo de sua vida?

Acho que não há mais nenhuma controvérsia de que ele foi claramente criado em uma família muito católica. Seu pai foi multado por seu catolicismo, sua família era uma das famílias que permaneceram católicas, das mais notórias do país, e alguns de seus parentes foram realmente executados por seu envolvimento nas chamadas conspirações católicas. Então, certamente foi criado militantemente católico. Presume-se em alguns círculos que perdeu a fé quando veio a Londres e começou a escrever as peças, mas como mostro no meu livro A questão de Shakespeare e, como outros autores demonstraram, todas as evidências indicam que Shakespeare mantém sua fé católica durante os 25 anos, mais ou menos, que ele escreve peças e sonetos.

Por causa do esconderijo católico?

Bem, pelo esconderijo, sim, mas, por exemplo, foi levado a um tribunal por ameaçar a vida de duas pessoas. E as pessoas que ele supostamente ameaçou naquele processo foram notórios perseguidores católicos, que se gabam de invadir casas católicas, de queimar crucifixos católicos e de queimar livros católicos. Portanto, os inimigos de Shakespeare eram inimigos da fé e também acusados nesse processo judicial que incluía alguns recusantes católicos conhecidos. Esse é apenas mais um exemplo. Eu poderia continuar. Obviamente, o ponto é que agora há uma abundância de evidências para mostrar que ele manteve suas simpatias católicas. Na medida em que estava realmente praticando sua fé, é mais difícil provar, é claro, porque você não deixa um rastro de papel quando está embarcando em atividades ilegais.

Embora alguns trabalhos acadêmicos recentes continuem especulando sobre a fé de Shakespeare, o falecido G.K. Chesterton escreveu mesmo antes de sua conversão ao catolicismo que viu Shakespeare representando a alegre e velha Inglaterra católica em complemento à Inglaterra protestante capturada por John Milton. Até que ponto você acha a imagem de Chesterton útil?

Muito útil. De fato, Chesterton está refletindo algo muito semelhante ao que o beato John Henry Newman disse 50-60 (50 a 60? 50 ou 60?) anos antes: que é impossível ler Shakespeare sem vê-lo como católico. E Milton, é claro, é a antítese que se passa meio século depois.

O que você acha dos aparentes temas anticatólicos nas peças de Shakespeare?

Se você olhar para a totalidade das peças, seus vilões são geralmente maquiavélicos; em outras palavras, os praticantes da política secular e os heróis e heroínas são normalmente crentes cristãos ortodoxos autênticos. Poderíamos falar sobre Macbeth, Hamlet, Rei Lear, O mercador de Veneza etc. etc. Onde há casos de anticatolicismo, eu diria que Shakespeare está montando suas bases com a plateia. Mas se você olhar para todas as suas peças, o que aparece é uma visão de mundo católica, uma filosofia católica e, na medida do possível, uma expressão pública do catolicismo numa época em que era ilegal. Era ilegal falar sobre religião e política contemporânea no palco; então Shakespeare contorna isso definindo suas peças no passado, que era católico, e montando suas peças em lugares como a Itália, onde ele pode ter frades franciscanos andando – na maioria das vezes, retratados positivamente – e contornar a lei não falando sobre a política inglesa.

Em Henrique VI, suponho que você pôde ver o tratamento negativo de Shakespeare a Joana D'Arc como um exemplo de anticatolicismo. Mas Joana d'Arc não foi canonizada até o século 20 e era a opinião da Inglaterra Católica, antes da Reforma, que Joana d'Arc era uma figura excêntrica e não uma santa. Tudo o que Shakespeare está fazendo nesse caso é expressar a visão católica inglesa de Joana d'Arc; não é anticatólico, ele está apenas falando por seu tempo.

Com base em sua pesquisa, como você descreveria o sabor da fé de Shakespeare, o tipo de catolicismo que ele representa?

O que vemos no elizabetano Shakespeare, as peças que ele escreveu durante o reinado da rainha Elizabeth, são muitas perguntas sobre monarcas autênticos e a autoridade usurpada. Era a opinião de muitos católicos, incluindo São Pio V, que Isabel não era a rainha de boa-fé da Inglaterra e que Maria, rainha da Escócia, era a verdadeira rainha e seus herdeiros com direito à sucessão. Shakespeare brincando com esses temas seria uma maneira católica de ver as coisas.

Em desespero quando a perseguição voltou com força, sem esperança de desistir, temos as peças mais sombrias de Shakespeare: Macbeth, Otelo e Rei Lear. Em Rei Lear, temos referências aos poemas de São Robert Southwell como em algumas das outras peças de Shakespeare.

O que você espera que os leitores entendam de seus escritos sobre Shakespeare?

O mais importante é que Shakespeare foi tratado injustamente pela história – primeiro, pela ignorância dos fatos e depois pela desconstrução de quem ele é e o que diz em suas peças. Se vamos colocá-lo onde ele pertence, no auge de tudo o que há de melhor na literatura inglesa, precisamos entender quem ele é. Portanto, conhecer suas crenças mais profundas é essencial para entender as peças.

Se você pudesse dizer uma coisa ao papa Francisco sobre Shakespeare, o que seria?

Que Shakespeare nos mostra, em um sentido perene, a necessidade de sermos verdadeiros – não para nós mesmos, para citar Polonius, mas para a realidade objetiva, para a ortodoxia autêntica. Onde houver um conflito entre o mundano e o eterno, temos que estar preparados para dar a vida pelo eterno. É isso que seus grandes heróis e heroínas fazem – há uma repetição constante desse tema perene em Antígona, voltando a Sófocles, da liberdade religiosa. Penso que Shakespeare fala das tensões entre poder secular e liberdade religiosa. Nesse sentido, ele é eternamente relevante para o que Francisco ensina.

Qual é a sua linha favorita em Shakespeare e por quê?

Minha frase preferida, apenas uma, é a frase do discurso do rei Lear que começa: "Venha, vamos embora para a prisão..." Ele diz: "como se fôssemos espiões de Deus", uma alusão aos jesuítas e a uma linhagem do poema de São Robert Southwell, Lançamento da morte, no qual fala sobre Maria, a rainha dos escoceses sendo o "cheiro de Deus" e sendo esmagada, sua fragrância sobe ao céu como incenso. Shakespeare fazendo essa conexão entre "espiões de Deus" e "cheiro de Deus" me encanta.

Quais são suas esperanças para o futuro da pesquisa shakespeariana?

Às vezes digo melancólica e caprichosamente que, se eu tivesse liberdade, gostaria de escrever um livro separado em cada uma das peças de Shakespeare, porque acho que as evidências do catolicismo de Shakespeare realmente surgem quando você passa cena a cena, e não linhas fora de contexto. O que realmente precisamos são dezenas de novos livros que analisem as peças da perspectiva de Shakespeare como católico. É um trabalho muito grande para uma pessoa, mas acho que precisamos de um campo totalmente novo de jovens acadêmicos que aceitam o desafio de realmente passar pelas peças. Toda vez que visito uma peça, novos aspectos do catolicismo de Shakespeare surgem em mim, por isso é muito emocionante e ainda há muito a ser feito.

Em seu livro Shakespeare, o falecido professor católico Mark van Doren, da Columbia University, analisou cada peça, apreciando os temas por eles mesmos, em vez de analisá-los. Que valor resta na leitura do Bardo não foi feita ainda?

Isso é uma abordagem absolutamente legítima, desde que saibamos o que estamos fazendo e não pontifiquemos, com base em uma leitura recreativa, assuntos objetivos.

Alguma ideia final?

A principal coisa que tento resumir é que há duas maneiras de envolver o catolicismo de Shakespeare: uma é através da história e da biografia – a evidência biográfica – e a outra é através do envolvimento com a evidência textual das próprias obras. Vejo esses dois tipos de evidências convergindo como um arco gótico, onde um apoia o outro, e quanto mais pesquisas fazemos em qualquer metade do arco, mais se torna o catolicismo de Shakespeare mais claramente definido e delineado.


Publicado originalmente por América.

*Sean Salai, S.J., é um colaborador especial da América.

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