Religião

10/10/2019 | domtotal.com

Sínodo da Amazônia: quando o Espírito Santo move a Igreja

A Igreja quer responder ao grito de dor da Amazônia, eco do clamor do povo escravizado no Egito.

Papa Francisco deixa a Basílica de São Pedro em procissão durante a abertura da Assembleia do Sínodo para a Amazônia, na Cidade do Vaticano, ao lado de representantes de povos indígenas.
Papa Francisco deixa a Basílica de São Pedro em procissão durante a abertura da Assembleia do Sínodo para a Amazônia, na Cidade do Vaticano, ao lado de representantes de povos indígenas. (Andreas Solaro/ AFP)

Por Élio Gasda*

A Igreja está vivendo um momento de graça. Papa Francisco coloca a periferia do mundo no centro da vida cristã. Desde sua eleição, em 2013, sempre demonstrou afeto e preocupação pela Amazônia e seus povos. No momento em que o planeta vive uma grave crise ecológica, a Amazônia tornou-se, de fato, o centro do mundo. Com o lema “Amazônia: Novos caminhos para a Igreja e para uma ecologia integral”, teve início a Assembleia Especial do Sínodo dos Bispos para a Região Pan-Amazônica. É toda Igreja universal que dirige o olhar à Amazônia e assume seus desafios. O sínodo fala ao mundo, é um sinal dos tempos no qual o Espírito Santo abre novos caminhos de discernimento a todo povo de Deus. O Espírito Santo é o protagonista!

O sínodo realiza-se ao redor da vida do território amazônico, de seus povos e da vida do planeta. Na Pan-Amazônia vivem aproximadamente 33 milhões de pessoas. Entre esses, 3 milhões são indígenas de cerca de 390 nacionalidades diferentes. Vivem por lá outros 110 a 130 “povos indígenas em situação de isolamento voluntário”. Cada um desses povos representa uma identidade cultural, uma riqueza histórica, um modo próprio de ver o mundo. Sempre ameaçados, desde a colonização! Mas nunca colocaram o território que compartilham em risco: uma das maiores reservas de biodiversidade (30 a 50% da flora e fauna do mundo), de água doce (20% da água doce não congelada de todo planeta), mais de um terço das florestas primárias da terra e sua captação do carbono. A preservação ambiental tem que levar em conta o humano.

A Igreja é peregrina, é semper reformanda. Dialogante e acolhedora, está abrindo as portas, derrubando muros que a cercam e construindo pontes. Sem ter medo do novo. Deus traz sempre novidade (Evangelii gaudium nº 11). No discurso durante a Jornada Mundial da Juventude em 2013, Francisco falava da Amazônia como “teste decisivo, banco de prova para a Igreja e a sociedade brasileira. Sobre isso, peço, por favor, para serem corajosos, para terem ousadia”.

A missão da Igreja hoje na Amazônia é o núcleo do sínodo. Uma Igreja integrada na história e na realidade, atenta aos gritos de socorro e às aspirações da população e da “casa comum”. Igreja e ecologia integral estão interligados. O grito da terra e o grito dos pobres é o mesmo grito. A vida na Amazônia está ameaçada pela destruição ambiental, pela violação sistemática dos direitos humanos, de modo especial, a violação dos direitos dos povos indígenas, como o direito ao território e à autodeterminação. Interesses econômicos e políticos dos setores dominantes são uma ameaça constante à vida na Amazônia. “Deus nos preserve da ganância de novos colonialismos”! (Papa Francisco).

Ajudemos a defender a Amazônia, não temos outra. O grito de dor da Amazônia é um eco do clamor do povo escravizado no Egito (Êxodo 3, 7). A Igreja quer responder a esse grito dos povos. A Terra não aguenta mais. “O pecado manifesta-se hoje, com toda a sua força de destruição […] nas várias formas de violência e abuso, no abandono dos mais frágeis, nos ataques contra a natureza” (Laudato si, nº 66).

“Tira as sandálias dos teus pés, porque o lugar em que estás é uma terra santa” (Êxodo 3, 5). Ao contemplar a beleza do território amazônico, descobrimos a obra da Criação do Deus da Vida. Toda a vida está integrada neste território. Mas não é somente um espaço geográfico, a Amazônia é também um lugar para viver a fé em Deus, ou seja, é uma fonte de revelação da sabedoria e da ternura divina. Todos os seres vivos são filhos da terra. Tudo o que se faz em prejuízo da terra, se faz em prejuízo dos seres humanos e de todos os demais seres vivos. O próprio Deus se interligou com toda sua Criação.

Na voz dos pobres se encontra o Espírito; por isso devem ser escutados. O mundo amazônico pede à Igreja que seja sua aliada. Como comunidade solidária na esfera mundial, a Igreja, através do sínodo, reage com responsabilidade perante a situação de injustiça, violência e exclusão na Amazônia. É necessário assumir a denúncia contra modelos extrativistas que prejudicam a terra e violam os direitos das comunidades. Levantar a voz diante de projetos que destroem o meio ambiente e causam a morte. Aliar-se aos movimentos sociais para anunciar uma agenda de justiça. O sínodo é o retrato de uma Igreja que quer assumir, sem medo, a opção preferencial pelos pobres em suas lutas. Não sem eles, e jamais contra eles.

“Se ouvirdes a voz do Espírito não endureçais o vosso coração” (Hebreus 3,15). O Espírito Santo move a Igreja a ouvir a voz da Amazônia com a intenção de responder ao clamor dos povos e da terra. Nestes dias do sínodo, todos são convidados a deixarem-se guiar pelo Espírito. “Este sínodo é como uma mesa que Deus preparou para os seus pobres e nos pede a nós que sejamos aqueles que servem à mesa” (Dom Cláudio Hummes). Bem-aventurados os que se comprometem com a defesa da vida na Amazônia. Veni Sancte Spíritus. Et renovábis faciem terrae.

*Élio Gasda é doutor em Teologia, professor e pesquisador na Faje. Autor de 'Trabalho e capitalismo global: atualidade da doutrina social da Igreja' (Paulinas, 2001); 'Cristianismo e economia' (Paulinas, 2016).

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