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09/10/2019 | domtotal.com

Indígenas reativam a revolta contra os pacotes do FMI no Equador

Lenín Moreno rejeita diálogo com os grupos indígenas e avisa que não renunciar.

Manifestantes nos arredores da Assembleia Nacional, em Quito, em 8 de outubro de 2019
Manifestantes nos arredores da Assembleia Nacional, em Quito, em 8 de outubro de 2019 (AFP)

Uma greve geral convocada por grupos indígenas que se opõem ao presidente do Equador, Lenín Moreno, provocou o bloqueio de estradas, paralisações no transporte público e o fechamento do comércio em Quito e outras cidades do país nesta quarta-feira (9). O movimento indígena equatoriano que esteve por trás da derrubada de três governos entre 1997 e 2005.

A Confederação Nacional Indígena do Equador (Conaie) reuniu 6 mil indígenas nos arredores da capital equatoriana para pedir a renúncia de Moreno. Eles marcharam de pontos da Amazônia e da Cordilheira dos Andes em protesto contra as reformas econômicas de Moreno, que levaram ao aumento de 123% no preço dos combustíveis.

Em Guayaquil, para onde transferiu a sede do governo depois de decretar estado de exceção em consequência dos protestos, Moreno descartou renunciar e revogar as medidas, anunciadas após um acordo com o Fundo Monetário Internacional (FMI) no valor de US$ 42 bilhões.

O presidente também rejeitou diálogo com os grupos indígenas. "Não tenho motivos para renunciar pois estou tomando as decisões corretas", disse Moreno.

Revolta contra acordo com o FMI

Nesta manhã, os militares, que apoiam Moreno, pediram que a greve ocorra sem violência. Nos últimos dias, ao menos 700 pessoas foram presas nos protestos contra o presidente, que assumiu o governo em 2017 e se distanciou do padrinho político, o ex-presidente Rafael Correa, ao adotar uma política econômica pró-mercado.

A Conaie acusou o governo de atuar como uma ditadura militar ao reprimir os protestos. Na noite desta terça-feira, 8, o presidente decretou toque de recolher em alguns bairros de Quito que abrigam prédios públicos, depois de um grupo de manifestantes ter invadido a Assembleia Nacional.

"O governo tem dado dinheiro aos bancos e punido os equatorianos mais pobres", disse o presidente da Frente Unida dos Trabalhadores Messias Tatamuez, um dos sindicatos que apoia a paralisação. "Pedimos que todos que sejam contra o FMI, o responsável pela crise, que se juntem à greve."

Indígenas já derrubaram três presidentes do Equador

Historicamente, os grupos indígenas têm um papel de protagonistas na política equatoriana. Durante a instabilidade dos anos 90 e 2000, a Conaie apoiou a destituição dos presidentes Jamil Mahuad, Abdalá Bucaram e Lucio Gutiérrez. Na época, o Equador teve oito presidentes em dez anos.

Com a chegada de Correa ao poder, em 2007, o país viveu um período de estabilidade econômica e política graças ao boom das commodities e políticas sociais do presidente, que reformou a Constituição para se reeleger.

No começo do mandato, Correa se aproximou de lideranças indígenas. Adotou símbolos quéchuas - etnia da maioria dos indígenas do país - em seus discursos e aparições públicas e aprovou leis de interesse da comunidade.

A partir do segundo mandato, a exploração mineral da Amazônia equatoriana abriu uma cisão entre Correa e a Conaie. Uma marcha similar à atual foi convocada contra o presidente, em 2015.

Em 2017, no entanto, Correa surpreendeu a todos ao desistir da reeleição e indicar Moreno, que foi seu vice-presidente. No poder, ambos romperam e Moreno se aproximou da oposição. Hoje, o presidente acusa Correa de tentar derrubá-lo. O ex-presidente chama o antigo pupilo de traidor.

"Não é possível que um governo neoliberal venda o sangue de nosso povo ao FMI e por isso nos declaramos em luta indefinida. Não ao pacotaço!", disse Jaime Vargas, presidente da Confederação de Nacionalidades Indígenas (Conaie).

Hostilidade com a imprensa

A resistência indígena, como se referem a si mesmos, conseguiu em 2006 cancelar a negociação de um tratado de livre-comércio com os Estados Unidos.

Desde a chegada da esquerda ao poder em 2007, os povos originários não se mobilizavam com tanta força. Contudo, o governo reativou sua ira ao fazer um acordo com o FMI.

De estatura média, Vargas é um dos poucos líderes que fala com a imprensa. A maioria dos indígenas desvaloriza a imprensa pelo que consideram uma cobertura "mínima" de suas queixas.

Eles são avessos a câmeras e microfones. As emissoras locais precisam ter seus postos de transmissão a cerca de 550 metros de El Arbolito.

Os indígenas, que representam 25% da população equatoriana de 17,3 milhões, vão ficar em Quito indefinidamente.

As "huarmis" (mulheres, em quéchua) protestam lado ao lado dos homens, além de se responsabilizarem pela alimentação.

E os "caris" (homens, neste idioma) agem como sentinelas do acampamento improvisado, rodeando o parque em grupos, vigiando e evitando a aproximação de estranhos.

Guerreiros ancestrais

Eles só deixam chegar perto os "mestiços" que lutam ao seu lado. Nesta terça-feira (8), em uma demonstração de seu poderio, conseguiram chegar até a sede do legislativo. Um grupo chegou a entrar no hemiciclo, mas foi retirado por agentes.

Nem o gás lacrimogênio parece demover seu espírito combativo.

"Os shuar e achuar da Amazônia; os kichwas somos guerreiros; os arutam, os iwias somos quem defendemos a pátria", afirmou Vargas, exibindo orgulhoso um penacho de guerra.

Em Quito, os militares se mantêm distantes do espaço indígena - preferem aguardar para conter suas investidas fora do parque.

"Somos povos historicamente guerreiros que nos libertamos em todos esses processos", lembrou o líder achuar.



AFP

EMGE

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