Religião

11/10/2019 | domtotal.com

Protagonismo negro no catolicismo

A pessoa negra é lugar teológico. A partir dela pode-se falar de Deus.

Ainda é tarefa irrenunciável da Igreja Católica no Brasil inculturar a negritude.
Ainda é tarefa irrenunciável da Igreja Católica no Brasil inculturar a negritude. (Pastoral Afro-Brasileira/ Arquidiocese de BH)

Por César Thiago do Carmo Alves*

“Deus é negro”, afirmou categoricamente o teólogo James Cone. A teologia negra nasce na experiência da senzala, mas tende aos quilombos. A senzala é o lugar da exploração e da escravidão. Os quilombos são expressões da liberdade e da festa. O Deus de Israel revelado plenamente em Jesus Cristo é o Deus da libertação que esteve ao lado do povo quando eram escravos do faraó no Egito. Sua ação consistiu em retirar, por meio de Moisés, aquela parcela escravizada para marchar rumo à terra que era sinal de liberdade: Israel.

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A pessoa negra é lugar teológico. A partir dela pode-se falar de Deus. Num país como o Brasil, onde a diversidade consiste numa marca fundamental entre o nosso povo, mesmo sabendo que ainda existem grupos e pessoas que, por preconceitos, têm dificuldade de aceitar a diversidade, tem-se a necessidade de visibilizar esse grupo. Olhando para o cenário social percebe-se que do ponto de vista econômico são os negros que possuem um maior déficit. É a população negra que compõe a maior parte do grupo dos desempregados e subempregados. 

Tudo isso é fruto de um longo processo histórico, quando, em tempos idos, as pessoas negras foram  escravizadas e por fim abolidas sem que lhes fornecessem o mínimo de condição para sobreviver. Tiveram que, em meio à desigualdade, buscar formas para poder minimamente viver. Sua cultura lhe foi negada, bem como sua religião. O processo de dominação portanto, nota-se, se deu a partir da repressão em três níveis: 1) econômico, pois eram escravas. Nesse sentido eram objetos e não sujeitos; 2) cultural, negando a história e subjetividade que cada uma trazia em si. Como mercadorias não eram nem produtores e nem receptores de cultura; 3) religioso. O cristianismo se impunha e tudo o que ia à contramão da fé cristã ocidentalizada não era tolerado. O religioso estava intimamente ligado ao político e ao econômico.

Considerando esses três níveis de dominação, com a abolição, recompor-se como povo se tornou uma tarefa difícil a ser empreendida. Estruturar-se economicamente, resgatar a cultura e a religião num meio já dominado por uma elite privilegiada não constituiu um empreendimento dos mais fáceis. No entanto, era fundamental. Uma perspectiva cristã já havia se solidificado. Havia se tornado hegemônica. Isso se arrasta até os dias atuais. É a partir daí que emerge a pergunta: qual é o protagonismo da pessoa negra no catolicismo?

A resposta para essa pergunta tem um marco. É o Concílio Vaticano II (1962-1965). Ele foi um marco de abertura teológico da Igreja para o mundo. A recepção das orientações do Concílio Vaticano II proporcionou o fortalecimento da Teologia da Libertação e a formação de grupos eclesiais engajados na luta contra as injustiças sociais a partir do dado da fé. 

Entre os grupos mais atuantes estavam as Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) formadas nos anos de 1970 e 1980, geralmente em bairros periféricos, que conjugavam a ação religiosa e a mobilização política, visando transformar as condições socioeconômicas das populações em situação de vulnerabilidade social. Foram nesse ambiente que surgiram em 1983 os Agentes de Pastoral Negros (ANPs). Esses agentes eram formados por padres, religiosos e religiosas, leigos e leigas. O grupo não tinha somente católicos. Pessoas de outras matrizes religiosas, inclusive de religiões afro-brasileiras compunham o grupo. Indubitavelmente, um marco dos ANPs foi a Campanha da Fraternidade de 1988 com o lema: “Ouvi o clamor deste povo”. O objetivo era questionar a posição da pessoa negra e do pobre na sociedade. Dos ANPs surgiu a Pastoral Afro-Brasileira, criada no final dos anos de 1990.

No interior da Igreja Católica, esses grupos buscaram valorizar as manifestações centenárias do catolicismo negro, em geral marginalizadas, com as festas das irmandades negras com as de Nossa Senhora do Rosário, congadas, moçambique, ternos etc. Houve uma busca de inculturar a liturgia trazendo “elementos africanos” para a própria celebração eucarística. Realizavam-se celebrações cujo culto se dirigia igualmente ao santo católico e ao orixá afro-brasileiro, como na festa de Santa Bárbara – Iansã – organizada pela Igreja do Rosário dos Pretos, no Largo do Pelourinho, em Salvador, na Bahia. Após a missa campal era feita uma procissão que reunia o povo católico, o povo de santo e a população em geral. Durante as cerimônias os padres e a população saudavam a santa e invocam o orixá com o brado: “Eparrei Oya!”.

Mesmo com todo esse movimento para que haja um protagonismo da pessoa negra dentro do catolicismo, ainda nota-se que existe uma forte oposição. Essa oposição advém de uma negação da própria cultura negra que vem sendo resgatada. Não é incomum ver padres negar o espaço religioso para a celebração de uma missa animada pelo congado. Alguns justificam afirmando que isso é coisa de “macumba”. Que não tem nada a ver com a religião católica. Isso demonstra o absoluto desconhecimento. 

A ocidentalização branca do cristianismo na própria formação dos presbíteros leva os mesmos a não se abrirem para a diversidade étnica existente e para colaborar com o resgate cultural dos povos. A pessoa negra é muito bem-vinda na Igreja desde que se “romanize” na cultura e na liturgia. Ainda sua cultura é negada. Do ponto de vista da representatividade, que é importante, na hierarquia, o episcopado brasileiro não chega a atingir nem a 3% de bispos negros. Isso é sintomático no cenário brasileiro.

Ainda é tarefa irrenunciável da Igreja Católica no Brasil inculturar a negritude. Enriquecer-se com elementos advindos das religiões afro-brasileiras, sem perder a sua identidade. Que Kalunga (Aquele que reúne) seja nosso guia para viver eclesialmente na comunhão, acolhendo a cultura negra, para que haja um efetivo protagonismo das pessoas negras. Sem acolhimento da cultura não existe um verdadeiro espaço para um protagonismo efetivo.

*César Thiago do Carmo Alves é doutorando e mestre em Teologia Sistemática pela Faje, graduado em Filosofia e Teologia, possui especialização em Psicologia da Educação e membro do grupo de pesquisa Teologia e diversidade afetivo-sexual da FAJE.



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