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10/10/2019 | domtotal.com

A noite dos bancários

Bancos tinham mesmo as portas lacradas quando os funcionários resolviam cruzar os braços.

Em poucos segundos a multidão de bancários baixou as faixas e cartazes e calou-se.
Em poucos segundos a multidão de bancários baixou as faixas e cartazes e calou-se. (Pixabay)

Por Afonso Barroso*

Do tempo que fui bancário (trabalhava no então Banco Mercantil de Minas Gerais), guardo um episódio que não me sai da lembrança. Mas, antes de contar, dou uma paradinha para lembrar a quem sabe – e informar a quem não sabe – que bancário era, nos primeiros anos da década de 1960, o trabalhador mais bem remunerado da época. Os banqueiros tremiam de medo quando a classe ameaçava uma greve. Medo não de violência ou coisa parecida, mas das consequências de uma paralisação que era sempre completa e duradoura. Bancos tinham mesmo as portas lacradas quando os funcionários resolviam cruzar os braços.

Não era só isso. Bancário tinha o melhor instituto de previdência do país, o IAPB, que garantia, além da aposentadoria, assistência médica de qualidade, entre outros serviços e benefícios. Os IAPs, como o IAPC dos comerciários, o IAPI dos industriários, o IAPM, dos marítimos etc.,  foram abolidos pelo governo militar, que decidiu unificar a Previdência no que primeiro era INPS, depois Inamps e hoje é o INSS. Mas esse é outro capítulo na história das maldades oficiais contra a classe trabalhadora.

O episódio de que sempre me lembro aconteceu no auditório da então Secretaria de Saúde, que funcionava no prédio onde é hoje o Minascentro, na Avenida Augusto de Lima. Era uma assembleia convocada pelo Sindicato dos Bancários para decidir sobre a deflagração ou não de uma greve geral.

Auditório lotado, faixas e cartazes erguidos com a palavra greve em letras garrafais e vermelhas. Não era o vermelho do PT, porque não existia PT naquela época. O vermelho era usado apenas por ser uma cor forte, cor de sangue que nem a do Mustang da melodia.

Vários oradores ocuparam a tribuna naquela noite. Inflamados, todos conclamavam à greve, cujo objetivo seria assegurar o pagamento de uma gratificação ou coisa parecida. Até que o mestre de cerimônias anunciou o pronunciamento do então presidente da Federação dos Bancários de Minas e Goiás, o sindicalista e comunista convicto Armando Ziller. Era um homem de meia idade, porte avantajado e meio careca. Corrija-me quem possa, se a descrição não for tão fiel à figura.

Ziller aproximou-se do microfone, tirou os óculos e passou a limpá-los sem olhar para a plateia. Eu nunca tinha visto silêncio mais solene e eloquente em toda a minha vida. Parado, limpando os óculos com um lenço branco, ele esperava que o auditório silenciasse, o que aconteceu quase repentinamente. Em poucos segundos a multidão de bancários baixou as faixas e cartazes e calou-se. Sem dizer uma só palavra, ele dominava o auditório. Quando já não se podia ouvir sequer o zumbir de uma mosca que porventura sobrevoasse aquele silêncio, ele falou com voz mansa e firme:

- Este, meus amigos, não é o nosso momento.

Em seguida colocou os óculos, encarou a plateia e continuou:

- Este é o momento dos patrões. Precisamos, antes de mais nada, do apoio da população para decidirmos pela greve. Sem isso, fracassaremos, e a nossa luta não admite a perspectiva de fracasso.

Disse que naquele momento os banqueiros torciam para que fosse deflagrada a greve. Eles sabiam que sem apoio popular o movimento se enfraqueceria de tal forma que o caminho inevitável seria voltar ao trabalho e reabrir as portas dos bancos. Seria a derrota. E Ziller continuou:

-Tenhamos calma, tenhamos paciência. Quando chegar a nossa hora, faremos a greve. Por enquanto, vamos continuar negociando. Eu tenho certeza absoluta de que poderemos conquistar o que almejamos até mesmo sem greve. Sejamos prudentes e jamais açodados. Nossa hora chegará, se os patrões não nos atenderem.

Foi nessa linha que ele desenvolveu o seu discurso. Ao final, saiu vitoriosa a tese que defendia de que não era o momento para greve. Terminada a assembleia, fomos todos pra casa, e eu levei comigo para sempre a força daquele homem capaz de dominar com tanta sabedoria e capacidade de persuasão uma multidão de trabalhadores indóceis, todos dispostos a um combate que seria fatalmente inglório.

Armando Ziller foi, sem dúvida, um dos maiores dirigentes sindicais da história do trabalhismo brasileiro. E um admirável orador.

*Afonso Barroso é jornalista, redator publicitário e editor.

EMGE

*O DomTotal é mantido pela Escola de Engenharia de Minas Gerais (EMGE). Engenharia Civil conceito máximo no MEC.
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