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09/10/2019 | domtotal.com

O décimo sexto tiro

As três camionetes deixaram o acampamento levantando poeira, mas nenhum deles ouviu o augúrio da coruja, que revirava os olhos no topo do toco carbonizado.

A mulher se jogou por cima do cabra para protegê-lo e não teve jeito, foi encontrar Papai do Céu também.
A mulher se jogou por cima do cabra para protegê-lo e não teve jeito, foi encontrar Papai do Céu também. (Apu Gomes/AFP)

Por Pablo Pires Fernandes*

Acordou assustado ao ouvir seu nome, ou melhor, seu apelido. A voz completou que Cabeção deveria se apressar. Ele tomou o café próximo à fogueira onde os outros homens se aglomeravam calados. Àquela hora da madrugada, só uns pios e o vento miúdo atrapalhavam o silêncio.

Olho algum se cruzava. Curvados, os corpos ensimesmados repetiam gestos mecânicos escondendo a apreensão. As três camionetes deixaram o acampamento levantando poeira, mas nenhum deles ouviu o augúrio da coruja, que revirava os olhos no topo do toco carbonizado.

Tudo foi como o previsto, bem rápido. Era uma casa de barro, com um fogão de lenha do lado de fora, com uma coberta de paus e palha de palmeira. Seis fizeram o círculo a uns 50 metros da casa, três ficaram mais próximos e dois entraram no barraco chutando a porta e dando tiro para assustar. Foram uns 15 tiros e o alvo estava eliminado. A mulher se jogou por cima do cabra para protegê-lo e não teve jeito, foi encontrar Papai do Céu também.

Tinha dois moleques. Um ficou chorando de olhos esbugalhados e o outro escapuliu pela porta do fundo. Cabeção, da turma do lado de fora, viu o menino correndo para o mato e chegou a mirar a arma para a cabeça do moleque. Num ímpeto inexplicável, desviou o cano da arma e atirou para o alto.

Pelas estradas secas, as caminhonetes cruzavam campos cheirando fumaça em alta velocidade. Distante, o zurro da motosserra sufocava o lamento do ancião, um cedro sábio. Os homens riam e contavam casos duvidosos, gabando-se deste e outros feitos espúrios. Antes de chegar à fazenda onde passariam a noite e receberiam o pago, Cabeção lembrou de seu nome de batismo: Jacinto.

A memória puxou a voz da mãe na porta de casa – não muito diferente daquela que invadiram antes do sol clarear –, dizendo sílaba por sílaba: Ja-cin-to-Vi-ei-ra-ve-nha-já-pra-ca-sa. Sabia da surra por vir, mas, obediente, sucumbia oferecendo o lombo. Agora, a queimação do chicote era passado distante. O que persistia em doer daquele castigo eram as palavras. Palavras de mãe.

Dona Jacira lhe dizia que tinha gênio ruim e rogava a algum deus inominável que colocasse o filho no rumo certo. Com custo e coração apertado, repetia ao menino o que era o certo e o que era o errado. Alheio às conversas na fazenda, Jacinto ouvia a voz da mãe e, pela primeira vez, arrependeu-se do ato. O menino correndo mata adentro e o súbito gesto de desviar a arma. Dormiu um sono atormentado, intercalado por tiros e choro de criança sem saber se era a criança que corria ou se era o menino Jacinto.

A boca amargava o café quando segurou o revólver a menos de 2 metros do chefe. Ele se virou, a mão de Jacinto tremeu e algum chamado – da mãe, do saber o certo, de algum deus – o impediu de realizar o ato. Queria acabar com todos aqueles homens, apagar a memória. Foi quando deixou de ser “o menino de gênio ruim” e apenas saiu andando. Jacinto precisou se esconder no mato e ir para longe. Achou uma cidade do interior em outro estado.

Hoje, pastor Jacinto é respeitado em sua comunidade e os dízimos são bons.

*Pablo Pires Fernandes é jornalista. Trabalhou nas editorias de Cultura e Internacional nos jornais 'O Tempo' e 'Estado de Minas', onde foi editor do caderno Pensar. É diretor de redação do 'Dom Total'.

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*O DomTotal é mantido pela Escola de Engenharia de Minas Gerais (EMGE). Engenharia Civil conceito máximo no MEC.
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