Religião

11/10/2019 | domtotal.com

Por um cristianismo que assuma o Jesus Negro

É preciso repensar a imagem do Jesus de Nazaré dentro do cristianismo contemporâneo.

Ilustração feita por especialista Richard Neave para documentário da BBC em 2001.
Ilustração feita por especialista Richard Neave para documentário da BBC em 2001. (Reprodução/ BBC)

Por Matheus Souza Gomes*

A história do cristianismo no Ocidente é marcadamente etnocêntrica e racista. Ainda que as teorias raciais datem do século 19 (muitas delas baseadas no etnocentrismo europeu construído desde os séculos 9º e 10º e no chamado darwinismo social), a tradição cristã europeia, que se tornou hegemônica na parte ocidental do mundo, carrega consigo a marca do etnocentrismo com base na crença de que a verdade divina foi revelada com exclusividade na pessoa de Jesus de Nazaré. De fato, a fé na natureza divina de Jesus é base de toda a tradição cristã. O axioma “Fora do Cristo não há salvação”, permitiu que o cristianismo crescesse, avançasse e assimilasse diversas culturas e tradições religiosas (especialmente na Europa e na América). Neste processo, a institucionalização da fé cristã e a expansão de sua hegemonia se distanciaram dos princípios do Evangelho.

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A mensagem de tolerância, respeito, acolhimento, alteridade e valorização de tudo o que é diferente deu lugar a uma religião hegemônica intolerante, incapaz de conviver com outras religiões ou visões sobre Jesus, criadora de uma moral social excludente e violenta. Além disso, legitimou discursos “civilizatórios” para justificar a escravidão de povos ameríndios e africanos, juntamente à destruição ou detração de suas culturas e manifestações religiosas. Em terras brasílicas, o projeto de cristianização executado pelos portugueses se especializou em catequizar nativos e cativos africanos, além de proibir, perseguir e punir qualquer tentativa de manifestação religiosa destas etnias. Mesmo com a ocorrência de movimentos de resistência religiosa para manutenção das tradições indígenas e africanas, não se pode negar a violência do processo de cristianização implementado pelos portugueses. O resultado disso é visto até hoje.

Mas, antes de tratar desta questão se faz necessário destacar o aspecto paradoxal presente na tradição cristã: a questão da origem étnico-racial de Jesus de Nazaré. Já se sabe, a partir de estudos bíblicos, arqueológicos, históricos e teológicos, que o Nazareno, era de origem judaica, nascido na região da Palestina durante a ocupação do território por forças romanas. Bem, devido à sua herança geográfica e étnica, é possível afirmar que a imagem do Cristo concebido pela tradição cristã europeia e que se popularizou não guarda nenhuma semelhança com o Jesus histórico nascido na Palestina dominada pelos romanos. Jesus de Nazaré não era branco. Era um judeu negro do Oriente Médio.

Essa constatação que, muitas vezes, passa batido por uma parcela significativa dos cristãos e que é negligenciada por diversas lideranças religiosas, possuí relevância para a história do cristianismo e revela um interessante paradoxo da tradição: o processo de embranquecimento da principal figura religiosa da tradição cristã: o próprio Jesus de Nazaré. Se a mensagem do Cristo se baseia na abertura e respeito para com o outro, por que as igrejas cristãs no Ocidente, principalmente, se deram ao trabalho de modificar as características físicas do “Filho de Deus”? Mais do que isto, por que durante o processo de expansão do cristianismo, a imagem de Jesus com características europeias foi conservada e, ainda hoje, é difundida pela tradição cristã ocidental? São perguntas inquietantes, mas que retratam um aspecto do cristianismo hegemônico no Ocidente: o seu racismo religioso.

É preciso repensar a imagem do Jesus de Nazaré dentro do cristianismo contemporâneo. Este se tornou parte importante da engrenagem de exclusão racial e social, ajudando a alimentar os comportamentos racistas da sociedade brasileira. Principalmente no que tange ao racismo religioso praticado contra as religiões de matriz africana. Não são apenas atos de intolerância religiosa que se vê no Brasil. A intolerância partiria do pressuposto de que há igualdade de condições entre as religiões no Brasil. O que não é verdade. Também como não é verdade que existam igualdades de condições entre os cidadãos brasileiros. Assim como o racismo institucional e estrutural, que alimentam atitudes e comportamentos hostis contra os negros e indígenas no Brasil, o racismo religioso ou cultural, também abastece a cosmovisão de que tudo aquilo que não é cristão e branco deve ser combatido, inferiorizado e, se necessário, extinto.

Trabalhar para ressignificar a imagem do Jesus histórico e sua origem étnica é tarefa primordial para as tradições cristãs na atualidade. Ressaltar a origem étnico-racial do Cristo talvez seja um caminho para promover uma nova visão por parte dos cristãos em relação às tradições religiosas de indígenas e africanos. Valorizar a imagem do Nazareno como um indivíduo de origem humilde, negro, que se colocava a favor dos excluídos e questionava o sistema opressor em que estava inserido, se tornou imprescindível para retomar a essência da tradição cristã, que é de lutar por todos que se encontram marginalizados, independente de crença, origem étnica ou social.

Mudar a concepção de que o corpo pregado na cruz era de um negro, que foi brutalmente castigado pela tortura, não só faz refletir sobre a condição violenta e injusta à qual Jesus foi submetido, como, também, pode desencadear um processo de repensar sobre a tradição que, durante longos séculos, contribuiu para marginalizar e perseguir tudo o que fosse diferente de uma concepção branca e europeia, em nome do Cristo crucificado.

É preciso encarar a ferida do processo de embranquecimento do Cristo e o fortalecimento que este dá a comportamentos e ações de intolerância racial e religiosa no Brasil contemporâneo. Usar a imagem e a mensagem de Jesus de Nazaré para promover a intolerância e a perseguição religiosa já é um papel que não cabe mais àqueles que se dizem seguidores de Cristo.

*Matheus Souza Gomes é mestre em Ciências da Religião, licenciado e professor de História.



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